Stefano Rellandini/Reuters
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Megafone

O Papa diz para não se paparem

Tudo é dito de forma conciliatória, mas tudo fica, ao mesmo tempo, na mesma. As pessoas homossexuais devem ser integradas na sociedade mas devem abster-se de praticar actos sexuais condicentes com a sua orientação sexual (de “pecar”)

Uma das últimas afirmações aparentemente bombásticas do papa católico foi a de que as pessoas homossexuais “não devem ser julgad[a]s nem marginalizad[a]s”. Bombástica não por ser algum tipo de pensamento revolucionário, mas por vir daquela que é considerada, em muitos respeitos, como uma das instituições mais conservadoras existentes na sociedade ocidental.


Isto espalhou, por muitos sites e murais do Facebook, uma certa alegria, na medida em que demonstrava alguma abertura da Igreja Católica (ICAR) e, ao mesmo tempo, uma condenação (velada) dos mais variados episódios de ataques físicos contra pessoas LGBT — um dos casos com mais visibilidade recente é o da Rússia.


Ao mesmo tempo, várias outras pessoas chamavam a atenção para alguns pormenores que ficaram enterrados, na versão do PÚBLICO, no quarto parágrafo da notícia: que os “actos homossexuais” são um pecado. Face a isto, tenho dificuldades em ser excessivamente optimista, já que a linha há muito defendida implica que cada cristão se abstenha de passar julgamento (já que este é prerrogativa divina) e que, em havendo vontade sincera disso, os pecados podem ser perdoados. Melhor ainda, como se vê, é se nem houver pecados de todo.
Portanto tudo é dito de forma conciliatória, mas tudo fica, ao mesmo tempo, na mesma. As pessoas homossexuais devem ser integradas na sociedade — e concomitantemente devem abster-se de praticar actos sexuais condicentes com a sua orientação sexual (de “pecar”), ou sequer de se organizar social e politicamente para obter mudanças efectivas na legislação discriminatória presente em praticamente todos os países do mundo (a tradução para o tal “lobby gay”).


Independentemente do demais, temos que manter em mente que a ICAR é uma instituição política e, como tal, tem uma imagem a gerir e comercializar (tanto no sentido monetário como nas contabilidades dos fiéis). Se cria uma imagem de si mesma demasiado desfasada do zeitgeist presente, arrisca-se a dar um “tiro no pé” e a aumentar a laicização em curso (mais de metade dos casamentos realizados em 2011 foram-no apenas pelo registo civil, diz o INE, por exemplo). Se avança com ‘demasiado’ progressismo, aliena o seu núcleo duro e cria (ainda mais) contradições internas.


Ao mesmo tempo, também não aprecio ver algo tão abstracto como “a ICAR” ou, pior, “o cristianismo” a ser usado como bode expiatório para a discriminação contra mulheres e pessoas não-heterossexuais – os modelos sociológicos que tratam a ‘plebe’ como uma massa amorfa e acéfala já caíram de moda (e muito justamente). Esse modo de pensar (que coloca a ICAR fora e acima da sociedade, a influenciá-la) não leva em conta a forma como o discurso religioso também pode ser apropriado por indivíduos e organizações para os seus próprios fins, e para justificar as discriminações que cada um carrega e encena diariamente.


A cultura ocidental está indelevelmente marcada pelo cristianismo. Mas a cultura ocidental não é o cristianismo, nem o cristianismo surgiu ex nihilo – é mais uma mundovisão, que rapinou ideias a outras mundovisões e se tem alterado consoante as necessidades (estratégicas) de cada momento. E é também uma organização, com pessoas reais, e um historial real de apoio a atitudes discriminatórias, de apoio institucional (e o silêncio perante o horror é uma forma de apoio!) daquilo que o papa católico afirmou não dever ser feito. Essas práticas continuam e irão certamente continuar, dentro e fora da organização. Lutar contra elas implica desobedecer ao papa, porque implica lutar politicamente – por leis, por acções governamentais, mas também pela possibilidade de dispormos dos nossos corpos para com eles procurarmos uma ética para além do medo da punição.


Esta não seria uma ética do vale-tudo, mas o seu inverso: uma responsabilização interpessoal das práticas e costumes que olhasse para como nos tratamos mutuamente, e não para como quão bem seguimos as variáveis (e humanas, e falíveis) interpretações de um livro.