Ameaça é oportuna para a NSA

Falcões negam conspiração para abafar crise

Para quem não acredita em coincidências, a decisão de encerrar embaixadas com base em ameaças não especificadas detectadas em comunicações entre membros da Al-Qaeda soa, no mínimo, oportuno para uma Administração que passou os últimos dois meses a defender os programas de vigilância da Agência de Segurança Nacional (NSA). A suspeita é repudiada pelos apoiantes destes programas, mesmo quando dizem que sem a polémica monitorização os EUA estariam tão desprevenidos como antes dos atentados de 2001.

"É absolutamente insano dizer que há aqui uma conspiração", reagiu o republicano Peter King, membro da Comissão de Informações e Segurança Interna da Câmara dos Representantes e, por isso, um dos congressistas a serem informados pela Casa Branca do teor das alegadas ameaças. Em entrevista, no domingo à ABC, King disse que tem sido muito crítico de várias decisões tomadas pelo Presidente Barack Obama, mas "o Governo teria sido completamente negligente se não tivesse adoptado as medidas que adoptou".

Por uma vez, republicanos e democratas estiveram de acordo, quer ao sublinhar a gravidade da ameaça quer ao elogiar a reacção do Departamento de Estado. "Estou feliz por ver que neste caso estão a levar muito a sério [as suspeitas]", disse à CBS o também republicano Michael McCaul, contrastando com o que aconteceu antes do ataque, em Setembro de 2012, ao consulado dos EUA em Bengasi.

A Casa Branca tem sido parca em explicações, mas quer fontes da Administração quer os senadores e congressistas que nos últimos dias receberam briefings dizem que os serviços secretos se depararam com a conspiração através da intercepção de comunicações electrónicas entre "conhecidos terroristas" - declarações que atribuem à NSA uma primazia pouco habitual nas investigações. Até agora, sempre que o nível de alerta terrorista nos EUA foi elevado, a decisão foi justificada ou com factos concretos (como os atentados de Londres, em 2007) ou com informações recolhidas, sem distinção, pelas agências de serviços secretos.

Um destaque que cai como uma luva à NSA, que viu toda a sua actividade posta em causa quando o ex-analista Edward Snowden revelou a existência de programas de recolha e armazenamento maciços de dados telefónicos e de Internet, não só no estrangeiro como de cidadãos americanos. A Administração assegura que tudo o que é feito tem enquadramento legal e o próprio Obama insiste que programas como o Prism são vitais no combate ao terrorismo.

Esta ameaça "é uma boa demonstração de porque são tão importantes os poderes atribuídos à NSA", disse na NBC Saxby Chambliss, líder dos republicanos na Comissão de Informações do Senado, enquanto o seu colega de bancada Lindsey Graham afirmava na CNN que o caso deveria servir de exemplo para os congressistas que, no final de Julho, votaram derrotados uma proposta para limitar os poderes da agência. "Se querem reformar os programas da NSA, muito bem. Mas se querem destruí-los, então devem saber que estão a tornar o país menos seguro e a pô-lo em risco." Um argumento que não convence quem, como Adam Schiff, quer que a NSA se concentre na vigilância de suspeitos. Ouvido pela CNN, o congressista democrata disse que nada sugere que os programas que recolhem informações das chamadas e emails trocados por americanos "tenha tido qualquer contributo para descobrir esta conspiração". Ana Fonseca Pereira