O realizador Rodrigo Areias Manuel Roberto
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O realizador Rodrigo Areias Manuel Roberto

Rodrigo Areias: o que o Estado faz é aumentar as assimetrias

Rodrigo Areias, da Bando à Parte, explica como é produzir cinema num país "cada vez menos Europeu e cada vez mais focado no umbigo da capital do Império"

Rodrigo Areias, nascido em 1978, é produtor e realizador da produtora audiovisual Bando à Parte (BàP), sediada em Guimarães, no Centro para Assuntos de Arte e Arquitectura (CAAA).

No versátil espaço CAAA, falou ao P3 sobre os recém-premiados filmes, produzidos pela BàP, no Curtas de Vila do Conde, e das dificuldades de fazer cinema em Portugal.

Dos quatro filmes apresentados em Vila do Conde, destacou o facto de dois não terem tido qualquer financiamento. Um deles venceu o Grande Prémio (reconhecimento atribuído, apenas, pela segunda vez a um filme português): "É altamente gratificante perceber que, às vezes, há ideias simples, muito concisas, que são altamente funcionais e que comunicam de forma universal", conclui, referindo-se a Carosello, um filme de Jorge Quintela.

O júri, maioritariamente composto por programadores de festivais internacionais de cinema, mostrou interesse em incluir o filme de Jorge Quintela na sua programação. Para Rodrigo, o interesse internacional que o prémio suscita faz com que haja um crescente interesse também no público português.

Rodrigo explica que as debilidades do nosso país na produção cultural se devem, em grande parte, ao facto de consumirmos pouca cultura por manifesta incapacidade do Estado em pensar "estruturas de financiamento a longo-prazo".

Por outro lado, o novo decreto regulamentar da Lei do Cinema e do Audiovisual, aprovado em Conselho de Ministros a 19 de Julho, fá-lo olhar para o futuro com moderado optimismo porque, "bem ou mal, pelo menos temos novas regras, pelo menos temos mais dinheiro para filmar", diz.

A falta de dinheiro faz com que deixem de existir cine-teatros com programação que inclua o cinema independente. "Esse trabalho não pode ser feito por uma distribuidora, porque a distribuidora não tem interesse cultural em promover aquele objecto, tem interesse comercial", afirma o produtor.

Reforça que esse interesse cultural deve partir do Estado, mas o que este faz é exacerbar assimetrias: "Na verdade, o que tens é a população privilegiada de Lisboa que tem acesso a esses filmes. Depois, a população da maior aldeia do país, chamada Porto, que consegue chegar a muito pouca coisa. O resto da população muito dificilmente terá acesso ao cinema."

Essa tendência reflecte-se, também, na cada vez maior concentração de festivais de cinema nos grandes centros. O Curtas de Vila do Conde é, por isso, uma excepção porque, argumenta Rodrigo, "tem uma história tão sólida e, internacionalmente, uma imagem tão marcada, que já não é possível que desapareça.”