Segredos da vida sexual de Gustav Mahler

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Natalie Bauer-Lechner e Gustav Mahler conheciam-se desde os tempos da escola, e a violinista registou a amizade de ambos num diário que foi publicado postumamente afp

Uma extensa carta recentemente descoberta em Viena vem trazer novos dados à atribulada vida afectiva do compositor austríaco. A autora foi uma amiga, amante e confidente do autor d"A Canção da Terra

Já se sabia que a vida afectiva de Gustav Mahler (1860-1911) fora bastante atribulada, mesmo antes do seu casamento com Alma Schindler em 1902. E que essa vida tormentosa teve reflexos na sua criação musical, nomeadamente logo nas suas primeiras obras marcantes da década de 1880, desde a cantata Das klagende Lied até à 1.ª Sinfonia. Agora vamos poder saber mais em pormenor as circunstâncias dessa biografia mais íntima, descoberta que foi uma longa carta de uma das principais amigas e confidente do compositor, Natalie Bauer-Lechner (1858-1921), que esta não tinha incluído no seu diário Memórias de Gustav Mahler, editado em Leipzig em 1923.

A notícia foi dada pelo The New York Times, que no fim-de-semana passado revelou a existência desse testemunho, sobre o qual estão agora a trabalhar dois investigadores e especialistas na vida e obra do autor d"A Canção da Terra, o norte-americano Stephen E. Hefling e o norueguês Morten Solvik.

O documento, com 59 páginas, tem por título Carta sobre os amores de Mahler (Brief über Mahlers Lieben), e foi adquirido, por cerca de 3 mil euros, pelos Arquivos Nacionais da Áustria num discreto leilão realizado em Viena, em 2011. Hefling e Solvik foram alertados para a sua existência por um assistente da Sociedade Internacional Gustav Mahler sediada na capital austríaca, e foi quando tiveram acesso ao documento que se aperceberam da sua relevância para uma melhor compreensão da biografia do compositor. E para se ultrapassar em definitivo a ideia de um personagem "casto e asceta" (título do artigo do The New York Times), que a dada altura lhe foi colado.

"Se eu tivesse tido conhecimento do leilão, eu próprio teria arranjado o dinheiro para comprar a carta", comentou para o The New York Times Stephen E. Hefling, professor de Música na Cave Western Reserve University em Cleveland, referindo-se ao carácter praticamente anónimo de uma venda para a qual os musicólogos não foram alertados.

"Natalie Bauer-Lechner é uma das fontes directas mais importantes [para conhecer a vida] de Mahler, principalmente no que diz respeito aos anos anteriores ao seu casamento com Alma", disse ao jornal nova-iorquino Steve Burns, vice-reitor do Departamento de Música da Universidade do Colorado, e um dos organizadores do Festival Mahler nesta cidade americana. E acrescentou que "os seus diários são valiosos para quem quer que se interesse por Mahler, e não apenas os especialistas". Por maioria de razão, a carta agora redescoberta, de que este especialista conhece apenas excertos, adquire uma importância redobrada. "O seu estilo e talento impressionaram-me realmente, bem como o sentido da música que [Natalie Bauer-Lechner] tinha. É essa certamente a razão que levou Mahler a levá-la a sério", comentou Burns.

Paixões múltiplas

A carta foi enviada em Fevereiro de 1917 - seis anos após a morte do compositor - a Hans Riehl, um herdeiro de Natalie - os investigadores não sabem se haveria também algum parentesco entre ambos. A autora, violinista e amiga de Mahler desde os tempos da escola, faz "uma narrativa bastante detalhada das paixões [do compositor] por um largo número de mulheres, a começar pelo seu envolvimento com Josephine Poisl, filha do carteiro de Jihlava", a cidade da Boémia onde Mahler viveu a sua infância e juventude, nota Hefling.

Na missiva é também descrita a relação - aparentemente não consumada - de Mahler com Marion von Weber, mulher do neto do compositor Carl Maria von Weber (1786-1826), um nome dos primeiros tempos do romantismo. Então sediado em Leipzig, no final da década de 1880, Mahler colaborou com o neto de Von Weber na finalização da ópera Os Três Pintos (Die Drei Pintos), que o compositor tinha deixado inacabada. Durante esse trabalho, Mahler ter-se-á perdido de amores por Marion von Weber. "Foi uma relação muito apaixonada, e Mahler parece ter sido muito ingénuo. Ele e Marion disseram ao marido desta que estavam apaixonados, e acreditaram que ele seria sensível à situação. Mas Von Weber pôs termo a essa relação", contou ao The New York Times Henry-Louis La Grange, um conhecido biógrafo de Mahler.

Stephen E. Hefling vê neste episódio uma explicação para o facto de Mahler ter demorado tanto tempo a terminar a 2.ª Sinfonia (1888-1894), cujo primeiro andamento foi composto em pleno envolvimento passional com Marion von Weber, e depois esteve interrompida cerca de cinco anos. "O que Natalie nos conta é que ele ficou muito deprimido e perdeu a sua capacidade criativa. E, de certo modo, atribui-se a si próprio o ter-lhe feito recuperar a confiança. Ela acreditava no seu génio", nota este investigador.

A franqueza dos relatos de Natalie inclui mesmo a descrição das suas próprias aventuras amorosas com Mahler, numa prosa verdadeiramente arrebatada: "Quando nos fechávamos no nosso pequeno quarto isolado do mundo e fervilhante de contos das Mil e Uma Noites até ao romper da aurora, abríamos as nossas vidas um ao outro. Sem qualquer declaração, pergunta ou promessa, as nossas mentes e os nossos corpos fundiam-se num só".

Nas inúmeras páginas da carta há também referências à relação do compositor com várias cantoras, como as sopranos Rita Michaleck, Selma Kurz ou Anna von Mildenburg. E à relação de Mahler com a sua irmã Justine, que acolheu após a morte dos pais, e a cujos "ciúmes e carácter possessivo" se deveu, segundo Natalie, a ruptura de muitas das suas ligações afectivas.

Natalie Bauer-Lechner - cujo testemunho não chega aos anos da relação de Mahler com Alma, que constituiriam um capítulo novo e absolutamente marcante na vida do compositor - terá considerado incluir estes relatos mais íntimos nos diários (Memórias de Gustav Mahler) que deixou para publicação póstuma, até porque achava que esta informação seria relevante para a compreensão futura da vida e obra do compositor seu amigo.

Mas acabou por não querer ir tão longe no desvendar dos seus segredos, e deixou essa responsabilidade nas mãos de Hans Riehl, ao enviar-lhe a carta. Mas este manteve o documento inédito, até ele surgir no leilão de Viena em 2011, e depois chegar ao conhecimento dos estudiosos e biógrafos de Mahler.

Stephen E. Hefling e Morten Solvik estão agora a trabalhar numa nova edição dos diários de Natalie Bauer-Lechner sobre Mahler, que incluirá passagens da carta entretanto redescoberta.

Notícia alterada às 17h05: corrigida a nacionalidade de Mahler