Orient reabre 60 salas e torna-se no segundo maior exibidor no país

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Este negócio acontece numa altura em que as salas de cinema portuguesas, onde o filme mais visto do ano é, até agora, Velocidade Furiosa 6, continuam a perder espectadores DANIEL ROCHA

Fecho de salas da Socorama deixou dez cidades sem cinema mas as de Leiria, Loures e Guia podem reabrir já este mês. Portugal e acordo com a Sonae Sierra são porta para mercado europeu e africano

Os cinemas dos centros comerciais de Leiria, Loures e Guia devem reabrir já este mês - são as primeiras salas de um conjunto de 60 que o brasileiro Grupo Orient vai explorar em dez shoppings, devolvendo assim a sete cidades e aos distritos de Viana do Castelo e Castelo Branco e ao arquipélago dos Açores a exibição cinematográfica comercial diária. O Orient, com a chancela Cineplace, torna-se o segundo maior exibidor do país na sua estreia em Portugal.

Os 60 ecrãs em causa localizam-se em shoppings Sonae Sierra (do Grupo Sonae, detentor do PÚBLICO) e eram salas ocupadas até ao final de Janeiro pela exibidora Socorama em Viana, Covilhã, Ponta Delgada, Loures, Leiria, Seixal, Portimão, Funchal, São João da Madeira e Guia. O presidente da Orient Cinemas, Aquiles Mônaco, explicou ontem ao PÚBLICO que prevê abrir em Agosto pelo menos três complexos: as sete salas do LeiriaShopping, outras sete no LoureShopping e os nove cinemas do AlgarveShopping (Guia). "Depois a Madeira e Açores", estima, prevendo a Sonae Sierra em comunicado "ter todas as salas a operar até ao final de 2013".

Os centros comerciais AlgarveShopping, Centro Comercial Continente de Portimão, Estação Viana Shopping, LeiriaShopping, LoureShopping, MadeiraShopping, Parque Atlântico (Açores), Serra Shopping (Covilhã), RioSul Shopping (Seixal) e 8.ª Avenida (São João da Madeira) voltarão assim a ter cinemas com estreias simultâneas com o resto do país. A saída da Socorama destes espaços, motivada quer pelo fim do contrato de exploração (caso de Portimão) ou, na sua maioria, por dívidas à Sonae Sierra, fez com que no último semestre algumas destas localidades tivessem apenas acesso ao cinema em cineclubes ou salas municipais.

Aquiles Mônaco, que já em Janeiro tinha admitido ao PÚBLICO ser "um ideal operar em Portugal", fala da recepção positiva das autarquias à reabertura das salas. E chega em tempo de crise, "um grande desafio, mas um país como Portugal não vai ficar a vida inteira em recessão".

Sem quantificar o montante investido neste negócio, a maior presença do Orient fora do Brasil - detém mais de 20 salas na região do Nordeste e oito salas no Belas Shopping, o primeiro centro comercial angolano, em Luanda, onde começou a operar há seis anos -, tem um plano a cinco anos para a operação em Portugal. "Nos primeiros três anos, a empresa não tem qualquer expectativa de absorver resultados em Portugal", diz ao telefone do Brasil, "e em cinco anos quer crescer em Portugal e melhorar estas salas". Questionado sobre o papel de Portugal como porta de entrada na Europa e noutros mercados para o Grupo Orient, o responsável admite o seu interesse "em mercados operados pela própria Sonae na Europa, e principalmente em África".

A chegada da Cineplace reorganiza novamente o ranking de exibidores em Portugal, que já este ano sofreu mexidas com o fecho de 70 salas da Socorama (ver caixa). À chegada, posiciona-se já como o segundo maior exibidor no país - 60 salas, 15% do mercado.

O mais importante exibidor continua a ser a Zon Lusomundo, com 210 salas em 29 recintos (e 64,1% das receitas de bilheteira no primeiro semestre de 2013), seguindo-se-lhe a norte-americana UCI, com 45 ecrãs, a israelita CinemaCity (New Lineo), com 37 salas, e a Socorama, segundo dados actualizados do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) fornecidos ao PÚBLICO. O recém-chegado Orient (marcas UCI Orient, Orient Cinemas e Cineplace) quer ainda expandir a sua posição para uma quota de "40 a 45%" do mercado, prevendo abrir mais salas nos próximos anos, "até para ter uma operação mais rentável", diz Mônaco.

Sem medo da crise

Este negócio acontece numa altura em que as salas de cinema portuguesas, onde o filme mais visto do ano é, até agora, Velocidade Furiosa 6, continuam a perder espectadores. Se em 2012 menos 1,9 milhões de pessoas foram ao cinema em Portugal em comparação com 2011, o primeiro semestre de 2013 não dá sinais mais animadores: perderam-se mais 607 mil pessoas frente ao ecrã em relação ao período homólogo de 2012.

"Não temos medo da crise, passámos por crises bem graves no Brasil", diz Aquiles Mônaco. Em Portugal, há menos espectadores e menos receitas. Entre Janeiro e Junho, houve uma quebra de 11,9% em relação aos primeiros seis meses de 2012, uma passagem de 32,8 milhões de euros para 28,8 milhões. O preço dos bilhetes (e a subida do IVA), mas também a mudança de hábitos e a pirataria são alguns dos motivos apontados para esta descida constante e para as dificuldades no mercado. "O cinema não pode ser encarado como um produto qualquer e é isso que vamos tentar falar com os órgãos governativos portugueses", diz Mônaco.

Os cinemas agora a explorar pela Cineplace foram frequentados em 2012 por mais de dois milhões de espectadores e Mônaco quer fazer "um trabalho eficiente para resgatar esse público com uma programação mais ecléctica e dirigida à família e um atendimento atractivo", frisando: "O cinema é uma diversão barata". Mas identifica "certas limitações" no mercado de exibição português. "A maior é que acima dos 30 anos o hábito de ir ao cinema é muito baixo; e também o facto de ser trabalhado [promocionalmente] o filme e não o cinema."

Do lado positivo, as acessibilidades - um só complexo de cinemas chega a muita gente. E o Grupo Orient chega também para reforçar o que já é uma tendência portuguesa: é mais um exibidor no país dos multiplexes, repondo as peças em falta desde Janeiro num puzzle que se desenha sobretudo nas cidades do litoral. Nos últimos anos, fecham pequenos cinemas, com um ou dois ecrãs, e abrem sobretudo multiplexes, de acordo com dados do ICA, muitos dos quais em centros comerciais urbanos - que vêem no cinema um ingrediente para "proporcionar uma oferta comercial e de lazer diversificada", como diz em comunicado Cristina Santos, responsável pela gestão de shoppings da Sonae Sierra em Portugal.

Em 2012, o Grupo Orient, presente no top 20 das empresas do sector no Brasil, teve uma facturação global de 30 milhões de euros, segundo a mesma nota da Sonae Sierra.