Lembram-se de nós?

Cheerleaders, um chimpanzé, nudez frontal masculina, música disco. E muitas estrelas a jogar juntas. Foram os ingredientes de uma das mais fascinantes histórias do futebol mundial. Um cometa chamado New York Cosmos, que juntou Pelé, Beckenbauer, Chinaglia e Carlos Alberto, apareceu com estrondo e desapareceu sem deixar rasto. Vinte e oito anos depois, o Cosmos está de volta aos relvados, mas não vai ser a mesma coisa.

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Steven E. Sutton/Corbis

Cheerleaders, um chimpanzé, nudez frontal masculina, música disco. E muitas estrelas a jogar juntas. Foram os ingredientes de uma das mais fascinantes histórias do futebol mundial. Um cometa chamado New York Cosmos, que juntou Pelé, Beckenbauer, Chinaglia e Carlos Alberto, apareceu com estrondo e desapareceu sem deixar rasto. Vinte e oito anos depois, o Cosmos está de volta aos relvados, mas não vai ser a mesma coisa.

Era um domingo, 16 de Junho de 1975. Não era preciso gostar de futebol para ter estado, neste dia, no Downing Stadium, em Randall"s Island, Nova Iorque, e os norte-americanos, que não fazem do futebol a sua prioridade desportiva, lá estiveram para ver o melhor desportista da altura. Foi este o dia do verdadeiro nascimento do futebol nos Estados Unidos da América, em que Edson Arantes do Nascimento subiu ao relvado imperfeito e retocado com tinta verde do Downing para se estrear com a camisola dos New York Cosmos. Era mesmo ele, Pelé, que começara a ganhar títulos mundiais aos 17 anos e que, mais de mil golos marcados depois, podia escolher qualquer equipa do mundo. Estava ali, num campo semipelado e com garrafas partidas, para jogar numa equipa que, nos seus melhores dias, tinha três mil pessoas a assistir. Naquele domingo, estavam 21.278 pessoas.

A seguir a Pelé, vieram Chinaglia, Beckenbauer e Carlos Alberto e uma equipa de trapos transformou-se numa constelação de estrelas alimentadas por muitos dólares. Com o Cosmos, cresceu também a North-American Soccer League (NASL) devido a uma premissa fundamental no desporto norte-americano: grandes estrelas (entre elas, estava Eusébio) dão sempre grandes espectáculos. Mas as receitas nunca conseguiram acompanhar as enormes despesas. O Cosmos (e a NASL) sucumbiu sob o próprio peso, mas ficou na memória a história de excesso da excessiva década de 1970. Bem mais humilde é o Cosmos do século XXI, sem estrelas, que ontem começou a dar os seus primeiros pontapés na bola num campeonato secundário dos EUA, 28 anos depois do seu desaparecimento.

"Don"t call it a comeback" ("Não lhe chamem um regresso"), é como o novo Cosmos promove esta recuperação da lendária equipa de Pelé e Beckenbauer. Mas isto é mesmo um regresso do Cosmos que apela à memória do passado. O emblema é o mesmo, as cores do equipamento são as mesmas e até o próprio Pelé está ligado à organização, como presidente honorário. É um projecto menos megalómano do que era antes, mas com ambições de, pelo menos, chegar à Major League Soccer (MLS), principal campeonato de futebol da América do Norte. Para já, as expectativas do próprio clube são de lotações esgotadas nos primeiros jogos em casa, cerca de 15 mil espectadores, mas irá o novo Cosmos resistir ao peso do seu próprio passado?

"Sabemos que não podemos ser iguais à equipa original, que tinha alguns dos melhores jogadores de sempre, por isso não temos assim tanta pressão", diz à Revista 2 Carlos Mendes, luso-descendente e defesa-central do Cosmos. Aos 32 anos, esta será, provavelmente, a última equipa de Mendes, que fez toda a sua carreira profissional na MLS, quase sempre nos New York Red Bulls, mas para ele esta passagem para o Cosmos tem um significado especial. Mendes é um nova-iorquino e os pais (a mãe de Barcelos, o pai de Aveiro) são dois dos adeptos originais do Cosmos e dois dos que vão ver a nova encarnação da equipa. "Foi uma bela oportunidade para voltar a casa. Tenho muita família e amigos a viver aqui e muitos vão ver os jogos. Espero um grande ambiente."

