EUA fecham embaixadas com receio de ataques até ao fim do Ramadão

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NIR ELIAS/REUTERS

A vigilância das redes revela um perigo "muito específico" para Agosto, contra interesses americanos ou ocidentais. Mas a Al-Qaeda hoje é algo tão difuso que é difícil perceber o que é afinal "específico"

Há um perigo "muito específico" de um ataque terrorista de grupos relacionados com a Al-Qaeda que levou os Estados Unidos a prolongar até 10 de Agosto o encerramento de 19 das suas embaixadas e consulados no Médio Oriente e em África, depois de duas dezenas de representações diplomáticas terem estado fechadas no domingo.

Mas essa sombra de perigo é ao mesmo tempo muito vaga: "Presume-se que o mais provável é que possa acontecer no Médio Oriente, mas não há garantia nenhuma. Pode ser na Europa. Ou nos EUA. Pode ser uma série de ataques coordenados", disse Peter King, membro da Comissão de Informações e Segurança Interna do Congresso, um dos poucos políticos postos a par do teor da ameaça.

Certo é que várias representações diplomáticas norte-americanas em países considerados sensíveis, ou que já foram alvos de ataques (como a de Sanaa, no Iémen, por exemplo, que reúne os dois elementos de perigo), foram encerradas preventivamente até depois da festa muçulmano do Id al-Fitr, que assinala o fim do mês santo do Ramadão, explica a CNN.

O Ramadão termina amanhã ou na quinta-feira - varia nos diferentes países muçulmanos consoante começa a ser visível a Lua na sua fase crescente. O fim do Ramadão é assinalado com uma festa, o Id al-Fitr, que na maioria dos países dura três dias. O Departamento de Estado norte-americano referiu-se a este calendário religioso no domingo à noite: "De acordo com os costumes e práticas locais, durante grande parte da semana da celebração do Id e do fim do Ramadão várias embaixadas e consulados serão encerrados."

O Reino Unido, França e Alemanha também encerram algumas das suas embaixadas, e a Noruega anunciou que restringe o acesso público às suas representações diplomáticas. No domingo, as embaixadas já tinham sido encerradas porque era a Noite de Poder. "Esta foi a noite em que os primeiros versos do Corão foram revelados ao profeta Maomé e é vista pelos aspirantes a mártires da Al-Qaeda como um momento auspicioso para morrer", explicou Peter Bergen, especialista em segurança da CNN. Ataques do passado provam-no.

A decisão de encerrar embaixadas e lançar um alerta global ocorreu depois de terem sido interceptadas comunicações entre líderes operacionais da Al-Qaeda, em que se discutiriam ataques contra alvos americanos no Médio Oriente e Norte de África. A intercepção terá sido feita pela Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês), que ganhou notoriedade por causa das revelações sobre os seus programas de vigilância global feitas por Edward Snowden (ver texto ao lado).

"Esta é a ameaça mais séria aos EUA que vi nos últimos anos", afirmou o senador republicano Saxby Chambliss sobre as escutas que levaram as autoridades norte-americanas a tomar estas medidas. "As conversas entre terroristas sobre os seus planos fazem lembrar o que se passava antes do 9/11 [os ataques de 11 de Setembro de 2011]", afirmou.

"A informação de que dispomos permite-nos concluir que a Al-Qaeda e as organizações com ela relacionadas continuam a planear ataques terroristas, e que podem fazer ataques entre o início de Agosto e o fim do mês", adiantou Chambliss.

"Esta é a nova Al-Qaeda. Entende-se melhor como um movimento espalhado do que como uma organização única", disse ao New York Times o especialista em terrorismo da RAND Corporation Seth G. Jones.

O factor Bengasi

Mas estes são também os tempos pós-ataque à embaixada norte-americana em Bengasi, a 11 de Setembro de 2012, no qual foi morto o embaixador Chris Stevens e três outros americanos. Na sequência desse ataque terrorista na Líbia, a então embaixadora dos EUA nas Nações Unidas, Susan Rice, foi mandada avançar com uma explicação confusa - e, veio a demonstrar-se, não muito precisa - sobre o que aconteceu e foi alvo de uma perseguição implacável pelos republicanos, que tornaram impossível a sua nomeação como secretária de Estado, como era o desejo do Presidente Barack Obama.

Hoje, Rice é a conselheira de Segurança Nacional, e estará a liderar a resposta a este alerta. Reuniu o Conselho de Segurança Nacional, mesmo na ausência de Obama, e estará a agir com as precauções que lhe foram incutidas pela crise de Bengasi pela forma como a Administração reagiu - ou não reagiu - aos sinais de perigo há um ano. Os republicanos não se estão a queixar de excesso de zelo.

Fugas em massa

Os receios foram potenciados pelas fugas em massa de prisões na Líbia, Iraque e Paquistão, no fim de Julho, em dias quase seguidos. Foram libertados quase 2000 prisioneiros, e organizações relacionadas com a Al-Qaeda reivindicaram os ataques às cadeias que permitiram a fuga, que aliás foram muito semelhantes. A Interpol, no sábado, lançou um alerta de segurança global por causa destas fugas em massa, e disse suspeitar da mão da Al-Qaeda. A revista Foreign Policy interrogava-se se estas fugas serão uma nova estratégia da Al-Qaeda para "desestabilizar instituições estatais, e libertar membros e aliados".

Entre a informação interceptada pelos norte-americanos está um discurso do líder da Al-Qaeda, Ayman al-Zawahri, colocado na terça-feira em fóruns online, em que apelava a ataques a interesses americanos, em resposta a ataques de drones no Paquistão e Iémen. Segundo a AFP, Zawahiri, um egípcio, acusa também os EUA de terem "conspirado" com o Exército egípcio para terem afastado, num golpe, o Presidente islamista Mohamed Morsi.

Aliás, o Egipto é considerado um possível palco de atentado terrorista. Em Maio foram presos três homens que disseram estar a preparar um ataque contra a embaixada americana e que tinham 11 quilos de nitrato de alumínio e instruções sobre como fazer bombas produzidas pela Al-Qaeda na Península Arábica.

Os EUA consideram esta organização que actua a partir do Iémen a mais perigosa das várias que se reclamam como braços da Al-Qaeda. Tem tentado ataques de alto impacto e beneficia das capacidades do químico saudita Ibrahim Hassan Tali al-Asiri - que concebeu a bomba transportada nas cuecas pelo nigeriano que tentou fazer explodir um avião sobre os EUA no dia de Natal em 2009.

Mas estas medidas de segurança poderão evitar um atentado? Isso não é fácil de responder, mas pode haver um motivo estratégico para encerrar as embaixadas, disse à CNN a analista de segurança Frances Fragos Townsend. "Ao impedir o acesso aos alvos, ganha-se tempo para tentar identificar a célula terrorista e, trabalhando com os nossos parceiros na região, prender [os terroristas] e impedir o ataque."