Artur do Cruzeiro Seixas: A palavra amor é incendiária

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Cruzeiro Seixas na sua casa, em Vila Nova de Famalicão, onde vive actualmente. Em baixo, com a mãe, perto de Luanda, em 1954. Em Angola, fez uma colecção de arte africana e uma exposição surrealista que chocou a sociedade colonial Nélson garrido

Foi uma das figuras do surrealismo português. Quis ser como os outros. Foi mais livre.

A sala tem as persianas corridas a metade; lá fora, Vila Nova de Famalicão com um movimento de cidade a sério. Artur do Cruzeiro Seixas mudou-se recentemente para aqui, para ficar perto do Centro de Estudos do Surrealismo da Fundação Cupertino de Miranda, a quem doou o seu espólio e a sua colecção de arte.

Enquanto vai falando, imagino a seu lado a sua mãe e o seu pai, com quem viveu até eles morrerem, o Mário Cesariny, o insubstituível, e ainda o Mário-Henrique Leiria, o António Maria Lisboa. Não se pode sobreviver sem continuarmos os diálogos com as pessoas ausentes que amamos.

Diz logo que não sabe dizer datas e por isso não há quase datas neste texto. Mas lembra-se de 1949, ano da primeira exposição de Os Surrealistas, o segundo grupo surrealista português ou grupo dissidente, em que participou, e de 1950, quando saiu de Lisboa pela primeira vez, embarcando no Rovuma, fardado de branco.

Não se apresenta como artista. "Artista" soa a alguém que se acha mais importante do que os outros e ele quis ser simplesmente um homem. Mas é claro para mim, desde o primeiro instante, que ele não é um homem como os outros.

Tem 93 anos. Os olhos, as mãos, já não podem fazer os desenhos de traço fino pelo qual se reconhece um Cruzeiro Seixas. Trabalhou até muito tarde, quando já não podia desenhar, fazendo colagens com tudo o que lhe vinha à mão: revistas, sacos de papel, cartão usado. O momento em que deixou de trabalhar foi o momento em que, não estando morto, deixou de viver.

O pequeno apartamento podia estar em qualquer lugar, o que faz a casa é o que está dentro: em cima da mesa de café, fósseis, com aquela brancura de cadáver, encontrados por pescadores na costa angolana; logo na parede em frente da poltrona em que se senta, um manuscrito de um poema do Mário Cesariny, assinado de Estremoz, 1949, com aquela letra sem reprimenda; por toda a casa, trabalhos seus, cadavre exquis feitos com outros surrealistas, quadros de amigos e de autores que admira; no corredor, um quadro muito pequeno, o único redondo, de Teixeira de Pascoaes, com duas figuras de chapéu numa meia lua, remando em pé como num canal de Veneza (atrás está escrito: "Eu e o Raúl Brandão sobre a lua... a fugir da Inquisição"); à porta, no primeiro passo, um quadro com fundo vermelho e fósforos pegados escrevendo: "A PALAVRA AMOR É INCENDIÁRIA".

Um homem na água

O mar, ali aos pés, parecendo quase quieto. O corpo cortando a água. Já na areia, fazia desenhos no seu caderno; a partir do momento em que descobriu que podia andar a desenhar por aí, levava sempre um caderno, um lápis e uma borracha. E foi quando estava a desenhar, naquela praia vazia, uma praia que só existia quando a maré vazava e que era pouco maior do que uma casa simples, que apareceu um rapaz de 18 ou 19 anos, seria alguns anos mais velho do que ele, com um saquinho onde trazia uma barra de sabão. Havia um fio de água - seria exagero chamar-lhe queda de água -, natural, que caía da rocha. O rapaz olhou para ele desconcertado por não se encontrar só na praia, mas despiu-se para tomar banho, como teria feito se estivesse só.

Foi a primeira pessoa que viu nua: um homem. Não podia, na altura, desenhar aquilo, o esplendor. Era uma visão que guardaria como íntima, como se ele próprio tivesse despido o rapaz.

Só pensaria nisso dessa maneira anos depois, na altura limitou-se a olhar, de certa forma como olhava o mar, com fome de vida. E só anos depois poderia ver a ironia em que tivesse acontecido numa praia, essa praia que aparecia e desaparecia todos os dias, coisa mágica, junto do forte de Santo António do Estoril, onde Salazar, três décadas depois, cairia da cadeira.

Quando em Lisboa, já adulto, levava para o atelier um marinheiro, via então nele reflectido esse mesmo olhar enquanto ele próprio ia ficando nu. Ele, então, despia o marinheiro lentamente, a branca e bonita farda saindo por camadas.

