O município com menos gente em Portugal não tem emprego. Mas ninguém quer sair de lá

Com 1834 habitantes, Barrancos é o município com menos população de Portugal continental. Como é viver num sítio onde todos se conhecem e não há emprego que chegue?

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José Sarmento matos

Barrancos é, em Portugal continental, o município com menos população: tem 1834 habitantes. Como é viver num sítio onde todos se conhecem e não há emprego que chegue? O que faz com que os barranquenses fiquem? Primeira de uma série de reportagens sobre o país em vésperas de eleições autárquicas. Escolhemos cinco municípios a partir de uma característica que represente uma tendência geral: ou por ser mais expressiva ou por estar em contra-relógio. Será que podemos ver em Barrancos o que acontecerá no futuro a Portugal se a população diminuir e envelhecer, como apontam projecções? Para a semana, Lousada, o concelho dos jovens

Quando sai de casa, Idalina Borralho e a família deixam a porta aberta - ou "escancarada", como diz ela a olhar para os filhos Sofia e David, num tom entre a brincadeira e a chamada de atenção. Aqui, em Barrancos, não há roubos - há segurança. As estatísticas de crimes, de tão baixas, não registam dados. Tirando a altura das festas de Agosto, em que esta vila do Baixo Alentejo é invadida por aficionados das touradas, durante o resto do ano não há preocupação em andar na rua seja a que hora for.

Entre os 1834 habitantes de Barrancos, é comum dizer-se "bom dia" e "boa tarde" a quem passa. E se por acaso alguma coisa desaparece, como foi o caso do chapéu-de-sol no restaurante de Idalina nas festas do ano passado, há alguém que viu e indica o caminho para a encontrar, conta ela, a rir.

Isolada no mapa, com hospitais a mais de uma hora de carro, uma comunidade pequena e sem oferta de emprego, Barrancos é o município com menos população no continente, e tem vindo a diminuir nas últimas décadas: era de quase 3429 em 1960, e de 2157 em 1981. Que faz as pessoas continuarem a viver em Barrancos? Ou, pelo contrário, porque não vive mais gente num sítio onde se sabe quem nasce e quem morre?

Para a mesa do restaurante onde trabalham mais três pessoas além dos donos - Idalina e o marido Rosândio José (ele 42 anos, ela, 41) -, vem salada, batatas fritas, arroz, leitão assado (prato do dia) e uma bolonhesa para David, o filho adolescente que está agarrado a um tablet. Despachada a ronda da hora de almoço, põem a mesa, onde se sentam ainda as cozinheiras Ana Rico e Cristina Caçador. Não são da família, mas ao fim de 12 anos a trabalharem juntos "é como se fossem". Entre eles, falam barranquenho, um dialecto que soa a uma mistura entre castelhano e alentejano e que pode hipnotizar quem ouve (os "s" e os "z" finais das palavras são engolidos, os "s" do meio também podem não se ouvir; os pronomes colocam-se antes, como o castelhano ou o português do Brasil).

Até irem para o 9.º ano e saírem de Barrancos para o liceu em Moura - ou seja, meterem-se na camioneta às 7h para um percurso de uma hora -, as crianças falam sobretudo barranquenho. Quando chegam a Moura, "é uma turma inteira à espera" que falem alto "para gozar", lembra Idalina dos seus tempos de estudante. Ainda sem o treino de adaptarem o sotaque ao padrão nacional, os filhos Sofia (11 anos) e David (13 anos) parecem dois espanhóis a conversar - ela dirá mais tarde que fala "uma migalha de espanhol" e que gosta mais da televisão espanhola. Mas não os ouviremos muito: são tímidos.

Fala mais Idalina, despachada, desenvolta com as palavras e expressiva. Convida-nos a juntar à mesa de almoço. No restaurante há cartazes das touradas em Barrancos e pernas de presunto penduradas. Idalina adianta-se aos outros, primeiro para falar com entusiasmo da forte qualidade de vida em Barrancos, onde há tudo, diz, mas onde afinal falta uma escola secundária a partir do 9.º ano, um hospital, serviço médico 24h/7 dias, projecção de cinema - e, acima de tudo, emprego. Quem quer ir às urgências do centro de saúde depois do horário de expediente, vai a Encinasola, em Espanha, que fica a 15 minutos de carro. Quem quer trabalho além do funcionalismo público, fábrica de presuntos ou cuidados a idosos, vai para fora.

