Este é o momento certo para o reencontro com Devendra Banhart

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Devendra Banhart regressa de cabelo cortado e o celebrado Mala dr

O cantor americano regressa para concertos na Casa da Música (sexta-feira) e no Centro Cultural de Belém (sábado)

Parece lenda urbana, mas aconteceu mesmo. Há oito anos, era Devendra figura cimeira dessa recontextualização da música de raiz americana a que chamaram free folk, alguém lhe gritou durante um concerto: "Toca música folk!" Era um grito zangado. Devendra preparava-se para editar Cripple Crow, álbum em que cresceu de voz e guitarra para banda tão grande quanto tantas eram as figuras na sua capa. Era óbvio que deixaria de ser o bardo de vibrato na voz e mistérios dedilhados solitariamente na guitarra.

O grito parecia replicar quatro décadas de depois o "Judas!" ouvido pelo Bob Dylan convertido à guitarra eléctrica em Manchester. Devendra, já o sabíamos então, temo-lo por certo agora, não era exactamente o que alguns imaginavam.

Meses depois, regressaria a Portugal. Estreara-se por cá em 2004, no Festival Para Gente Sentada imortalizado na canção Santa Maria da Feira ("comendo peira (sic) en Santa Maria de la Feira"). Em 2005, vimo-lo no Festival Sudoeste: celebração comunal da sua música libertária e festa em palco, festa fora dele. Vimo-lo depois na Aula Magna. Perante um público reverente, pareceu intimidado pela formalidade da sala e pelo peso da devoção que encontrou perante si. Escrevemos na altura que Devendra decerto regressaria. Nunca imaginámos que demorasse oito anos a fazê-lo.

Esta sexta-feira esteve na Casa da Música, no Porto (21h, 28€), este sábado apresenta-se no Centro Cultural de Belém, em Lisboa (21h, bilhetes entre os 20 e os 28€). A primeira parte do concerto será assegurada pelo brasileiro Rodrigo Amarante, o ex-Los Hermanos que editará em Setembro o seu primeiro álbum a solo, Cavalo. Devendra apresentará Mala, sucessor do mal-amado What Will Be (2009). E tanto mudou entre a última visita e este regresso.

As descrições dos últimos concertos (as actuações portuguesas encerram a digressão europeia) mostram que Devendra já não se sente intimidado pelos palcos mais formais. Referem um músico que pára a música para um comentário, que dança como membro de uma tribo acabada de inventar (e quem esteve no tal Sudoeste 2005 recordará a dança cómico-galinácea de I feel just like a child) e que se entrega às canções com a destreza descomprometida que lhe conhecemos há muito.

Nos últimos oito anos, Devendra cortou o cabelo, foi cara de vídeos publicitários a óculos escuros e continuou a colaborar com todos os que admira (Beck, Antony, Fabrizio Moretti e por aí fora). Editou dois álbuns que soavam demasiado convencionais e demasiado dispersos, como se Devendra não se tivesse posto totalmente neles (Smokey Rolls Down Thunder Mountain e What Will We Be) e como que se foi desvanecendo no cenário da música popular urbana actual. Mala surge, então, como um suave renascimento.

Álbum caleidoscópico em termos sonoros e recheado de humor na leitura cómico-trágica das relações, devolve-nos o Devendra Banhart que aprendemos a admirar, obviamente diferente e sem a aura de "hippie que vale a pena" que o rodeava anteriormente. Mas ainda esse amante de música que passa o tempo a elogiar os seus heróis (de Arthur Russel a Caetano Veloso, de Vashti Bunyan ao seu "irmão" Noah Gorgeson, companheiro desde a primeira hora), ainda esse criador que diz não ter a certeza de ser músico ou artista visual (vendo as capas que desenha para os seus álbuns e ouvindo-lhe as letras, percebemos que uma coisa contamina a outra). Este cantor que já não nos soava tão especial quanto outrora mas que agora, menos ingénuo e obrigatoriamente menos surpreendente, se revelou ainda enquanto tal.

Este será, portanto, o momento perfeito para o reencontrarmos.

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