O rossio é um palco

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As obras do D. Maria II começaram em 1842, mas o Teatro Nacional só abriu portas quatro anos mais tarde João Catarino ilustração

Houve espectáculos de poder e espectáculos de horror. Do tribunal da Inquisição ao D. Maria II, o Rossio foi sempre um teatro.

Na última crónica andei pelo Rossio à procura dos sinais dos refugiados que, nos anos 1940, sentados nos cafés, esperavam lugar num navio que os levasse para longe da Europa em guerra. Agora, regressei ao mesmo Rossio à procura de outros tempos, mais antigos - como se tivesse um daqueles livros em que páginas com transparências vão sobrepondo camadas de tempo. Só que, ao contrário, vou levantando, página a página, fazendo desaparecer os refugiados e os cafés, fazendo até desaparecer o Teatro Nacional D. Maria II e procurando o que estava lá no início de tudo. Como nasceu o Rossio?

Finais do século XV. Do lado direito da praça, para quem está de costas para o rio, surge o Hospital de Todos os Santos. É preciso fazer desaparecer da nossa vista a Pastelaria Suíça e tudo o que está entre a loja de chapéus na esquina junto ao D. Maria II e a esquina que liga à Rua da Betesga. Erguem-se então as arcadas da fachada do hospital, que abrigam locais de venda, e, no centro, a escadaria e a entrada da igreja com o seu pórtico manuelino. E, de repente, dá-se o terramoto de 1755, o hospital desaba e encerra-se um capítulo da vida do Rossio.

Mas passemos para outro lado da praça, aquele onde hoje se ergue o Teatro Nacional, e recuemos ainda mais no tempo. Meados do século XV. Foi então construído um palácio a que se chamou Paço dos Estaus, conta no livro O Rossio pelos Olisipógrafos (colecção dirigida por Marina Tavares Dias) Vilhena Barbosa, colaborador da Archivo Pittoresco, revista do século XIX. A palavra "estaus" designava uma hospedaria e o edifício, que recebeu grandes festas, servia precisamente para hospedar os embaixadores estrangeiros e pessoas da corte "que não tivessem quarto nos paços del-rei, nem domicílio seu na cidade".

Conta um roteiro do Centro Nacional de Cultura que as cavalariças dos Estaus "albergavam elefantes, girafas e outras alimárias espantosas" e que os importantes embaixadores se "espantavam com as justas entre rinocerontes e elefantes, os negros de África, os indianos, os japoneses e a miríade de gente que fazia de Lisboa a primeira cidade verdadeiramente cosmopolita do planeta".

Era um edifício austero, sem adornos e com janelas pequenas. Apesar disso, foi aí que se instalou D. João III, que trocou os paços da Ribeira por este local mais recolhido. E foi o mesmo rei que, em 1531, o deu para sede do tribunal da Inquisição. Vilhena Barbosa é implacável: não terá sido por castigo "pelos milhares de vidas que ao diante se extinguiram sobre as fogueiras da inquisição, e no meio dos mais horríveis tormentos que a crueldade dos homens tem inventado", que D. João III perdeu cinco irmãos e dez filhos?

O certo é que só dois séculos e meio depois é que, tal como o seu vizinho Hospital de Todos os Santos, também o palácio da Inquisição ficou reduzido a escombros na sequência do terramoto, mas foi reconstruído, com projecto do arquitecto Carlos Mardel e maior imponência. Tudo acabaria, contudo, no meio do fervor revolucionário de 1820, quando "o povo, no meio dos alvoroços da liberdade, rompeu como onda embravecida contra o palácio do santo ofício", conta o cronista. "Invadiu-o por toda a parte; desceu aos mais fundos cárceres, e devassou os mais occultos aposentos. Conservaram-se abertas e francas ao público por muitos dias as portas do edifício, e todos que n"elle entraram saíram horrorizados do medonho aspecto dos cárceres subterrâneos, e dos logares e instrumentos do supplicio."

Em 1836, o mesmo edifício, onde então funcionava o tesouro público, foi engolido pelo fogo. Coloquemos agora uma última folha com transparências sobre ele, uma nova camada de história.

A cidade já se envergonhava de ter como sala nacional o modestíssimo (e ao que consta muito pouco higiénico) Teatro da Rua dos Condes. Foi Almeida Garrett quem impulsionou o projecto, mas só em 1842 é que desapareceram do Rossio os restos do palácio queimado e começou a nascer aquele que seria o Teatro Nacional D. Maria II.

Depois dos elefantes e girafas, dos embaixadores e das festas, depois das salas de tortura e das fogueiras do Santo Ofício, chegou, finalmente, o Teatro, o verdadeiro. A Garrett foi pedido simplesmente isto: que aquele constituísse "uma escola de bom gosto" e contribuísse "para a civilização e aperfeiçoamento moral da nação portuguesa".