Chega-se, de Lisboa, à vila através da estrada nacional via Évora, e é só a partir da Amareleja, a cerca de 30 quilómetros, que se começam a ver as setas a dizer Barrancos. Até lá, é como se não existisse no mapa. Mas podemos dizer que Barrancos é a cidade dos 100 quilómetros: é a esta distância, mais ou menos, que está de Évora, de Beja, de Badajoz, de Mértola, de Sevilha...

À entrada, uma grande placa diz qualquer coisa como "bem-vindo à capital do presunto". Ao mesmo tempo, o telemóvel começa a apitar com mensagens a dar as boas-vindas a Espanha - é desligar o roaming automático para garantir que ainda estamos na rede móvel portuguesa. As fronteiras entre os dois países são pouco nítidas. Para pessoas como Idalina e Rosândio, ir a Espanha "não é ir ao estrangeiro". Primeiro são barranquenses, depois portugueses - espanhóis é que não. "Mas há muita coisa da cultura espanhola que a gente gosta mais do que da portuguesa. Olhe, tudo o que é relacionado com touros, touradas e sevilhanas." Os espanhóis vêm ao fim-de-semana ao restaurante, agora menos, e vão também à piscina municipal. Os barranquenses vão a Espanha pôr gasolina (mais barata) ou comprar gás. Só que Sofia, por exemplo, só tem amigos portugueses.

No restaurante, Idalina segue dizendo que se vive bem em Barrancos, até à idade adulta e tendo trabalho. Depois há quem seja obrigado a sair "de má vontade" porque "é muito afixado à terra, às tradições", como o filho da cozinheira Cristina que tem 26 anos, estudou Turismo mas está em Lisboa a trabalhar numa loja.

Idalina não vê os miúdos a abandonar o liceu só porque têm de ir estudar a Moura (em 2012/2013, houve 30 jovens a estudar nesta cidade, mais 10 em Évora ou Beja, segundo a câmara). É que "em Barrancos toda a gente é muito parecida", "toda a gente tenta fazer muito igual". "Toda a gente critica toda a gente, não convém que o meu filho deixe a escola senão isso é falado. Se o vizinho tem, eu também quero ter."

Isso é bom e é mau: bom, porque quando é preciso ajuda, ela aparece; mau, porque quando é preciso criticar, todos criticam. São coisas de povo pequeno, relativiza Idalina. Vê-se que lhe sabe bem a descrição que faz de ir ao café sem ter nada combinado porque encontra sempre alguém. E hoje estar em Barrancos não é estar completamente isolado, como há mais de 20 anos, na altura em que começou a namorar, e nem sequer existia um telefone fixo na rua para falar com Rosândio. "Ele estava na Suíça, escrevíamos cartas ou íamos aos Correios telefonar."

Idalina seguiu-o. Estiveram dez anos em Genebra, a trabalhar na restauração. Ele chegou a ser gerente numa cadeia internacional. Conheceram muita gente, "de "n" raças" num país "que é muito cosmopolita", trabalharam com muita gente, o que "faz com que abramos o espírito", percebendo "que o mundo é diferente de viver em Barrancos". Notou diferença na "mentalidade" quando voltou mas, acrescenta Rosândio, isso "é muito relativo, há pessoas que nunca saíram daqui e têm uma mentalidade muito aberta". E há quem esteja "uma vida inteira na Suíça e volte com a mentalidade fechadinha", termina Idalina.

Regressaram quando surgiu a hipótese de abrir o restaurante em Barrancos, com David já nascido e Sofia por nascer. "Sempre quis voltar, porque estavam cá os meus pais e sou muito apegada à terra. Foi sempre o objectivo: ir, fazer dinheiro e depois voltar. Não me fazia emigrante até ao fim dos meus dias." O pior foi o sistema de saúde, "horrível" quando "comparado com a Suíça", onde tinha a "maternidade atrás da porta" e uma enfermeira e uma parteira só para ela, quando em Portugal tinha de viajar hora e meia até Beja para as consultas com médico particular.

