Os Açores são galeria de arte e os seus habitantes convidados a ser artistas

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O português Vhils encontrou histórias impressionantes como as de naufrágios em noites de pescaTopo voltou a Rabo de Peixe este ano e continuou a pintar a parte baixa da vila fotos: Rui Soares

Há paredes com baleias, com a bandeira dos Açores ou com cores primárias em formas geométricas. O festival Walk&Talk está a mudar o aspecto da cidade e a forma como Ponta Delgada recebe a arte

Na mesa de pedra na sede do Walk&Talk há um copo de plástico virado para baixo que aprisiona uma mosca enorme. Poderia ser uma instalação artística, porque aqui não há limites criativos, diz Sílvia Escórcio, responsável pela comunicação do festival. Desta vez, a mosca fechada num copo de plástico não é arte: alguém fez a brincadeira na festa da última noite e ali ficou. É informal o ambiente do Walk&Talk - festival de arte pública, que terminou domingo. O objectivo é agitar a programação cultural da cidade e trazer arte para a rua na forma de graffiti, performances, escultura e instalações artísticas.

A sede e galeria temporária do Walk&Talk era uma fábrica de torrar amendoins. Agora é um lugar de festas, exposições e workshops, mas também armazém do material, sala de estar dos artistas e atelier para algumas das instalações. Qualquer um pode entrar e ver os trabalhos nas paredes, mesmo que alguns deles esvoacem com o vento de cada vez que a porta se abre. Os visitantes começam por entrar para ver os trabalhos expostos na parede e acabam por se envolver no ambiente de preparação das peças, e até conversar com artistas de todo o mundo que ali estão e que vieram não só para pintar paredes na rua ou montar as suas instalações, mas também conhecerem a cultura e a comunidade micaelense.

Foi o que aconteceu com Stephen Hurrell, o inglês que perguntava o que é a saudade. Chegou aos Açores e começou a ouvir fado e a traduzir as letras para ter respostas. Diz que ainda não sabe o que é a saudade, mas o mais perto que conseguiu chegar levou-o a desenhar um horizonte, lágrimas e estrelas na parede da ETAR de Ponta Delgada. Agora, a saudade, segundo Stephen Hurrell, está registada na cidade e ali vai ficar, como as cerca de outras 100 intervenções artísticas que, ao fim da terceira edição do festival, se espalham por Ponta Delgada, Ribeira Grande, Fajã de Baixo e Rabo de Peixe. Ano após ano se constrói esta galeria de arte urbana do tamanho de uma ilha, já que os cerca de 40 artistas de cada edição têm liberdade para criar em qualquer local, desde que os proprietários autorizem. Esta forma de arte já está por todo o lado e acrescenta cor à cidade em tons de branco e pedra escura.

Dupla periferia

Quando os açorianos Jesse James e Diana Sousa criaram o Walk&Talk há três anos a intenção era trazer a Ponta Delgada aquilo que se passava no resto do mundo. "O problema da situação cultural nos Açores não é só a falta de dinheiro. Falta interesse de alguns públicos e durante muito tempo gastou-se dinheiro a trazer coisas de fora e não produzir aqui", diz Jesse, acrescentando que para contornar isso o festival convida artistas estrangeiros, mas dá oportunidade aos portugueses de criar e expor. Se Portugal continental sofre de periferia, os Açores sofrem de dupla periferia: a insularidade sente-se na programação cultural, que está sobretudo no Teatro Micaelense e apresenta essencialmente teatro, concertos e bailados - programação que não atrai públicos mais jovens, segundo Diana Sousa.

O afastamento de uma actividade cultural forte poderia ser um entrave, mas é positivo, diz Jesse, explicando que isso faz com que não haja qualquer restrição ao que os artistas podem fazer. Se o festival fosse numa região mais central, provavelmente haveria restrições aos temas a abordar nos murais e instalações, às técnicas, aos materiais e às paredes a usar. "Isso não seria uma intervenção, seria uma encomenda", diz Jesse acrescentando que no festival cada artista deixa a sua visão do local em que vai actuar com a sua identidade própria.

O facto de ser dada total liberdade é o que cativa os artistas a criar sem retorno financeiro. "Às vezes contactamos grandes artistas que convidamos porque seria um sonho tê-los cá, explicamos que damos o material todo, mas que não lhes podemos pagar e eles dizem: "Ok, podes marcar a viagem" e nós nem acreditamos", conta. Não há muitos sítios no mundo onde se possa num dia pintar paredes imensas com o que se quiser, no outro tomar banhos de mar quente ou ir ver as baleias e no seguinte encontrar um morador que implora que se lhe pinte a fachada da casa. "As pessoas aqui estão sequiosas e percebem que isto é arte", diz Diana Sousa. Se na primeira edição a organização teve que pedir para pintar paredes, com as primeiras obras terminadas, começaram a ser oferecidos os mais diversos sítios para se pintar e agora o Facebook do festival está cheio de pedidos que sugerem sítios e projectos, conta Sílvia Escórcio. "Oferecem paredes mas fazem pedidos muito específicos do tipo "pintem flores". Não é essa a ideia", diz a responsável pela comunicação.