Mendes foi o primeiro jogador contratado pelo novo Cosmos, um jogador experiente que nunca jogou fora dos EUA, embora tenha chegado a fazer testes no Benfica quando tinha 15 anos. É um dos 25 jogadores que vão ter ao peito o emblema colorido do Cosmos numa camisola que terá o patrocínio da companhia aérea Emirates. Não será uma equipa tão dispendiosa como a versão anos 1970, mas tão internacional como ela - nos velhos tempos, o Cosmos chegou a ter em campo 11 nacionalidades diferentes. São jogadores de 12 países diferentes, da Guatemala ao Japão (não há nenhum nascido em Portugal, mas há um que já jogou em Portugal, um defesa brasileiro ex-Gil Vicente chamado Rovérsio), e os seus nomes pouco dizem ao adepto médio europeu.

Só um entre os 25 tem currículo significativo e, tal como Pelé, chega ao Cosmos no final da carreira: Marcos Senna, médio de origem brasileira e internacional pela selecção espanhola, ao serviço da qual se sagrou campeão da Europa em 2008. Senna tem 37 anos, os últimos 11 passados ao serviço do Villarreal, e não é uma estrela do ataque como era Pelé, mas um médio defensivo que garante experiência e liderança numa equipa que dá os primeiros passos. "As negociações foram longas, mas estamos satisfeitos que ele esteja connosco. Significa muito para nós, dentro e fora do campo", reconhece Giovanni Savarese, o técnico que vai conduzir o Cosmos 2.0, ele que está no clube desde 2010 nos escalões de formação.

Senna andava perdido por equipas secundárias de São Paulo e nunca chegou a ser uma "estrela" no Brasil, apesar de, depois, ter actuado em equipas como o Corinthians ou o São Caetano e chegou ao futebol espanhol já um jogador formado, com 26 anos, para o clube de uma pequena cidade da Comunidade Valenciana com 50 mil habitantes. Senna cresceu com a equipa, chegando a uma meia-final da Liga dos Campeões e a um segundo lugar, ao mesmo tempo que consolidava o seu lugar na selecção espanhola que viria a vencer o título Europeu em 2008. A estrela de Senna foi-se apagando depois disso e já não esteve na selecção que venceu o Mundial em 2010, acompanhando o Villarreal na descida de divisão em 2012.

O "Submarino Amarelo", alcunha do Villarreal por ter equipamento amarelo, regressou ao escalão principal em 2013, mas, para Senna, era altura de mudar de continente. Como contou numa entrevista recente à Sports Illustrated, Senna considerou o Cosmos como uma oportunidade irresistível: "A minha chegada a Espanha é mais ou menos o que está a acontecer aqui com o Cosmos. Acreditaram em mim para este projecto. O que eu posso dizer é que o comboio só passa uma vez. Foi algo que eu aprendi com a vida. Decidi apanhar o comboio espanhol e, quando ganhámos o Europeu, senti-me realizado. Os EUA é um país que se adapta bem a coisas boas. Tem essa qualidade e eu quero fazer parte disso."

O Cosmos versão século XXI vai jogar no Hofstra Stadium, o estádio onde o Cosmos jogava em 1972, um ano depois da sua fundação. Ainda tudo estava num estágio semiamador e era barato investir numa equipa de futebol. Mas as perspectivas da NASL eram fracas numa cidade, à imagem do país, com um mosaico desportivo preenchido. "Nas ligas profissionais, Nova Iorque tinha duas equipas de basebol, os Yankees e os Mets, duas equipas de futebol americano, os Giants e os Jets, e uma de basquetebol, os Knicks. Todas tinham de competir por espaço nos jornais, rádios e televisões da cidade. Um porta-voz do Cosmos dizia na altura: "Nós não competimos com as outras equipas da liga, competimos é com os Yankees e os Mets, os Giants e os Jets"", conta à Revista 2 Colin Jose, historiador de futebol da América do Norte.

Para a Warner Communications, dona da equipa, as coisas não estavam a crescer suficientemente depressa. O Cosmos até conseguia ter algum sucesso, mas isso pouco significava para atrair público - entre 1971 e 1974, as assistências andavam entre os três mil e os quatro mil espectadores. A maior visibilidade que o Cosmos teve nos primeiros anos foi quando o seu guarda-redes Shep Messing aceitou, a troco de cinco mil dólares, posar nu para uma revista feminina, que queria um atleta profissional de qualquer modalidade, depois de já ter ouvido muitas negas. Eram fotos de nu integral que surpreenderam o próprio Messing, um professor de liceu formado em Harvard, quando a revista VIVA chegou às bancas em Dezembro de 1974. A equipa não gostou e Messing foi transferido para Boston (haveria de voltar em 1976, a tempo dos anos loucos).