Mas há várias vantagens em Barrancos. Com a Internet, não se sentem tão apartados do resto do país. Têm rendas mais baratas, por exemplo (com 150 euros por mês, já se consegue arranjar uma casa com dois quartos, dizem). Há um complexo com três piscinas municipais, um parque de exposições com um cine-teatro que pode passar cinema, mas não o faz regularmente, porque o preço dos direitos de autor são altos de mais, segundo a câmara. As crianças andam na rua, em "liberdade", o povo leva uma vida calma e tranquila. São dos poucos municípios que têm uma única freguesia. Tudo se trata a dois passos de casa.

O que falta mesmo? Emprego. Isso seguraria os jovens. Por exemplo, apostando nos enchidos, uma indústria na qual Barrancos é única, diz Rosândio, por causa da cura, ao natural, sem fumeiro devido ao microclima da zona, e que tem o certificado DOP (Denominação de Origem Protegida).

Por agora, há três principais empregadores: a câmara municipal à cabeça, tem cerca de 100 funcionários, e vai contratando outros para trabalhos temporários; a Casa do Porco Preto, ou Barrancarnes, de capital maioritariamente espanhol, que se dedica aos enchidos e ao presunto, empregando cerca de 40 pessoas durante o ano e outros 15 a 20 durante a época alta. Depois há o lar, que emprega cerca de quatro dezenas. O resto são microempresas familiares, cafés, mercearias, lojas pequenas.

Perspectivas há poucas. Na vila, diz-se que estão a sair os poucos jovens de Barrancos (os que têm entre 15 e 24 anos representam apenas 8,94% da população no Censos 2011). E com a taxa de desemprego alta como no resto do país a tendência será para continuar, temem. Não há dados actualizados por município para desemprego, mas em Junho estavam inscritos 177 desempregados no Instituto de Emprego e Formação Profissional (as contas sobre a população activa ao Censos 2011 dão uma taxa de desemprego de 22,5%; o Censos dava 16,5%).

"Não há emprego, e o que há é pouco"

António Tereno, presidente da câmara, pede para adiar uma hora a nossa entrevista, pois foi a Espanha. No imaginário, a viagem é longa. Na realidade, é ali ao lado e por isso o autarca trabalha em colaboração com municípios espanhóis, até "ao nível do parque empresarial" - um terreno de acolhimento de empresas com infra-estruturas montadas para receber empresas, cedendo a câmara o espaço a um preço simbólico.

Barrancos tem tudo, defende Tereno, um independente eleito pela CDU, que esteve quatro anos como vereador da Cultura, oito como presidente, fez quatro de interregno, regressou há outros oito. Vai recandidatar-se. Mas diz que não faz campanha, "falo com as pessoas". Bebe um copo todos os dias, um "pretexto para falar e ouvir" e inteirar-se de coisas que "normalmente não se dizem" senão no café. "Não é mais fácil, é mais absorvente. O presidente da câmara fica com pouco tempo livre. Se está em casa, tem um telefonema. As pessoas procuram mais. Não acredito que procurem assim o António Costa em Lisboa."

Num lugar onde a câmara é o principal empregador, não se vota em partidos, vota-se em pessoas, dizem. Durante as campanhas para as eleições autárquicas - que em 2009 tiveram quase metade da taxa de abstenção geral de Portugal (22,2% versus 41%) -, "há uma rivalidade muito grande entre os que são socialistas e comunistas", diz Idalina. Desde 1976 que os comunistas ganham as eleições, à excepção do ciclo 2001-2005, quando perderam para o PS. "Depois, aquilo passa e fica toda a gente amiga na mesma, ou pelo menos aqueles que não se metem na política", continua. "Durante a campanha eleitoral, é complicado": se há mais comunistas a almoçar no restaurante, os donos são conotados com o partido. "Há quatro anos, fizemos serviço para apresentação da lista socialista e os comunistas nossos amigos ficaram chateados."

São coisas de povo pequeno, diz Idalina, em castelhano. Ela, que já esteve fora e voltou, reflecte às vezes: "O que estou fazendo em Barrancos? O facto de toda a gente se conhecer, ter a porta aberta, sermos todos amigos... Vivi aqueles anos todos na Suíça, e não conhecer ninguém faz confusão. Estamos aqui habituados ao nosso cantinho em que toda a gente se conhece - e para o bem e para o mau. É importante para nós sair à rua e dizer "bom dia" e "boa tarde". Toda a gente é bem tratada."