Histórias de Rabo de Peixe

Não é raro estar-se na rua a admirar uma parede, passar um morador do prédio e dizer, orgulhoso: "É lindo, não é? Eu vivo aqui". A visão sobre os graffiti em Ponta Delgada não se alterou com o festival, criou-se. Antes não havia graffiti na cidade, por isso não havia a ideia de que graffiti é vandalismo, explica Sílvia Escórcio. Foi isso que marcou a experiência de Alexandre Baralt, o venezuelano que vive na Bélgica e que assina os seus trabalhos como Topo. Quando chegou aos Açores, em 2012, foi-lhe atribuída uma parede de que não gostou. Era colossal, mas não o deixou satisfeito: estava numa rua muito estreita e não poderia admirar o seu trabalho de longe. Andou à procura e encontrou Rabo de Peixe, a comunidade conhecida como a mais pobre da Europa. Entrar em Rabo de Peixe é entrar em ruas estreitas com gente à porta das casas, a conversar, a arranjar as redes da pesca que a alimenta ou a observar atentamente os raros carros que passam pelas ruas. A princípio, gostou apenas de uma parede bem localizada, mas deixou-se encantar por toda a experiência de pintar ao lado de pessoas que assistem ao seu trabalho como a um espectáculo e que batem palmas no fim. "Em Ponta Delgada, as pessoas gostam dos graffiti e sentimos isso. Mas em Rabo de Peixe é diferente: as pessoas ofereciam-me qualquer parede acabada de pintar de branco. Ninguém faz isso em lado nenhum e, quando acabávamos o trabalho, ainda tínhamos um aplauso", conta Topo.

Topo voltou a Rabo de Peixe este ano e continuou a pintar a parte baixa da vila, que tinha começado o ano passado. Nessa altura, as pessoas foram invasivas, em especial as crianças: queriam as suas tintas, pediam-lhe que pintasse ténis e pranchas de surf improvisadas. Queriam mandar no seu trabalho, definir o que pintar, mas Topo impôs-se e criou-se uma relação de respeito pelo trabalho do artista. Este ano, trouxe uma linguagem diferente que lembra Kandinsky. Tinha mesmo que voltar: ficou tão ligado ao sítio e às pessoas que criou um logo para a comunidade. Em 2012, pintou-o nas paredes e tatoou-o numa perna. "As pessoas são reais: têm problemas, mas, se precisamos de alguma coisa, são as primeiras a ajudar. Eu tomei banho em casa deles, comi com eles", diz.

Também em Rabo de Peixe, o português Vhils, ou Alexandre Farto, arranjou maneira de trazer as pessoas da comunidade para a parede. Encontrou histórias impressionantes como as de naufrágios em noites de pesca e encontrou um sobrevivente. "O Senhor Bonança não queria que o retratassem, mas a mulher, a Senhora Maria dos Anjos, convenceu-o e disse "vamos fazer isto pela arte"", conta Diana Sousa, que acompanhou a pesquisa por estas histórias com Vhils.

A sua técnica de registo na parede passa por a erodir e esculpir os retratos criando um baixo-relevo. Sem usar qualquer tinta, os habitantes estranharam a falta de cor, por oposição aos trabalhos de Topo, em paredes próximas. "Explicámos que esta era a marca do artista e eles foram compreendendo", diz Diana sobre a forma como este tipo de situações ajuda a abrir as perspectivas dos que tomam contacto com a arte urbana.

Para além da pintura de paredes, este ano foram introduzidas outras formas artísticas. O designer italiano Giacomo Mezzadri ofereceu uma escultura à cidade: uma baleia em aço que construiu numa serralharia micaelense com o apoio dos trabalhadores dessa empresa, que foram cruciais no processo. "Pessoas habituadas a construir estruturas formatadas para automóveis, por exemplo, tiveram que se adaptar e fazer uma baleia em aço", diz Jesse. Foi uma aprendizagem para eles, mas também para Giacomo, que, quando teve problemas nas barbatanas por causa da estabilidade da peça, viu a questão resolvida com a ajuda dos trabalhadores da serralharia. O objectivo do festival não é só colocar a arte a céu aberto, mas também criar esta participação das pessoas na criação artística, chamando-as a intervir.

Transportar esta baleia em aço com um tamanho próximo ao de uma baleia real não foi fácil: as estreitas ruas de Ponta Delgada entupiram para deixar passar o bicho. Agora a baleia está nas Portas do Mar, mesmo em frente à linha do horizonte. Turistas e micaelenses tiram-lhe fotografias. Já pertence à cidade e é para ficar depois do festival.

Para além de intervir no aspecto da cidade, o festival está também a intervir na forma como os moradores vêem a sua cidade. Mafalda Fernandes é designer e trouxe para Ponta Delgada as Conversas que organiza todas as quartas-feiras em Lisboa desde 2012 e onde, ao jeito de mesa-redonda sem moderador, todos são convidados a lançar um tema e a debatê-lo.

Nestas cinco Conversas no festival de arte pública, abordaram-se temas como a realidade cultural da cidade ou a mobilidade urbana, diz Mafalda. "As pessoas vêem que o Walk&Talk serve para agitar a realidade cultural, mas lamentam que só haja graffiti, por exemplo, durante o festival", conta. "As pessoas acham que a programação cultural dos Açores não é suficiente e têm vontade de a discutir e arranjar soluções", conta como forma de balanço das Conversas, em que participaram uma média de 30 pessoas.

A necessidade de os moradores intervirem na cidade levou o arquitecto Duarte Santo a apresentar o projecto de uma ciclovia colorida no Walk&Talk. A ideia é que as pessoas pensem a sua mobilidade e que esta ciclovia, apesar de ser oficiosa, seja adoptada pelos micaelenses e mostre à câmara municipal a necessidade da infra-estrutura. Duarte construiu carrinhos com depósitos de tinta que enquanto são arrastados deixam um rasto. Durante o último sábado, quem passou pela Rua de D. João III pôde pegar numa das engenhocas e traçar o seu percurso. Fez-se parte da intervenção artística e cívica.