Vidros duplos ajudam a pacificar a relação de vizinhos com bares do Porto

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Elisabete Neves tem, desde a noite passada, mais um bar como vizinho no concorrido Largo de Mompilher Fotos: dato daraselia

Associação de Bares da Zona Histórica do Porto está a promover a instalação de vidros duplos nas casas cujos moradores se queixam do barulho da movida. Repartição dos custos decide-se caso a caso.

O dono do bar estava satisfeito, a vizinha estava satisfeita, o senhorio estava satisfeito e o presidente da Associação de Bares da Zona Histórica orgulhoso. António Fonseca aparentemente, com os seus bons ofícios, terá posto cobro a uma guerra. A paz tem um preço, o do metro quadrado de vidro duplo para insonorizar as casas, mas toda a gente achou que merecia a pena pagá-lo, de uma forma ou doutra.

Paradoxalmente, a instalação de vidros duplos, como os que começaram anteontem a ser colocados no n.º5 do Largo de Mompilher, no Porto, permite reaproximar os donos de estabelecimentos de diversão nocturna de vizinhos que há muito se queixam deles, por causa do ruído.

Elisabete Neves perdeu a conta às vezes que foi às reuniões da câmara e às sessões da Assembleia Municipal do Porto protestar que o bar do rés-do-chão, a Champanheria da Baixa, não a deixava dormir, nem ao marido doente, nem aos dois filhos do casal. Esteve, precisamente, na última reunião da câmara, de 23 de Julho, a queixar-se que lhe tinham prometido que seriam tomadas medidas para resolver o problema e que ninguém fazia nada.

Já não teve de esperar muito. Anteontem, com as medidas já tiradas às janelas - que estes prédios antigos, como o seu, não se dão com formas estandardizadas - já decorria a montagem das novas caixilharias de vidro duplo, que a deverão ter deixado mais protegida do ruído da animação nocturna.

O ambiente era de harmonia e toda a gente parecia aspergida por vapores de boa vontade e bom senso. "Estou convencida de que muita gente faz aqui barulho na rua, porque vê o letreiro de uma empresa a meio do prédio e julga que nem mora ninguém nos outros andares", dizia Elisabete Neves. O senhorio, Luís Boiça, proprietário do prédio, concedia que a abertura dos bares no Largo de Mompilher até tinha acabado com a desertificação da zona, onde depois das 20h não se via ninguém, e empurrado a prostituição para o quarteirão adiante. E Rui Botelho, o dono da Champanheria da Baixa, assumia que "um bar faz sempre algum barulho" e que os moradores vizinhos "têm direito ao sossego".

Na verdade, a Champanheria da Baixa nem está no n.º5 do Largo de Mompilher, mas no prédio ao lado, já com porta na Rua da Picaria. Mas é este estabelecimento, a par do bar Candelabro - que já tratou de insonorizar os andares por cima, que lhe pertencem -, que atrai centenas de pessoas ao local quase todas as noites. De resto, Rui Botelho tem outro bar no rés-do-chão do prédio de Luís Boiça, o Gin Gin, que foi encerrado pela Câmara do Porto por ter funcionado sem autorização. Terá reaberto esta noite, já com todas as licenças em dia.

O acordo entre todos foi fácil? Rui Botelho revira os olhos e sorri. Elisabete Neves diz que aquilo que o bar pagou em multas suscitadas pelas suas queixas já tinha custeado esta solução há muito. E o senhorio Luís Boiça insiste que têm todos que "baixar as armas". Neste caso, e embora ninguém avance números precisos, o preço da paz, com IVA, ultrapassou os quatro mil euros, pagos pelo empresário e pelo senhorio.

"A divisão dos custos decide-se caso a caso, nuns casos o senhorio - cuja casa também sai valorizada pelos vidros duplos e janelas novas -, paga mais, noutros menos. O inquilino é que nunca paga", afirma o presidente da ABZHP, António Fonseca. Ou melhor, apressa-se a acrescentar, paga de outra forma: assina uma declaração, em que afirma ter concordado com esta solução, e faz alguns sacrifícios eventuais, como o de prescindir do direito de dormir com as janelas abertas sem ruído.

O representante dos empresários garante que esta solução dos vidros duplos vai continuar a ser reproduzida pelo Porto, onde for possível, apesar de a antiguidade dos prédios em causa, na Baixa da cidade, encarecer muito a operação. A medida já foi adoptada num edifício da zona de Cândido dos Reis/Galerias de Paris, está em curso na Rua de Santa Teresa e prestes chegar à Praça de Guilherme Gomes Fernandes, à casa de outra munícipe que é presença assídua nas reuniões de câmara a queixar-se da movida.

"Haja paciência, resolva-se o problema sem bandeiras políticas, sejam de que cor forem. A cidade precisa da movida, da mesma forma que precisa de mais moradores", proclama o presidente da Associação de Bares da Zona Histórica do Porto. A solução dos vidros duplos não é barata, mas, para António Fonseca, ver os donos de bares e os vizinhos a "cumprimentarem-se de forma mais cordial é algo que não tem preço".