Barrancos tem muita coisa, enumera o autarca. Mas tem também uma alta população de idosos - um quarto tem mais de 65 anos, segundo o INE. E o índice de natalidade é baixo (5% em 2012, quando em 1981 era 11,6%, dados da Pordata, da Fundação Francisco Manuel dos Santos). Nasceram até agora, em 2013, "uns quatro bebés", diz Tereno, e a autarquia incentiva a natalidade com um subsídio, entregue por tranches mensais, de mil euros para o primeiro filho, 1500 para o segundo e 1750 para o terceiro.

"A existência de um povo mede-se pelos habitantes - se não houver habitantes, é o deserto", comenta. "Temos pouca população: a nossa aposta neste mandato vai ser isso mesmo." Como? "Potenciando a sua instalação aqui, a sua fixação, não deixando sair os jovens que não têm possibilidade de ficar porque não há emprego, e o que há é pouco."

Pode não haver oferta de emprego, mas fome não há em Barrancos, garante o autarca - e a família do restaurante tem também essa visão, diz que há sempre alguém com uma horta que dá qualquer coisa, ou abre as portas para ajudar quem precisa.

A dois meses das eleições, Tereno relativiza a taxa de desemprego, justificando que "se houvesse esse desemprego, como dizem as estatísticas, as pessoas estavam à fome. E não. Uma coisa é o que figura no papel, outra é a realidade." O sentido de solidariedade e de entreajuda do barranquenho é "uma coisa notável", continua o candidato. Mas "caridade não".

No campo das meras hipóteses, Barrancos precisaria de mais umas 500 pessoas qualificadas, especializadas em áreas da agro-indústria, que é onde pode apostar, calcula o presidente.

Presunto em Portugal não é só o de Chaves

A Casa do Porco Preto fica à entrada da vila. É um edifício novo, a seguir as linhas da arquitectura tipicamente alentejana, branco e com barras amarelas. Entra-se e sabemos logo onde estamos: o cheiro a enchidos é intenso.

Aqui produz-se presunto de porco preto - as peças de edição limitada, uma colheita vintage, têm 60 meses de cura e podem custar 1500 euros; a peça topo de gama regular anda pelos 150 euros (em média, dizem-nos, cada presunto fica nesta fábrica uns mil dias); mas há mais baratas, a cerca de 40 euros. Com 70% da produção exportada (Espanha, mas também Angola, China, Brasil), e a maioria dos 30% do mercado português ocupados pelos enchidos que produz numa fábrica do outro lado da estrada, a empresa está a tentar passar a mensagem de que o presunto de topo também é português - e é barranquenho. É que para os portugueses, presunto em Portugal ou é o de Chaves ou é o espanhol, e essa é uma ideia difícil de mudar, diz António Baena, gerente. Compara-o ao vinho: também precisa de ficar nas caves para apurar, também deve "abrir" na temperatura natural depois de tirado do frigorífico e para degustar basta pequenas fatias muito finas que se desfazem na boca lentamente. "Não há dois presuntos iguais."

Leva-nos em visita pelas várias secções, por exemplo, a da salga, em temperatura controlada, e a da cura, com ventilação ao natural. Na primeira, parece que entrámos num cenário de ficção científica: uma gigante arca frigorífica, tudo branco e a humidade a formar uma espécie de nevoeiro. Na segunda, as patas alinhadas e penduradas estão a suar e libertam uma gordura que parece colar-se ao corpo. Vantagem de estar em Barrancos? "Este tipo de presunto de três ou quatro anos precisa de apenas três meses em temperatura controlada porque o resto é temperatura ambiente e a de Barrancos é óptima..."

Javier Sánchez, da gestão, diz que neste momento estão apenas a produzir 40% da sua capacidade, e em vez de 2200 presuntos por semana andam a fazer cerca de 600.

