A fotografia alargou-lhes a "área geográfica do pensamento"

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A Ribeira foi um dos locais que os jovens do centro educativo do Porto elegeram para fotografar

Projecto usa a fotografia como "ferramenta de integração" junto de jovens detidos em centros educativos. No fim do ano dará origem a um livro, uma exposição e um documentário

Para lá do arame farpado do Centro Educativo Santo António, no Porto, há vidas suspensas antes do tempo. Miúdos que erraram cedo de mais, quase sempre empurrados por problemas do ambiente que os rodeava - o bairro que habitavam, a família desestruturada, companhias mal escolhidas. Quando o Movimento de Expressão Fotográfica levou o projecto Integrar pela Arte - Este Espaço que Habitopara o centro educativo do Porto, carregava na bagagem um desejo de derrubar muros e, através da imagem, levar estes jovens a outros espaços.

Luís Rocha, o director artístico do projecto, usa a fotografia como "ferramenta de integração" há já uma década. Sabe que as imagens que colecciona no fim de cada projecto são apenas a parte visível de um trabalho que vai muito além da aprendizagem da técnica fotográfica. Mas é por aí que tudo começa.

Não foi preciso muito para convencer António (os nomes são todos fictícios) a inscrever-se. Já tinha feito fotografia antes, mas quando Luís Rocha e a sua equipa se sentaram com os 23 jovens que aderiram ao projecto e lhes falaram de fotografia estenopeica ou pinhole (que significa buraco de alfinete, em inglês) foi como um novo mundo a abrir-se à frente deles. "Pensei que aquilo sim, era arte", recorda o jovem de 17 anos, há quase um ano a cumprir uma pena por furto no Centro Educativo Santo António. À explicação técnica (pinhole é a forma mais básica de fazer fotografia, com recurso a uma caixa qualquer em que a luz não penetre e na qual é introduzido um rolo) seguiu-se a etapa prática: "Nós construímos a nossa própria máquina, só com cartão e lata de Coca-Cola. Nunca imaginei que fosse possível, só com aquilo...", admite Roberto. Este ano, o projecto já passou por três centros educativos - dois em Lisboa, um no Porto - e ainda há-de ir a Coimbra e à Guarda. A partir de um mapa da cidade onde se encontram, os técnicos do Movimento de Expressão Fotográfica, associação criada em Lisboa em 2002 e que utiliza a imagem como estímulo artístico, identificam com os jovens dos diferentes centros educativos os locais que estes gostariam de conhecer e partem depois à sua descoberta, a partir da fotografia pinhole. Os que têm autorização de saída fotografam na cidade, os outros fazem-no dentro do centro e, no final, todos se juntam numa aula de edição de imagem onde trabalham as fotografias feitas no terreno. No fim do ano o projecto, que conta com o apoio da Direcção-Geral das Artes, estará condensado num livro, numa exposição (que deverá passar pelas quatro cidades) e num documentário.

A fotografia funciona como uma "ferramenta lúdica", explica Tiago Santos, o psicólogo educacional que acompanhou os 23 jovens que aceitaram o desafio: "São miúdos normalmente com uma experiência muito centrada no próprio bairro e a fotografia permite-lhe aceder a outros espaços." Esse "alargamento da área geográfica do pensamento" é já uma vitória: "Ficaram a conhecer o Porto, o universo deles aumentou e isso é claramente integrador", acredita.

O momento da liberdade

O universo aumentado tirou o fôlego a António. "De repente parecia que me estava a faltar o ar. Nós estamos naquele espaço pequeno tanto tempo e depois saímos, parecia que tinha tonturas", conta, feliz, com a Ribeira como cenário de fundo. Nenhum dos oito jovens que tiveram autorização de saída do centro é natural do Porto. E nenhum sabia que o Porto era assim: "Bonito", classifica Roberto, 18 anos de vida, 14 meses de pena cumprida. Este momento - o da saída, do ar livre, da liberdade ainda que por poucas horas - é para ele a melhor parte até agora. Mas fica ainda por cumprir o desejo de passar pelo Estádio do Dragão - "só por curiosidade, para olhar", que o coração é claramente vermelho.

