Avistada anémona gigante na noite de Sines

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O excesso teatral da Shibusa Shirazu Orchestra era acompanhado por uma trip jazz-rock acontecida na cabeça de Frank Zappa, uma opereta feita à imagem da TV japonesa com lugar para fogosos solos de guitarra ou saxofone dr

Final da 15.ª edição do Festival Músicas do Mundo, em Sines, com um ovni japonês chamado Shibusa Shirazu Orchestra e um explosivo concerto de encerramento de Femi Kuti.

Uma prateada anémona gigante, a tomar os céus de Sines, conduzida do palco do castelo até ao centro do recinto como se de um papagaio de papel se tratasse, seria um momento recordista de bizarria para o Festival Músicas do Mundo em qualquer outro concerto. Mas não no caso do colectivo japonês Shibusa Shirazu Orchestra. Na verdade, custa até juntar as sílabas con-cer-to para designar o que os 26 japoneses levaram para palco: um surreal espectáculo em que uma muito big band se fazia acompanhar por gente que parecia saída de livros de banda desenhada de toda a espécie - desde um terrorífico homem reptilário a duas pueris meninas de cores veraneantes que mais não fizeram do que gesticular com duas bananas nas mãos.

Todo o excesso teatral produzido pela Shibusa Shirazu Orchestra, durante as quase duas horas registadas no cronómetro de sexta-feira, era acompanhado por um jazz desabrido, uma trip jazz-rock acontecida na cabeça de Frank Zappa, uma opereta feita à imagem da televisão japonesa com lugar para fogosos e intermináveis solos de guitarra ou saxofone que repentinamente eram calados por um trecho atmosférico e de voz ameninada. Tudo com aparato circense e a ânsia de, num único sopro, querer ser tudo. O excesso era a única medida e a trupe japonesa não se coibiu de abusar dos seus meios para promover entre o público um delírio minimamente aproximado do seu. Odiado por alguns, objecto de deslumbramento visual-musical por muitos outros, só teria uma pálida comparação de estranheza na actuação dos chineses Dawanggang, já no dia seguinte.

Junto à praia de Sines, ao cair da tarde de sábado, o concerto dos Dawanggang foi um conflito constante entre céu e inferno. À voz demoníaca de Song Yuzhe e às suas guitarras e banjo atacados sempre do avesso, procurando dissonâncias e não harmonias, e mesmo ao troar com voz de Tuva do intenso violinista Zeng Xiaogang, opunha-se o canto celestial e virginal da cantora Cao Yuhan. A aproximação tentada de Yuzhe a sonoridades ocidentais resultaria quase sempre num flirt envenenado, começando pela sua evocação ortodoxa para logo as corroer. Sempre que traficaram estas referências e polarizaram as vozes de Yuzhe e Yuhan, os Dawanggang andaram próximos de um combate sublime e primordial.

Femi, filho de Fela

Noite de sábado, encerramento dos concertos no Castelo de Sines, e prova mais inequívoca do que um exame de ADN sobre a paternidade de Femi Kuti. Femi, filho de Fela, tem o mesmo afrobeat fervente no sangue, passeia os dedos por saxofone e teclados como se tocá-los nunca lhe tenha sequer exigido uma aprendizagem. E nas palavras, incendiárias e frontalmente políticas, seguiu igualmente o rasto de Fela, advogando o não pagamento da dívida externa portuguesa - "Nunca vão pagar esta dívida, nem os vossos filhos, nem os filhos deles; o FMI tem de perdoar" -, ao mesmo tempo que defendia o não-perdão da dívida aos países africanos como forma de responsabilização e combate à corrupção. Na sua declinação punk do afrobeat, de notável crueza e frenesim, persiste este apelo à "revolução global". Esta música de libertação é um jorro de inventividade e energia que proclama isso a cada momento: o direito do indivíduo a viver sem grilhetas de qualquer espécie.

Ainda que sem o vigor da anterior passagem pelo FMM (em 2004), Femi Kuti justificaria por inteiro o protagonismo de concerto final, com direito ao habitual fogo-de-artifício - os Tamikrest não convenceram totalmente no papel de representantes da música tuaregue, soando a versão menor dos Tinariwen; a rap-per Akua Naru encostou-se demasiado à participação popular para fazer vingar um concerto sem ideias musicais. Rachid Taha, por seu lado, teve uma prestação em tudo semelhante a 2007. Com um excelente álbum, Zoom, a servir de pretexto para a actuação, mergulhou no seu raï"n"roll com a mesma convicção com que deverá ter mergulhado a cabeça noutros líquidos, emergindo de uma decadência mais ou menos contínua para resgatar notáveis interpretações de Barra Barra, Rock el Casbah e Écoute Moi Camarade, sempre no arame e cujo brilho dependia realmente de caírem para o lado certo.

Outro dos regressos previstos, do indiano Trilok Gurtu, acabaria por não acontecer devido a atrasos com os voos do percussionista. Com verdadeiro espanto, o duo reduzido à actuação solo do pianista arménio Tigran Hamasyan conquistaria o público com recurso a um virtuosismo de fundo clássico e barroco, ao qual Tigran juntaria, aos poucos, um experimentalismo inusitado, conseguindo efeitos fantasmagóricos com o assobio, alimentando loops de piano eléctrico, cantando colado a uma tradição vocal arménia, substituindo-se a Trilok enquanto human beatbox cuspidora de ritmos hip-hop e de simulação fiel de tablas. Do imprevisto surgiu um dos mais belos e inesperados concertos do FMM.

Se Femi Kuti reforçou a condenação do FMI que Baloji verbalizara dias antes, também os Gaiteiros de Lisboa se juntaram aos protestos contra o excesso de zelo das forças de segurança. "Antes do 25 de Abril, não havia polícia à porta dos festivais a vasculhar as malas e a intimidade das pessoas. É uma coisa nojenta", atirou Carlos Guerreiro, no final de uma actuação que esteve ao nível do melhor que este colosso de recontextualização da tradição musical portuguesa alguma vez conseguiu. A revista em busca de "objectos cortantes" à entrada do castelo, na noite de sábado, levaria a filas de uma hora que impediram muitos de assistir ao concerto de Tamikrest.

E também os Gaiteiros, como muitas outras formações, desejaram longa vida a um festival que se tornou arma de campanha para as próximas eleições autárquicas. Daqui por um ano, veremos se o FMM conserva a identidade que o tornou o lugar de peregrinação óptimo para quem quer descobrir músicas nunca antes ouvidas.