Há sete anos, o espanhol Julián Martin, dono do segundo maior grupo ibérico do sector, comprou a Barrancarnes ao Grupo Amorim. Manteve quase todos os trabalhadores, garante António Baena, e até contratou mais (eram entre 18 a 20, e hoje, na época baixa, são uns 40). Do ponto de vista da empresa, dona ainda de um matadouro em Reguengos de Monsaraz, os trabalhadores que têm são suficientes, e quando precisam de mais mão-de-obra durante a época alta têm sempre quem recrutar porque a oferta de trabalho na vila é pequena e há gente disponível. Preferem que seja alguém de Barrancos porque os salários são baixos e, se vierem de fora, as pessoas ainda têm de pagar a deslocação. A média de idades dos trabalhadores divide-se em dois grupos: entre os 40 e 52 anos, e entre os 20 e 32 anos, diz Baena.

Maria José, 45 anos, a funcionária mais antiga que trabalha na expedição desde 1994, tem uma filha de 15 anos que irá este ano estudar para Moura. O marido é desempregado, ela ganha 600 euros líquidos por mês (em 2009, o ganho médio mensal dos trabalhadores por conta de outrem em Barrancos era de 737,8 euros brutos, segundo a Pordata). Mas tem casa própria e ajuda dos pais que tomaram conta da filha quando ela precisava, nunca teve de pagar a ninguém por isso, diz-nos enquanto embala uns enchidos e lhes coloca etiquetas. Queixa-se igualmente da falta de trabalho na vila, sobretudo quando pensa no futuro da filha. "Como tenho trabalho, nunca pensei em sair."

O oásis de Zé Maria

Depois de vencer o primeiro Big Brother em 2000/2001, Zé Maria, hoje 40 anos, regressou a Barrancos há três. Esteve quase uma década em Lisboa, a fazer de tudo, trabalhou numa pastelaria, arranjou amigos, viajou. "Os primeiros dois anos pós-Big Brother foram uma loucura", diz numa conversa no sítio onde hoje trabalha como ajudante de cozinha, o lar de idosos.

É um edifício novo, que acolhe cerca de 50 pessoas, de Barrancos e arredores. Tem centro de dia e apoio domiciliário também. A directora deixa-nos ver a sala de convívio - cheia de janelas, com os idosos sentados e a televisão acesa -, mas prefere não prestar declarações.

Zé Maria está de folga. Passados cinco minutos de a directora lhe ligar a nosso pedido, ele aparece. "Ouvi dizer que andavam à minha procura." Mora perto. Um dos idosos chama-o para lhe dizer qualquer coisa. Já não é assediado na rua como antigamente, mas de vez em quando segredam-lhe, no lar, que têm saudades de o ver na televisão. "E eu digo: mas agora têm-me aqui!"

O que conta é medido, está treinado a falar com jornalistas e com a imprensa cor-de-rosa. Perguntamos: o que faz alguém como ele regressar a uma vila tão pequena? A família, a paz de espírito, a tranquilidade, o sossego, enumera. "Refugiei-me aqui para matar saudades da família e da vila." Vive em casa dos pais, trabalhou no cabeleireiro da irmã, arranjou trabalho no lar, mas não sabe por quanto tempo. Não descarta a hipótese de ter de regressar a Lisboa, onde se vive a 100 à hora. "As perspectivas na vila não são boas. É um reflexo do país, estamos neste cantinho mas também se nota."

No gabinete de inserção profissional, Célia Chanorro, 35 anos, funcionária com mestrado em Desenvolvimento Local, contextualiza: apesar de tudo, os desempregados em Barrancos, que cresceram nos últimos dois anos, estão "mais protegidos".

A câmara tenta manter ocupadas as pessoas que estão com subsídio ou que recebem o Rendimento Social de Inserção. "Pessoas sem rendimento absolutamente nenhum não existem assim tanto", diz. Não tem visto muita gente a emigrar, tem é visto algumas pessoas a regressar. "Quando a situação de crise aperta, é mais fácil viver no interior do que numa cidade."

Que o diga Maria João Bonito, 34 anos, mãe divorciada e à vontade com isso, pois ninguém a recrimina: está há dois meses desempregada e veio ao gabinete "meter os papéis para ser integrada num programa ocupacional". Tem trabalhado "conforme as vagas": "A última vez estive oito meses no lar." Depois, o contrato expirou - e foi a vez de dar lugar a outro.