Segurar a ansiedade de chegar a este momento nem sempre é fácil, conta Luís Rocha, acompanhado por Tânia Araújo, responsável pelo projecto no terreno, e Liliana Pinguicha, técnica da associação que veio de Londres de propósito para participar nas 40 horas do curso do Porto.

Na verdade, todo o "processo demorado e rigoroso de fotografar com uma máquina pinhole" é um desafio - claramente ganho no caso do grupo do Porto. "O que mais me surpreendeu acho que foi mesmo a qualidade de algumas imagens", congratula-se Luís Rocha: "Alguns miúdos pareciam resistir e não estar muito interessados, mas depois as imagens saíram muito bem". Tiago Santos confirma: "No início, toda a linguagem não-verbal de alguns dos miúdos era defensiva, mostravam-se pouco disponíveis e pouco motivados. Mas no fim estavam claramente envolvidos."

Mário tem 16 anos e um sonho definido: "Às vezes, penso em descobrir uma coisa que ninguém conhece e ficar conhecido no mundo por isso", conta, sonhador. "Gostava de fazer algo para ajudar os jovens do meu bairro, um projecto como este da fotografia." Natural de Lisboa, foi para o centro educativo do Porto há mais de um ano e é lá, onde "todos os dias são difíceis", que vai permanecer até Março do próximo ano. Depois há-de endireitar a vida: construir uma família, tirar um curso de cozinha, de teatro ou ser cantor de rap. "Tenho de fazer coisas que me mantenham longe do mundo do crime", diz, convencido de que sairá do centro uma pessoa diferente: "Se não tivesse vindo para aqui, se calhar não aprendia a pensar antes de fazer as coisas erradas e a corrigir os erros."

Tolerar a frustração

Essa aprendizagem - de identificação e correcção de erros -, é também algo em que a fotografia pinhole pode ajudar. João, de 16 anos, explica o processo: "Temos de arranjar sombra, apontar a máquina para o que queremos fotografar, segurá-la para não tremer e puxar o metal. Depois esperamos uns segundos e voltamos a tapar. E já está".

Um dos momentos preferidos de Tiago Santos é assistir à reacção dos jovens quando vêem as imagens impressas ou no computador, depois de digitalizadas. "Muitos não acreditavam que aquilo fosse de facto funcionar e quando viam as imagens ficavam fascinados", conta. O processo de identificação e correcção dos erros surgia depois: "Viam os erros, se a fotografia tinha ficado demasiado exposta ou escura, e tentavam corrigir. Do ponto de vista do comportamento generalizável, isto é fantástico: tolerarem a frustração de terem falhado e conseguirem depois corrigir", explica o psicólogo. Por norma, os jovens detidos nestes centros educativos são "muito impulsivos". E todo o processo de fotografar é "uma luta contra essa impulsividade, um mecanismo que exige controlo e reflexão".

Um dia diferente já ninguém tira a João, que está detido no centro educativo há um ano, por furto, e ainda tem quase outro tanto por cumprir, já pensa em projectos para a saída: "Quero fazer o 12.º ano, construir uma família e ser jogador de futebol". Dentro de muros, o entusiasmo dos jovens que não têm autorização para fotografar na cidade é mais contido. "Aqui não há muito para fotografar. Árvores, muros, folhas, já inventei tudo", diz Daniel, a contar os seis meses que faltam para sair em liberdade. Já mais próximo do grande dia está Mauro, detido por conduzir uma mota sem carta e por furto de um telemóvel: "Faltam duas semanas para sair, até parece que agora o tempo não passa." Em Setembro, o jovem de 15 anos começa numa escola profissional um curso de fotografia que lhe dará equivalência ao 9.º ano. "Já gostava de fotografia antes disto", conta. Mas o projecto mostrou-lhe que o poder da fotografia vai além do que imaginava: "O que gostei mais foi de ver a qualidade das imagens. Nunca pensei que pudesse ficar tão bem."

Uma certeza já ninguém tira ao director artístico, Luís Rocha: "Há aqui miúdos extraordinários que, se tiverem experiências positivas, podem ser grandes pessoas no futuro. Estão aqui muitas vezes pela família, pelo bairro, por más escolhas às vezes feitas em segundos. Mas o que vi aqui é que podem ser alguém."