O Cosmos fazia tudo para atrair a atenção do público e dos jornalistas. Chegou mesmo a apresentar em conferência de imprensa a sua mascote, um chimpanzé chamado Harold (emprestado pela Warner), mas o público não vinha. Só veio quando chegou Pelé, e mesmo o brasileiro só veio a troco de um salário milionário, 4,7 milhões de dólares por três anos, o que faria dele, aos 35 anos, o atleta mais bem pago do mundo. Mesmo assim, foi difícil segurar Pelé, porque o Governo brasileiro não o queria deixar sair e queria que ele jogasse mais um ano no Brasil. Henry Kissinger, secretário de Estado norte-americano, moveu influências e o astro brasileiro teve autorização para se mudar para Nova Iorque.

Apresentado perante uma multidão de 300 jornalistas, Pelé disse que o futebol tinha chegado a Nova Iorque e, na estreia frente aos Dallas Tornado naquela tarde de domingo, ele foi a estrela, com um golo e uma assistência num jogo que deu empate. Nesta altura já lá estava Eusébio, que tinha chegado com menos pompa e circunstância e que, no seu auge, esteve quase ao mesmo nível de Pelé - Eusébio pode, no entanto, gabar-se de ter sido campeão norte-americano primeiro que Pelé, em 1976, pelos Toronto Metro-Croatia. Mas o brasileiro era uma estrela maior, com um apelo internacional insuperável e unanimemente considerado o melhor do mundo. Só isto era suficiente para os americanos, mesmo aqueles que não gostavam de soccer.

A chegada de Pelé não foi o suficiente para levar o Cosmos ao sucesso desportivo. O problema é que era Pelé e mais dez muito abaixo do seu nível. Financiado pelos bolsos sem fundo da Warner, o Cosmos continuou no caminho das estrelas internacionais e foram chegando, sucessivamente, Giorgio Chinaglia, avançado italiano da Lazio, Franz Beckenbauer, o líbero alemão do Bayern Munique, e Carlos Alberto, defesa brasileiro do Flamengo. "Tinham uma equipa tipo Barcelona, muito antes de as equipas contratarem estrelas para todas as posições. Era fantástico ver como eles eram capazes de combinar todos aqueles diferentes estilos e personalidades não apenas numa equipa vencedora, mas que dominava os adversários", recorda à Revista 2 Michael Lewis, jornalista de futebol do New York Daily News e do blogue Big Apple Soccer.

"Pelé ainda tinha muitas qualidades e era um jogador inteligente. Podia já não ter uma velocidade excepcional, mas eu sabia que ele iria conseguir entreter o público. Chinaglia era muitas vezes vaiado pelos adeptos do Cosmos, mas era uma máquina de marcar golos. E o Kaiser Beckenbauer tinha um computador de futebol na cabeça. Ninguém lia o jogo como ele. A melhor forma de os descrever é esta: eram divertidos de se ver, dentro e fora do campo", conta Lewis.

Divertidos fora do campo? Sim, o Cosmos era um circo itinerante. Arrastavam multidões em todas as cidades onde actuavam e cada uma das estrelas tinha a sua própria entourage. Cada viagem do Cosmos tinha uma comitiva de centenas. E às segundas à noite eram presença fixa no Studio 54, o famoso clube nova-iorquino onde a festa nunca parava. Estavam lá Mick Jagger, Andy Warhol, Grace Jones num cavalo branco, Woody Allen, Salvador Dalí e também Pelé, Beckenbauer e os outros, num ambiente hedonista encharcado em álcool, cocaína, sexo e música disco.

A NASL cresceu com o Cosmos, em espectadores e número de equipas. Mas a equipa de Nova Iorque estava bem acima das outras, em popularidade, poder financeiro e sucesso desportivo. O Cosmos tinha-se mudado, entretanto, para o estádio dos Giants, equipa de futebol americano, e várias vezes teve lotação esgotada, acima dos 77 mil espectadores. Nova Iorque era o "Cosmos Country". Em 1977, a constelação de estrelas conseguiu finalmente o tão ambicionado título numa final contra os Seattle Sounders, naquele que seria o último jogo competitivo de Pelé. Em três anos de Pelé, a NASL crescera de 15 equipas para 24.

O Cosmos do ano seguinte já não tinha Pelé, mas já tinha cheerleaders, uma mascote (o Bugs Bunny dos Looney Tunes, da Warner) jogos transmitidos na televisão e adeptos famosos - Steven Spielberg, Muhammad Ali, Barbra Streisand, Robert Redford, Henry Kissinger, entre outros. E as estrelas internacionais continuaram a chegar, entre elas o avançado português Seninho, proveniente do FC Porto. "Éramos os verdadeiros galácticos. O estádio dos Giants estava sempre esgotado. Íamos de costa a costa num avião particular", contava Seninho, que ficou no Cosmos até 1982, ao jornal I em 2011. O Cosmos até contratava jogadores só para jogos de exibição em digressões nacionais e internacionais. Nesta condição, o holandês Johan Cruyff (que jogou também em Los Angeles e Washington), o brasileiro Rivelino ou o britânico Gordon Banks também andaram pela galáxia Cosmos.

