"Desde que comecei a vir aqui, já posso comprar iogurtes e papas"

Uma mulher vai directa ao balcão com uma criança ao colo e outras duas à frente, a andar pelo próprio pé. Não olha para os homens que entraram sozinhos e se sentaram à mesa com um tabuleiro azul ou vermelho e que agora comem, em silêncio, pão fresco, sopa de legumes, arroz de lulas.

Se pudesse, não vinha à cantina social do Lar Sant"Ana, a única que existe em Matosinhos. O filho mais velho também não. Está com dez anos, já percebe o que significa entrar aqui com sacos cheios de recipientes vazios. Ainda há pouco viu um colega de escola. "Que vergonha", disse à mãe.

Enquanto o marido trabalhou, Cláudia Silva não precisou de apoio alimentar. O serralheiro ganhava uns mil euros por mês. Quando ele ficou desempregado, estava ela em casa. Vivem com 398 euros de subsídio de desemprego e 105 de abono. O que lhes vale é só pagar 25 euros de renda à câmara.

Nos primeiros tempos, só contava com os cabazes de uma confraria cristã e os sacos de carne da sogra. Não lhe parecia tão complicado saciar toda a gente quando dava peito ao mais pequeno, agora com um ano. De repente, três miúdos a pedir comida que ela não conseguia comprar. "Desde que comecei a vir aqui, há três meses, já posso comprar iogurtes e papas", revela.

A família de Cláudia não conta para a estatística da emergência alimentar. Esta cantina social nem sequer faz parte do programa nacional. Era uma das 60 que já antes tinham protocolo com o Instituto de Segurança Social. E excede em muito o número de refeições convencionadas.

O Lar Sant"Ana serve refeições a pessoas carenciadas há 80 anos. O protocolo com o Estado, lembra o presidente da instituição particular de solidariedade social, António Pedro Correia, contempla 25 pessoas. Desde 2011, muitas outras bateram à porta.

Servindo-se de recursos de outras valências, decidiram instituir dois turnos nesta sala de paredes revestidas a azulejo branco. Entre as 12h e as 13h, entrariam os "oficiais". Entre as 13h e as 14h, os que aguardam vaga. Agora, servem 56 num turno e 73 noutro.

Por vezes, a refeição principal não chega para todos os que se vão somando. "Sopa e pão não negamos a ninguém", diz António Pedro Correia.

Cláudia leva o almoço completo. Lá para as 19h virá buscar pão e sopa para o jantar. "Estou contando que a vida comece a melhorar para deixar de vir aqui", comenta, já com os recipientes cheios arrumados nos sacos. O marido teve uma proposta de trabalho. Brasil, "lá terá de ser".

As famílias com crianças começaram a aparecer no ano passado. Antes, só aqui entravam desempregados com muita idade ou doença mental, alcoolismo ou dependência de drogas ilícitas. Alguns, como Manuel Aguiar, de 40 anos, e a namorada, de 33, recorrem a outros serviços. Neste edifício, distribuição de vestuário e calçado, lavandaria, higiene pessoal, enfermagem, apoio psicossocial.

Manuel está a tentar encontrar uma saída. Andou com a namorada a apanhar morangos na Bélgica. "Tinham dito que pagavam cinco euros por hora e nem isso e ainda queriam que pagássemos renda", conta. Aguentaram-se quatro meses. No centro de emprego, nada encontram agora. Ela encontrou. Dispensaram-na mal perceberam que todos os dias toma metadona, uma droga de substituição da heroína. "Isto é um país pequeno", justifica ele. "Sabe-se tudo." Andam a reduzir a dose. A ideia é deixar as drogas e avançar para a Suíça, onde ele tem um tio. A emigração aparece como último reduto mesmo no último grau do país ou quase.