Para Zé Maria, bom era haver mais fábricas, mais emprego, pois isso faria com que os jovens não saíssem, diz ele, que defende a aposta nos produtos locais e em fazer de Barrancos a "capital dos enchidos". O facto de a câmara ser o principal empregador asfixia, porque os postos já estão preenchidos e os jovens não "conseguem vingar".

É verdade que Barrancos é "o fim do mundo", mas, mesmo assim, Zé Maria chama à vila um "oásis", apesar da crise, que afectou sobretudo a área da construção civil - onde, aliás, começou depois de acabar o 9.º ano, seguindo as pisadas do pai. Oásis porque "não temos de acordar às 6h para levar as crianças à escola, porque as crianças andam pela rua sozinhas, saem sem perigo, e pela qualidade de vida, a ajuda dos familiares, o juntarmo-nos com os amigos e refrescarmo-nos no café sem ser preciso ir a correr para apanhar os transportes públicos. Podemos utilizar melhor o tempo, as coisas acontecem mais devagar".

Quem vem não esquece Barrancos, garante.

Nas ruas do centro da vila, mesmo na hora de pico de calor em que o termómetro marca mais de 40 graus, vêem-se homens sentados à porta da Sociedade Recreativa. De boina, olham para quem vem de fora com certo ar desconfiado, mas depois respondem ao "boa tarde". Andarão na casa dos 70 anos.

É exactamente como Zé Maria descreve: "Os idosos são pessoas activas que todas as tardes gostam de ir beber o seu pingo, de ir jogar às cartas, de conversar um bocadinho à porta das sociedades na praça. Tudo isso faz parte da engrenagem da vila em termos sociais, há uma ligação muito grande entre os novos e os velhos."

Lá dentro passam touradas na televisão. Vestida de preto, a recém-viúva Josefa Gonçalves, 78 anos, anda atrás do neto de nove meses, um destemido e ás no andarilho. É mãe de cinco filhos e de 11 netos. "Em Barrancos, há mais velhos que novos, o lar está cheio", diz em barranquenho cerrado esta mulher que por enquanto ainda vive sozinha na sua casa e criou a família "no tempo da miséria no campo", quando guardava gado. "Não ganhávamos como se ganha. Aquele que estava bem e tem de voltar para a açorda é pior", comenta, sobre os que hoje perdem o emprego ou vêem as condições de vida piorar. Criou os três filhos mais velhos "num rancho de palha nas taipas". O mais velho ia a pé para a escola durante uns 15 quilómetros.

"Barrancos está ligado às máquinas"

Em Barrancos, segundo o Censos 2011, 15,2% da população não tem qualquer nível de escolaridade (a média do país é 10,4%); 17,7% têm o secundário e apenas 5,9% o ensino superior.

Manuel Reganha, 75 anos, aproxima-se para ouvir a conversa. Mete-se com Josefa e connosco. Vem dizer que tem a 4.ª classe e o 12.º ano: "Os outros oito anos [da 4ª classe ao 12º] são experiência de vida", brinca este homem astuto no jogo de palavras. Diz coisas como: "Venho aqui [à sociedade recreativa] para que um me dê uma mentira e eu lhe dê duas." Ou: "O meu nome é lavrador. Tinha 12 anos e fui para um rancho na propriedade do Castelo de Noudar" - a 12 quilómetros do centro. Será dos poucos a quem ouviremos dizer que não é preciso mais gente em Barrancos: "Quanto mais gente, menos o que há chega para todos."

O filho de Josefa, Mariano, 46 anos, está ao balcão a encher os pequenos copos de vinho aos homens que se aproximam enquanto fala connosco. Pai de dois filhos e de outro a caminho, é oficialmente desempregado, ex-funcionário público. A mulher explora o bar da Sociedade Recreativa, e lá atrás, na cozinha, faz os petiscos servidos em pires. "Aqui não há solução. Quem quer trabalhar tem de procurar fora."

Mas ele nunca pensou sair de Barrancos. Nem as três Anas Ritas que encontramos num bar à noite, de 20, 19 e 18 anos, nem o amigo delas de 23 anos, Francisco: aqui é um sossego, dizem elas, encostadas à parede num banco de madeira corrido, a comer frutos secos, de telemóveis nas mãos e com uma atitude cool. Dizem que, além delas, há mais outra Ana Rita na vila. Quem? "A loira", responde uma delas. Não será assim tão difícil saber os nomes dos habitantes numa população tão pequena - afinal, estes são quatro dos 75 jovens barranquenses entre os 15 e 19 anos registados pelo Censos 2011.

