Futuros arquitectos deram outra cara a Covas do Monte e à casa de Irene

Foto
O projecto reuniu voluntários de todo o país, e não apenas alunos da Católica de Viseu. Entre futuros arquitectos, docentes e mestres de obra, foram cerca de cem os voluntários que deram uma casa nova a Irene Rodrigues Fotos: sérgio Azenha

Durante dez dias, cem voluntários trabalharam de borla na aldeia de S. Pedro do Sul. Moradores começaram por desconfiar do projecto lançado pelo curso de Arquitectura da Católica de Viseu, mas agora pedem mais

Irene Rodrigues tem mais de 70 anos e nunca soube o que é ter cozinha ou casa de banho. Vive em Covas do Monte, uma aldeia perdida na serra de São Macário, concelho de São Pedro do Sul, e durante 50 anos habitou numa casa sem água canalizada e com uma instalação eléctrica que não aguentava mais do que um frigorífico. Até ontem. Entre 26 de Julho e 4 de Agosto, a equipa do Terra Amada - um projecto do curso de Arquitectura da Universidade Católica de Viseu que visa melhorar as condições de vida e preservar o património histórico das aldeias de xisto de São Pedro do Sul - deitou mãos à obra para lhe mudar a vida.

O projectos reuniu voluntários de todo o país, e não apenas alunos da Católica de Viseu. Entre futuros arquitectos, professores universitários e mestres de obra, foram cerca de cem os voluntários que durante dez dias trabalharam para entregar à idosa uma casa completamente nova: com isolamento térmico, móveis, electrodomésticos, toalhas e louça. "Terra Amada por quem habita, por quem visita, por quem parte, por quem regressa" é o lema do projecto que, além desta habitação, interveio numa azenha com mais de 200 anos, num espigueiro, na antiga escola primária - hoje um restaurante e único ponto de encontro da aldeia - num cabril, em vários caminhos e no anexo da casa da família Martins. Os espaços foram escolhidos pela população, a quem coube identificar as necessidades mais urgentes.

A casa de Irene tem agora três divisões e o chão, antigamente coberto de sacos de plástico e embalagens vazias, trapos e restos de comida, ganhou um revestimento de vinil lustroso. A idosa, que costumava lavar-se num alguidar de plástico azul e ia ao campo fazer as necessidades, tem agora um poliban e uma sanita e parece nem acreditar no que lhe aconteceu: "Se estou contente? Então, não? Está tudo muito bem", diz ao PÚBLICO. Só ainda não sabe se será capaz de utilizar a moderna placa que lhe faz as vezes do fogão: "A minha filha e a minha neta têm uma igual, vamos lá a ver se consigo..."

Entre os apoios estatais e de cerca de 50 empresas privadas - sobretudo dos distritos de Viseu e Aveiro - o Terra Amada reuniu mais de cem mil euros em materiais de construção, ferramentas e até alimentos. "Precisámos de milhares de euros em materiais, sem contar com o apoio técnico na construção. Com a crise, nunca esperei que as empresas fossem tão generosas. Deram-nos tudo do bom e do melhor, nem sequer ofereceram o mais barato", conta Ana Pinho, professora universitária e coordenadora do projecto.

Lucinda Martins tem 45 anos e as mãos calejadas pelo trabalho no campo. Caminha pelas ruelas de Covas do Monte com molhos de folhas de videira à cabeça, que são para alimentar as cabras. Nunca viveu uma situação tão complicada: "Antigamente, um comerciante do Porto comprava-me as cabras todas para o S. João, mas este ano nem cá apareceu." Há muito que Lucinda queria tornar o anexo da casa onde vive mais confortável, mas faltou-lhe sempre o dinheiro.

A juntar à crise, somam-se os lobos que só numa semana já lhe mataram três cabras. "Fazia falta é que o mata-lobos voltasse a trabalhar, mas agora é proibido", lamenta. O mata-lobos de que Lucinda fala é João de Almeida, um homem desdentado de 87 anos que se gaba de, "no tempo do Salazar", ter matado "num só dia mais de quatro lobos" com a espingarda.

Os voluntários do Terra Amada não mataram os lobos, mas forraram o telhado, isolaram as paredes e tornaram o anexo de Lucinda mais acolhedor, de modo a que os familiares, quando a vêm visitar - e ao marido e aos dois filhos -, se sintam mais confortáveis. "Ao início, parece que não acreditávamos muito [no projecto], mas agora é uma maravilha", confessa.

Para que tudo ficasse pronto a tempo, os voluntários chegaram a levantar-se antes das cinco da manhã para se deitarem já depois das 11 da noite. "Apesar do cansaço, estou a gostar muito da experiência. O voluntariado é um abrir dos olhos que nos ajuda a perceber outros tipos de vida. Aqui aliámos a teoria que aprendemos na faculdade com a prática, algo que só é possível em ambiente de obra", avalia António Lapa, 23 anos, antigo aluno do curso de Arquitectura do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e Empresas do Instituto Universitário de Lisboa.

Com pouco mais de 40 habitantes (entre eles uma criança e dois jovens), Covas do Monte foi a aldeia escolhida, entre as mais de dez candidatas, porque, apesar de tudo, não está condenada ao desaparecimento: as pessoas têm orgulho nos seus campos cultivados (vivem sobretudo do cultivo de milho e da criação de gado) e, nas férias, ainda recebem visitas que vêm de longe.

Irene e Lucinda foram as únicas a abrir a porta das casas ao Terra Amada. O presidente da Junta de Freguesia de Covas do Rio, José Martins Eiras, diz que "a D. Irene é pedinchona" e que, por isso, se "safa bem". Mas a verdade é que os restantes aldeões desconfiaram de tanta boa vontade gratuita. Agora que as obras estão concluídas, os caminhos reabilitados e as paredes da antiga escola primária mais brancas, perguntam todos os dias: "E à minha casa, quando é que vêm fazer obras?" "Estamos a tentar repetir a iniciativa", avança a coordenadora do projecto.