Um homem no seu lugar

Max Ernst, o pintor surrealista de origem alemã, chegou a Lisboa acompanhado de Peggy Guggenheim, que o tinha conseguido salvar de um campo de detenção alemão em França, e reencontrou a inglesa Leonora Carrington. Tinham sido separados pela sua prisão, ela tinha fugido de França, tinha enlouquecido em Madrid, procurando Franco, planeando matar Hitler, tinha voltado a fugir de um manicómio espanhol. A guerra tinha separado os surrealistas como tinha separado outras famílias. Ela pensava que Max Ernst estava morto. Há versões da história de amor que contam que se reencontraram num mercado de Lisboa; outras, sobre a Baixa da cidade, no topo do elevador de Santa Justa. Não se sabe o que disseram um ao outro. Voltaram a separar-se. Ele partiu de avião com Peggy Guggenheim, os filhos e o ex-marido dela. Ela partiu com um diplomata mexicano num barco que levava, por coincidência, alguns dos quadros dele para a América.

Artur do Cruzeiro Seixas não viu nem um nem outro nem os quadros, e só soube muito mais tarde que Max Ernst, uma das figuras mais importantes do surrealismo, tinha estado em Portugal. Os refugiados estavam ali mas os portugueses não os viam. Cruzavam-se, mas andavam realmente em mundos diferentes. Nessa altura, ele já tinha passado pela escola de artes António Arroio, mas não sabia ainda o que era o surrealismo.

O primeiro emprego que teve foi durante a guerra, a fazer senhas de racionamento para as pessoas poderem ir às mercearias buscar o que lhes cabia. Do grupo próximo de amigos que tinha conhecido na António Arroio ou nos cafés, ele era o único que tinha emprego. Foi tendo vários. Era, orgulhosamente, um empregado pouco dedicado, e desenhava sempre que podia no horário de trabalho. Faltava-lhe tempo e por pouco não falhou a fotografia de grupo de 49, da primeira exposição de Os Surrealistas. O surrealismo tinha entretanto chegado a Portugal, por livros e notícias trazidas pelos poucos amigos que saíam do país e voltavam. Parecia ser aquilo de que tinham estado à espera, uma ideia de arte como vida e de vida como revolução. Apesar de tudo, não foram muito importunados pelo regime. Eram meia dúzia de jovens, poucos anos ainda assim todos somados, nada que mudasse um país, habituado há séculos, pelo menos desde a Inquisição, a saber que o sonho não estava na ordem das coisas.

Tornaram-se pássaros. Ele e o Mário Cesariny, muitas vezes acompanhados da amiga surrealista Isabel Meyrelles, apanhavam um barco, depois uma camioneta, e a seguir caminhavam até uma das praias vazias da Costa da Caparica. Mergulhavam nus. Faziam buracos na areia para procurar água doce. Era o princípio do mundo.

Os pescadores deixavam espalhadas as bóias das redes. Eram de vidro, verdes e brancas, brilhavam ao sol. Tinham a liberdade de olhar. Viam coisas. O que parecia que não estava, estava lá.

Um homem, um negro

Pés atados com pés. Os brancos riam de um humor que era pura crueldade ou então questão de manterem sanidade. Foi essa a primeira impressão que teve de África. Passou por Angola quando andou embarcado durante dois anos, contando as cargas que entravam e as cargas que saíam, numa posição entre os oficiais e os marinheiros. Mais tarde, regressou para ficar. A praia de Luanda era menos selvagem do que as da Costa da Caparica, povoada por brancos, muito satisfeitos consigo mesmos. Luanda era a civilização que já não lhe interessava. Quando estava na cidade era um óptimo participante da sociedade organizada, mas sempre que podia ia ao mato. Queria conhecer o homem negro, talvez fosse um homem melhor. Nas aldeias comprava objectos e assim fez uma exposição e uma colecção de arte negra. Da exposição, ficaram artigos polémicos, que mostravam já o medo que existia depois do início da luta pela independência dos povos africanos. A colecção de arte negra, vendeu-a para comprar os bilhetes de barco de regresso a Portugal, para si e para os pais. Tinha tomado a decisão no dia em que um doutor e um engenheiro lhe bateram à porta com uma metralhadora para que ele e o pai se juntassem à brigada de defesa do bairro.

Passou 14 anos em África. Havia muita distância entre Portugal e Angola, mais distância entre as conversas nos cafés de Lisboa e nos de Luanda, e ainda mais distância entre ele e o Mário Cesariny.

Durante esses anos, escreveram cartas um ao outro. Cada vez que lia uma carta voltava a confirmar que não havia outro como ele, que não voltaria a encontrar outro Mário.

