Está quase, está quase... e até que enfim vimos uma gota de betume cair

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Em cima, a gota antes da queda no Trinity College, na Irlanda ; em baixo, o físico John Mainstone, da Universidade de Queensland, na Austrália, ao lado da experiência de que cuida há 52 anos Trinity College

Duas das experiências mais antigas em curso no mundo, uma na Irlanda há 69 anos e outra na Austrália há 86 anos.

E depois de décadas e décadas sem que nunca ninguém tivesse observado aquele exacto momento, a tão ansiada queda de uma gota de betume foi finalmente apanhada em flagrante. Pela primeira vez, ficou registado em vídeo o acontecimento mais agitado na vida de um pedaço de alcatrão natural que protagoniza uma experiência que dura há já 69 anos - acontecimento esse que só surge a cada dez anos, mais coisa, menos coisa, quando a gota decide desprender-se.

A câmara de vídeo que testemunhou tudo estava apontada para a experiência de gota de betume do Trinity College, em Dublin, na Irlanda, a decorrer desde 1944. Noutra experiência mais antiga ainda, desde 1927 na Universidade de Queensland, em Brisbane, Austrália - e famosa, referida nos jornais e nas televisões -, perdeu-se esse espectáculo quando caiu a sua última gota, em 2000, porque nesse exacto instante a câmara de vídeo... estava desligada.

A história inicial da experiência do Trinity College perdeu-se no tempo. Ninguém sabe quem teve tal ideia. Durante anos, o bocado de betume deixado dentro de um funil de vidro ficou abandonado à sua sorte, esquecido algures, enquanto as gotas seguiram inexoravelmente o seu destino. A ideia terá sido demonstrar que o betume, uma mistura complexa de hidrocarbonetos, embora pareça sólido à temperatura ambiente, é na realidade um fluido.

Até que, em Maio deste ano, com a última gota "prestes" a cair, o físico Shane Bergin e colegas do Trinity College dedicaram atenção à experiência e começaram a transmiti-la via Internet. Entre tantos potenciais observadores espalhados pelo planeta, quem sabe se algum poderia tornar-se a primeira pessoa a testemunhar a separação da gota.

E a 11 de Julho, por volta das cinco da madrugada, ela fez o que era esperado. "Nunca ninguém tinha visto uma gota a cair em qualquer parte do mundo", frisou Shane Bergin à revista New Scientist. "Ficámos muito entusiasmados", acrescentou o físico, segundo uma notícia da revista Nature. "Tem sido um grande tema de conversa, com colegas desejosos de investigar a mecânica da quebra e a viscosidade do betume."

Separação em duas fases

Um desses colegas é John Mainstone. Há 52 anos que este físico é o guardião da experiência na Austrália. Deparou-se com a geringonça no segundo dia de trabalho, em 1961, quando a experiência já levava 34 anos. Neste caso, não há dúvidas sobre a origem. Em 1927, o físico Thomas Parnell quis ensinar aos seus alunos, e ao mesmo tempo diverti-los, como o betume, apesar de parecer um material sólido que até se pode partir com um martelo, era material viscoso.

Thomas Parnell aqueceu um bocado de betume que escorreu para dentro de um funil de vidro, com a parte de baixo tapada. Esperou que tudo assentasse durante três anos até abrir a parte de baixo, para deixar a gravidade fazer o seu trabalho.

Ao longo dos tempos, foi-se mantendo um registo da experiência australiana, que ao todo formou oito gotas: a primeira em 1938, depois em 1947, 1954, 1962, 1970, 1979, 1988 e, a última, a 28 de Novembro de 2000. A nona gota está a caminho, em suspensão, e há esperança de que caia ainda este ano. Parnell nunca viu uma daquelas gotas a cair nem Mainstone - a tecnologia que vigiava e difundia na Internet a experiência "falhou na altura crucial".

Este dispositivo entrou no Livro Guinness de Recordes Mundiais em 2002 como a experiência laboratorial mais longa em curso e ganhou em 2005 um IgNobel, prémios que distinguem a ciência mais divertida e inacreditável "por fazer as pessoas rir primeiro e pensar depois". O falecido Thomas Parnell e John Mainstone, que foi receber o prémio na cerimónia dos IgNobel na Universidade de Harvard, EUA, foram distinguidos na categoria de física "por fazerem pacientemente uma experiência iniciada em 1927".

Agora, John Mainstone, 78 anos, reformado da Universidade de Queensland, mas ainda a zelar pelo bocado de betume, pôde finalmente ver com os próprios olhos uma gota a cair - ainda que na experiência de Dublin, que ele desconhecia até agora.

O que sentiu ao ver o vídeo? "Fui apanhado de surpresa com a notícia de que alguém no Trinity College tinha montado uma experiência da queda da gota de betume em 1944 e que, recentemente, uma equipa de professores de Física descobriu o dispositivo num armário", contou John Mainstone ao PÚBLICO. "Depois, a Nature enviou-me o vídeo feito pelos físicos para que eu o comentasse. No início, mostra uma gota de betume aparentemente sólida suspensa do funil com um pedúnculo relativamente longo. Alguns dias depois, o betume que segurava a gota principal parecia ter "derretido", permitido que a gota descesse até ao fundo do dispositivo", descreve-nos o físico australiano. "Na realidade, nesta fase a gota ainda estava ligada por um fio fino e esticado de betume à parte de baixo do pedúnculo. A gota grande ficou de lado e, por fim, o fio acabou por ser cortado."

Shane Bergin observava a gota nesta segunda fase: "[O fio] separou-se quando eu lá estava."

Isto é diferente do que se passa na experiência australiana, explica-nos John Mainstone, ainda que ninguém tivesse visto estas rupturas: "Cada gota permanece em suspensão durante anos, até que ocorre uma ruptura súbita e a gota é libertada, para cair devido à gravidade em 0,1 segundos."

Como hipóteses para estas distinções, John Mainstone menciona eventuais diferenças nos hidrocarbonetos do betume, nos parâmetros ambientais (como temperatura e vibrações) e no tamanho dos funis.

O interesse destas experiências é histórico e não propriamente científico. Mas por que nos maravilhavam tanto? "O facto de o betume continua a fazer o que tem de fazer a um ritmo muito lento, sem nunca se apressar, ao mesmo tempo que o tiquetaque dos relógios marca a passagem inelutável dos segundos, lembra-nos das coisas que devíamos estar a fazer", responde o físico australiano. "Além disso, é fascinante que o betume exiba tanto uma natureza viscosa ("fluida") como elástica ("sólida") no curso da experiência."

Para que o legado continue, John Mainstone já convenceu um colega mais novo a tomar conta da "sua" experiência, quando ele já não puder. E os físicos ligados à experiência na Irlanda sugeriram que o dia em que a gota caiu seja festejado todos os anos.