Todas as outras equipas foram atrás de Nova Iorque e encheram a NASL de estrelas internacionais. George Best, Rodney Marsh, Eusébio, António Simões, Cubillas, Ardilles, Muller são alguns dos nomes de uma enorme lista de vedetas, muitas delas em final de carreira, mas ainda com pernas para dar cor à liga norte-americana e com espaço na conta bancária para mais alguns dólares. Mas os outros nunca chegaram aos pés do Cosmos, que podia aguentar com os prejuízos e continuar a gastar. E isso, aliado ao desinteresse das cadeias televisivas (que seria uma fundamental fonte de receitas) em transmitir jogos, conduziu ao declínio da NASL e, por arrasto, do Cosmos.

Uma liga construída a partir de cima e demasiado depressa, segundo a opinião de Colin Jose. "Para chegar a todas as grandes cidades nos EUA e no Canadá, a liga expandiu-se muito rapidamente. Os campos não eram adequados ao futebol, tinham piso artificial em vez de relva natural e muitos dos donos das equipas não tinham condições, com pouco ou nenhum conhecimento de futebol, e gastavam demasiado dinheiro para competir com o Cosmos", conclui o historiador. O Cosmos continuou a dominar a liga (conquistou cinco títulos entre 1977 e 1982), mas a Warner, em 1982, deixou de suportar os gastos da equipa e vendeu-a ao seu carismático goleador Chinaglia, que não tinha fundos para a suportar. Em 1984, a NASL deixou de existir. A última temporada teve apenas nove equipas e uma delas era o Cosmos, que, oficialmente, deixou de existir em 1985.

Depois do Cosmos e da NASL, o futebol demorou a regressar ao panorama desportivo norte-americano. Só com o Mundial organizado em 1996 pelos EUA é que se criou uma base sustentada para relançar uma liga profissional de futebol na América do Norte, a MLS, que, ao longo dos anos, foi integrando algumas equipas do passado, como os Portland Timbers ou os San Jose Earthquakes, tendo, desde o início, uma equipa de Nova Iorque, os MetroStars (Red Bulls a partir de 2006). Mas sempre se falou do regresso do Cosmos, que só aconteceu oficialmente em Agosto de 2010, por acção de um milionário britânico.

Nos primeiros anos, seriam só equipas de formação, mas o objectivo declarado era ter uma equipa profissional, quem sabe, na MLS. Mas entrar na maior competição de soccer ficou mais difícil quando foi confirmado que a liga teria, a partir de 2015, uma segunda equipa na Grande Maçã, o New York City FC, que resulta de uma parceria entre o Manchester City, da Premier League, e os Yankees, da Major League Baseball. Não será por isso que o Cosmos deixará de sonhar com a MLS (é preciso pagar 100 milhões de dólares para entrar), garante o britânico Seamus O"Brien, um dos donos da equipa: "É bom ter concorrência. Eu sou de Londres, uma cidade que tem dez equipas profissionais. Com o tamanho de Nova Iorque e da sua economia, até podia ter quatro."

"É um nome que evoca respeito e história. Se vamos repetir os feitos do passado? Não sei, tudo é possível no futuro. Para já, só queremos ter uma boa equipa em campo", diz o treinador Giovanni Savarese, antigo internacional venezuelano que fez quase toda a sua carreira no futebol norte-americano, onde chegou a ser treinado por Carlos Queiroz no MetroStars, e que trabalha directamente com o antigo internacional francês Eric Cantona, director desportivo. Ao mesmo tempo, o novo Cosmos quer usar a memória da superequipa do passado e restabelecer novos laços com a cidade. Para isso, fez treinos de captação para a equipa sénior, na esperança de descobrir algum craque local desconhecido. Não descobriu.

Mas tudo o que este novo Cosmos faz, a forma como tem promovido o regresso, mantendo as cores e até com Pelé como presidente honorário, evocam o passado. Nesta nova versão, não haverá jogadores com os números 6, 9 e 10, respectivamente os de Beckenbauer, Chinaglia e Pelé, os nomes maiores de uma equipa que só acontece uma vez na vida. Beckenbauer, campeão mundial como jogador e treinador, não teve dúvidas: "Foi uma das melhores decisões que tomei."

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