O mundo assistiu à degustação do primeiro hambúrguer de laboratório

O primeiro hambúrguer de carne in vitro foi ontem cozinhado e comido. Apesar de ter custado 250 mil euros, mostrou-se que é possível fazê-lo e pode ser o início de uma mudança na alimentação humana

Do prato de laboratório directamente para a frigideira, o primeiro hambúrguer feito com carne de vaca produzida totalmente in vitro foi ontem cozinhado e comido em Londres. O espectáculo culinário está longe de se estender já às cozinhas domésticas e dos restaurantes. Afinal, estes 140 gramas de proteínas produzidos por uma equipa de cientistas holandeses custaram cerca de 250 mil euros. Mas esta demonstração poderá servir como ponto de partida para desenvolver uma alternativa alimentar no futuro, quando a população humana exigir muita mais carne para a sua alimentação.

O gesto mais simbólico da demonstração foi quando o chefe Richard McGeown pegou no pratinho onde estava o hambúrguer e bateu com ele algumas vezes na frigideira, para soltar o pedaço de carne artificial. Foi o momento da passagem "do laboratório para a cozinha", que pôde ser assistido por toda a gente com acesso a uma ligação à Internet.

O hambúrguer foi então frito e colocado num prato ornamentado com três fatias de tomate, um pão de hambúrguer e algumas folhas de salada, para ser dado a provar. A degustação começou com Hanni Rützler, uma especialista em alimentação, seguiram-se-lhe Josh Schonwald, autor do livro O Sabor do Amanhã, e Mark Post, o cientista responsável por este desenvolvimento científico. Os três levaram à boca um pedaço deste naco de proteínas que teve a sua génese entre pipetas e tubos de ensaio, na Universidade de Maastricht, na Holanda.

"Esperava que a textura fosse mais macia. A dentada é parecida com a carne, mas não é tão suculenta", descreveu Hanni Rützler, que, tal como Josh Schonwald, se ofereceu como cobaia para provar o hambúrguer. Os dois queixaram-se da falta de gordura na carne, o que fazia com que o hambúrguer estivesse a uma temperatura maior do que o normal.

Mark Post foi mais pragmático. "É um começo muito bom, estou muito feliz com o hambúrguer." O cientista falava para uma plateia de jornalistas, numa demonstração patrocinada por Sergey Brin, um dos fundadores da Google. Ontem soube-se que Brin foi o mecenas até agora secreto desta parte final do projecto, doando os 250 mil euros para os três meses que levou a produzir este hambúrguer.

Em Fevereiro de 2012, Mark Post mostrou pela primeira vez que era possível criar músculo de vaca a partir de células estaminais. Na altura, prometeu fazer uma experiência pública. "A razão para a demonstração não é para dar a ver um produto final, mas para mostrar que, na realidade, conseguimos fazer isto", explicava à BBC News. "A partir daí, precisamos de trabalhar muito e gastar bastante dinheiro para tornar o processo eficiente e a um custo rentável."

Falta de ferro e de gordura

Os 140 gramas de carne artificial foram produzidos a partir de poucas células. A equipa de Mark Post começou por retirar uma amostra de músculo de uma vaca. Depois, separou os diferentes tipos de células que compõem este tecido, para isolar as células estaminais do músculo, precursoras das fibras musculares, que são activadas quando acontece um ferimento nos músculos.

Estas células foram colocadas numa solução para se multiplicarem milhões de vezes. Em seguida, foram dispostas nos buracos redondos de placas de laboratório. Estes buracos têm pequenos cilindros de gel no meio. Aqui, mediante outra solução, estas células diferenciaram-se e agregaram-se à volta destes cilindros, formando tubos de fibras musculares com cerca de um centímetro de comprimento e alguns milímetros de espessura. Os cientistas armazenaram 20.000 pequenas tiras de músculo no congelador, destinadas ao hambúrguer comido ontem. Como estas células musculares são esbranquiçadas - falta-lhes o ferro para dar cor vermelha -, a carne do hambúrguer foi tingida com sumo de beterraba para se assemelhar a um pedaço de carne convencional, e acrescentou-se-lhe ainda pão ralado, caramelo e açafrão para dar sabor.

Mesmo assim, a falta da gordura, que existe normalmente num músculo, foi uma diferença notada pelos dois provadores do hambúrguer. Este é, aliás, um dos desafios que a equipa de Mark Post tem de ultrapassar, se quiser desenvolver uma alternativa real à carne natural, que evite matar animais, mantenha o sabor e seja competitiva a nível comercial.

Há muitos mais desafios. Na solução onde as células se desenvolvem, há soro de vitelo, que é obtido do sangue destes animais quando são mortos nos matadouros. Será necessário encontrar uma alternativa para a carne ser produzida sem recorrer à morte de animais. Por outro lado, poderá ter de se desenvolver um processo automatizado que exclua a mão humana. Desta forma, a produção da carne poderá ser feita num ambiente estéril, o que, em teoria, evitará a utilização dos antibióticos e antifúngicos que hoje têm de ser adicionados. Por fim, só num processo de massificação é que este hambúrguer-proveta poderá tornar-se competitivo.

Mark Post espera em dez a 20 anos atingir estes objectivos, produzindo 175 milhões de hambúrgueres com células de uma única vaca. Hoje, para obter o mesmo número de hambúrgueres é necessário matar 440.000 vacas. Numa altura em que se prevê um aumento na procura de carne mundial de 73% até 2050, esta alternativa permitiria reduzir as vacas mortas, as áreas agrícolas para alimentar estas vacas e a poluição feita por esta indústria.

Apesar da utilização deste novo tipo de carne não ser consensual entre os vegetarianos, todos defendem que é pelo menos um passo em frente. "O hambúrguer consistirá em tecido muscular real bovino, mas que nunca pertenceu a uma vaca que sofreu ou que lançou metano [para a atmosfera e tem efeito de estufa] enquanto digeria a sua refeição", escreveu Peter Singer num artigo no jornal The Guardian. O filósofo diz que não come carne há 40 anos, mas isso poderá mudar: "Se a carne in vitro se tornar disponível a nível comercial, ficarei contente em experimentá-la."