"Mas são ternas / as cartas que trocam entre si / os seus heróis. / É certo que as árvores cantam por toda a parte / a sua música / e que há enfim leões e elefantes / no centro de Londres / de Paris ou de New York. / Agora a tua face está cravejada de ponteiros / e a manhã que acaba de nascer / regressa ao ventre materno." Escreveu poemas para matar saudades, empilhava-os, não adiantavam. Quando voltou para Lisboa, talvez já nem o Mário Cesariny pudesse substituir o Mário Cesariny.

Uma árvore miraculada

No jardim do restaurante onde fomos almoçar, nos arredores de Vila Nova de Famalicão, ainda havia flores viçosas e uma figueira que o fez lembrar a sombra de uma árvore, onde comia, com sensualidade de criança, figos, servidos por uma tia num prato, com a cabeça cortada, aos quartos.

No interior do restaurante pediu, e era um pouco bizarro que o fizesse, que se arranjasse maneira de abrir a cortina fixa da janela mais próxima para o verde escondido.

Com o gravador desligado e a garrafa de vinho esvaziando-se rapidamente, tive a impressão de que as frases se escreviam directamente: "Se não nos enganarmos a nós próprios, a vida é tão bonita".

Disse também, a dado momento no almoço, quando falava da encenação amorosa que sempre lhe parecia que precisava o sexo e da ilusão que era o amor, que ninguém sabe o que é o amor verdadeiro. Mas quando falava do Mário Cesariny, pensei que era isso o amor verdadeiro, ele sabia.

Depois, falava de todas as coisas com uma excitação de primeira vez, que só consigo explicar com a ideia de que se trata de uma atitude, uma coisa definidora, tomada de jovem, porque se tinha feito homem numa época em que os princípios eram o único caminho para a felicidade, um tempo de tudo ou nada, em que uma escolha num momento mudava o resto da vida, e não me saía da cabeça um verso do Cesariny: "os dias e as noites deste século têm gritado tanto no meu peito / que existe nele uma árvore miraculada".

A comida era deliciosa, o ar puro, as estradas infinitas, as pessoas, quanto mais frágeis mais extraordinárias, com tanto para oferecer. Quando voltei para Lisboa, tudo me parecia mais bonito, como se visse também com olhos que amam tudo o que os rodeia, com esse amor louco de que falaram todos os surrealistas e que mais não era do que a ideia de não morrer sem ter vivido. Vi os cruzeiros turísticos entrar no Tejo e tive saudades dos navios, como se de facto também eu tivesse visto os marinheiros desaguando na Baixa de Lisboa, como um campo de girassóis voltando-se para o amor.

durante a guerra, a fazer senhas de racionamento para as pessoas poderem ir às mercearias buscar o que lhes cabia. Do grupo próximo de amigos que tinha conhecido na António Arroio ou nos cafés, ele era o único que tinha emprego. Foi tendo vários. Era, orgulhosamente, um empregado pouco dedicado, e desenhava sempre que podia no horário de trabalho. Faltava-lhe tempo e por pouco não falhou a fotografia de grupo de 49, da primeira exposição de Os Surrealistas. O surrrealismo tinha entretanto chegado a Portugal, por livros e notícias trazidas pelos poucos amigos que saíam do país e voltavam. Parecia ser aquilo de que tinham estado à espera, uma ideia de arte como vida e de vida como revolução. Apesar de tudo, não foram muito importunados pelo regime. Eram meia dúzia de jovens, poucos anos ainda assim todos somados, nada que mudasse um país, habituado há séculos, pelo menos desde a Inquisição, a saber que o sonho não estava na ordem das coisas.

durante a guerra, a fazer senhas de racionamento para as pessoas poderem ir às mercearias buscar o que lhes cabia. Do grupo próximo de amigos que tinha conhecido na António Arroio ou nos cafés, ele era o único que tinha emprego. Foi tendo vários. Era, orgulhosamente, um empregado pouco dedicado, e desenhava sempre que podia no horário de trabalho. Faltava-lhe tempo e por pouco não falhou a fotografia de grupo de 49, da primeira exposição de Os Surrealistas. O surrrealismo tinha entretanto chegado a Portugal, por livros e notícias trazidas pelos poucos amigos que saíam do país e voltavam. Parecia ser aquilo de que tinham estado à espera, uma ideia de arte como vida e de vida como revolução. Apesar de tudo, não foram muito importunados pelo regime. Eram meia dúzia de jovens, poucos anos ainda assim todos somados, nada que mudasse um país, habituado há séculos, pelo menos desde a Inquisição, a saber que o sonho não estava na ordem das coisas.