Governo recusa divulgar relatório do acidente ferroviário em Alfarelos

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Colisão deu-se a 21 de Janeiro

O relatório ao acidente ferroviário do passado mês de Janeiro em Alfarelos, no distrito de Coimbra, ainda não foi divulgado publicamente, apesar de já estar terminado há vários meses. O PÚBLICO solicitou-o ao IMT (Instituto da Mobilidade e dos Transportes), que nem sequer respondeu, pelo que foi apresentada queixa à Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos.

As reticências do Governo devem--se ao facto de o relatório ser inconclusivo quanto às causas que levaram o Intercidades procedente de Lisboa a embater na cauda de um regional que estava parado na estação de Alfarelos em 21 de Janeiro deste ano.

Todos os sistemas funcionaram. A sinalização estava operacional e o Convel também actuou, pois, perante a incapacidade do maquinista em reduzir a velocidade para o limite estabelecido, foi automaticamente accionado o freio de emergência que bloqueou todos os rodados da composição. Por sua vez, os freios também estavam em boas condições.

Ou seja: não foram detectadas falhas na infra-estrutura nem nos comboios acidentados. O Intercidades deslizou ao longo da via com um maquinista incrédulo ao ver que o sistema de frenagem, simplesmente, não fazia efeito.

Uma simulação da mesma frenagem, realizada dias depois pela comissão de inquérito com um comboio idêntico e em condições parecidas (de noite e com chuva), comprovou que tudo funcionou sem problemas. A explicação poderá estar nas folhas de árvores que tinham caído na linha durante o temporal que assolara o país na véspera, tal como o PÚBLICO já adiantou.

Esta possibilidade pode fazer sorrir muita gente, mas a verdade é que está comprovado que as folhas pisadas sobre o carril criam uma película de gordura que faz com que, em circunstâncias excepcionais, um comboio "escorregue", mesmo quando as rodas estão bloqueadas.

Em Alfarelos, também a automotora regional que seguia à frente do Intercidades tivera dificuldades em frenar à entrada da estação, não conseguindo o maquinista evitar que ultrapassasse o sinal vermelho. Por esses dias, alguns maquinistas comentaram nas redes sociais que tinham sentido dificuldades em frenar noutros pontos da rede, embora não tivessem reportado essas situações superiormente.

Em Inglaterra e no Canadá, o problema das folhas caídas sobre a via férrea leva a cuidados redobrados no Outono, ao ponto de os operadores adaptarem os horários dos comboios à velocidade mais reduzida com que têm de circular nessa época. E as empresas de caminhos-de-ferro possuem até máquinas especiais que limpam os carris, pulverizando a película de gordura criada pelas folhas para que o contacto entre a roda e o carril se faça com mais eficácia. C.C.