Machete kills

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Machete Kills é o título do mais recente filme de Roberto Rodriguez, novamente com Danny Trejo no principal papel. Mas podia muito bem ser o título da remodelação de Pedro Passos Coelho, a partir do momento em que o primeiro-ministro decidiu nomear Rui Machete para a pasta dos Negócios Estrangeiros. Tal como o Machete de Hollywood, também o Machete das Necessidades já começou a matar - não mexicanos corruptos, nem americanos mafiosos, mas a credibilidade do Governo que acaba de integrar.

Aliás, há pelo menos mais uma característica em comum entre Rui Machete e Danny Trejo, e não é o bigode, nem as tatuagens - é aquele toquezinho de arrogância que até fica bem em filme, quando se está a lutar contra os maus da fita, mas que fica muito mal à saída do Palácio de Belém, quando se está a responder a jornalistas. Ouvir o novo ministro classificar as perguntas mais do que legítimas que lhe eram feitas sobre o BPN - perguntas banalíssimas em qualquer país que conheça o significado do verbo "escrutinar" - como uma manifestação da "podridão dos hábitos políticos", é daquelas atitudes que só mesmo um velho senador do Bloco Central dos interesses, a quem a democracia por vezes enfada, se lembraria de ter.

Claro que a questão do milhão de dólares é: porquê Machete? Das duas, uma: ou Pedro Passos Coelho é masoquista, adorando ser chibatado diariamente nos jornais por Rui Machete ter estado oito anos no Conselho Superior do BPN, por Maria Luís Albuquerque estar enterrada em swaps, ou por Agostinho "Ongoing" Branquinho ter regressado, qual filho pródigo, ao albergue estatal; ou então Pedro Passos Coelho está a competir ferozmente com António José Seguro pela Incompetent"s Cup, e, depois do comportamento do líder do PS na semana da salvação nacional, terá concluído que precisava de recuperar terreno.

Seja qual for a opção, uma coisa é certa: o país não precisava disto. Neste jornal, Teresa de Sousa escreveu um texto elogioso sobre Rui Machete, dizendo que ele "traz para o Governo a respeitabilidade dos cabelos brancos e da história do PSD". Ai não traz, não. O que ele traz é o lixo do BPN, as negociatas do BPP e os excertos da WikiLeaks em que o embaixador americano o acusava de despesismo e de troca de favores na FLAD. Pergunto: como é possível ignorar tudo isto? Como é que, numa altura em que tanto se exige aos portugueses, e em que tanto se fala na impossibilidade de realizar um corte de 4,7 mil milhões de euros na despesa do Estado, se convida para o Governo um homem que esteve enfiado num banco cuja factura pode chegar aos oito mil milhões?

Nesta terra parece que nada suja ninguém, e todos conseguem recuperar de qualquer coisa que lhes aconteça. Sócrates comenta na televisão, Macário regressa à câmara ao nascer do sol, Isaltino é candidato à assembleia de Oeiras a partir da prisão, só falta mesmo Vale e Azevedo voltar à presidência do Benfica. O BPN deveria ser a kryptonite da política portuguesa: quem tocou, está fora. Mas não. Parece que Oliveira e Costa é o único culpado de tudo o que lá se passou. Revejam o primeiro Machete, por favor: é um péssimo filme, mas tem uma cena em que Danny Trejo abre a barriga a um tipo e usa os seus intestinos para fugir pela janela de um hospital. É a imagem perfeita deste país: esquartejado e, ainda assim, cheio de penduras. Não admira que o Portugal de hoje dê a volta à tripa a qualquer pessoa de bem.

Jornalista [email protected]