É exactamente o contrário do que sonhava Francisca Durão, 71 anos, uma mulher que sempre quis emigrar, e que quando ouve na rádio um programa sobre emigrantes "fica com inveja". A ela apetecia-lhe ir conhecer "coisas novas", "estes países com tantos monumentos", sobre os quais pensa: "Aquilo é lindo." É sócia do clube dos reformados da vila e tem ido assim a excursões pelo país. "Sempre tive pena de não sair", conta, depois de dizer que o marido chegou a estar na Suíça dois anos e que ainda hoje recebe um pouco de reforma de lá. O que a fez ficar? "O meu marido, que não queria."

Na estrada íngreme que vai dar ao lar, onde trabalhou como cozinheira e onde uma das filhas hoje trabalha, Francisca Durão conta que todos os dias os cinco netos almoçam em sua casa: é assim a vida familiar. Um dos netos vai começar a ir para Moura: sairá às 7h e "há dias que só volta às 20h". Comenta que "a população está quase toda a sobreviver da câmara", que "ninguém quer campo" e que a "gente jovem quer só um bom emprego". E diz com ar preocupado: "Barrancos está ligado às máquinas. Se o Governo falta com as verbas, vai tudo à vida."

O pessoal só quer é festa

Aos 21 anos, Bruno Rodrigues, nadador-salvador na piscina municipal, será uma excepção. Foi o único do grupo de teatro, que agora está parado mas chegou a ter mais de 20 pessoas, a querer seguir a área. Andava a estudar Hotelaria em Évora, estava quase a acabar, mas desistiu à última hora para ir para a Escola de Teatro de Cascais, ajudado pelos pais e pela irmã, e pelo ordenado de Verão que vai ganhando na piscina. Percebeu que ficar fechado no mesmo sítio durante um dia inteiro não era para ele. "Decidi que a minha vida era o teatro pela minha experiência em palco." Que é como? "Como um vazio, como uma criança que não tem problemas, só vive aquilo e não pensa em mais nada. Se estou triste, fico alegre; se estou alegre, fico ainda mais alegre", descreve, sentado na cadeira de vigilante, com uma T-shirt muito amarela, de frente para o relvado enorme que circunda a piscina.

Custou-lhe no princípio só conseguir vir a casa de vez em quando. Ainda lhe faltam dois anos. Mas ele, que também toca na banda filarmónica da vila, sabe que para arranjar trabalho terá de ser fora de Barrancos. Isso não o assusta. "Tenho orgulho de ser de cá, mas não me vejo aqui, tenho de me fazer à vida. Aqui há pouco essa mentalidade de as pessoas procurarem ser alguma coisa. Procuram mais o facilitismo em vez de arranjarem um trabalho que lhes dê gosto, que é completamente diferente."

Mesmo a desempregada Maria João, com o 12.º ano, que tem pensado em sair de Barrancos, mas tem um filho e é mais difícil partir, nota: "As pessoas de Barrancos estão muito acomodadas, saem pouco. Conheço gente de terras aqui à volta, como a Amareleja, que sai mais."

Do Castelo de Noudar, onde se chega atravessando uma estrada de terra ao fim de 30 minutos, Barrancos aparece em cima do monte, uma mancha limpa, de casas baixas e brancas. A 1 de Agosto, à meia-noite, terão sido lançados os foguetes para abrir o mês das festas, e em breve a praça central vai encher-se de gente, e de touros, que desde 2002 podem ser mortos durante as touradas, como em Espanha.

Por agora, os grupos de sevilhanas que ensaiam os espectáculos para mostrar nessa altura continuam a treinar os passos numa sala da junta de freguesia: primeiro os adolescentes, depois os mais pequenos, a terminar os mais velhos.

O que existe em Barrancos que faz com que as pessoas não queiram sair? "Boa disposição, festa todos os dias!", dizia-nos Idalina. "Aqui o pessoal tem raça de cão", acrescentava o marido Rosândio. "Só quer é festa."