José Régio: memórias de um coleccionador

José Régio tem duas casas-museu: em Vila do Conde, onde nasceu e morreu; e em Portalegre, onde leccionou, cidade que o intimidou, mas onde se rendeu à "poesia do Alentejo".

A princípio, José Régio terá estranhado a paisagem do Alentejo. Nascido em Vila do Conde, onde o rio Ave encontra o mar numa humidade perpétua levantada pelo sal do Atlântico, chegar ao montado, paisagem de sobreiro e oliveira, campos desertos sem casas nem gente, não deve ter sido fácil. Era 1929, levava dois dias a atravessar o país. Nas vésperas de partir, contrariado, escreveu ao poeta Carlos Queiroz: "Ai de mim, que parto amanhã para Portalegre! Parece que fica lá para o coração do Alentejo, ainda não sei bem, nem quero saber. (...) Portalegre! Que gente lá irei encontrar, Santo Deus!"

Em Portalegre viveu mais de 30 anos como professor de Português no liceu José Maria dos Reis Pereira, Régio de pseudónimo, até regressar aposentado, em definitivo, a Vila do Conde. Nesta cidade alentejana escreveu a maior parte da sua vasta obra: poesia, bastante teatro, ficção, numa carreira original, suportada pelo peso do seu eu autobiográfico, filho da modernidade, místico, teatral, sóbrio.

Sabia "por onde ia", ecoam os versos do Cântico Negro, na obra emblemática Poemas de Deus e do Diabo (1926): "A minha glória é esta: Criar desumanidade! Não acompanhar ninguém." Sabia, sobretudo, por onde não ia, quando lhe "estendiam os braços", dizendo "vem por aqui": "Não sei por onde vou, /Não sei para onde vou, /- Sei que não vou por aí."

O ensaísta Jacinto do Prado Coelho escreveu que Régio era "um poeta moderno autêntico - pela desordem psicológica, pelo hipercriticismo dos próprios instintos, pela originalidade rebuscada, pela sobriedade vincante dos conceitos atirados à cara do leitor (...), pelo arrojo e desencontro das formas".

Trastes velhos

Vila do Conde era "a vila desses paraísos perdidos" onde a família vivera e onde Régio nascera e viria a morrer (1901-1969). Numa família tradicional de classe média, foi importante a fortuna de um tio que emigrara para o Brasil e que enviava dinheiro para a madrinha Libânia, figura central da família, que teve enorme influência sobre Régio. "Herdeira que fora do "mano brasileiro", a madrinha Libânia exercia sobre a família uma espécie de matriarcado. Todos a cercavam de atenções. (...) O seu feitio autoritário, austero e caprichoso atraía uma espécie de timorato respeito", escreveu em Confissão dum Homem Religioso (1971, póstumo).

É da madrinha Libânia que primeiro o seu pai, depois Régio, herdam o edifício onde está a casa-museu em Vila do Conde. Aqui passava as férias quando vinha de Portalegre e, quando se reformou em 1962, "desenvolveu um projecto de intervenção e reorganização da casa, adaptando os espaços para receber as obras de arte que foi coleccionando em vida", explica ao PÚBLICO António Ponte, que nos guia pela Casa-Museu José Régio em Vila do Conde.

A casa está "cristalizada", exactamente como Régio a deixou, encostada à rocha do monte do Convento de Santa Clara, na raiz do granito duro e frio de Vila do Conde. "É sobretudo em Vila do Conde que penso passar os últimos anos da minha vida", escreveu a Eugénio Lisboa em 1967. A casa abriu ao público em 1975, quatro anos depois da outra casa-museu se inaugurar em Portalegre - onde está a outra parte da sua vastíssima colecção de arte sacra e popular (comprada por acordo com o poeta pela Câmara Municipal de Portalegre). Em Vila do Conde, numa casa contígua à do poeta, está o Centro de Estudos Regianos, todo o seu espólio literário, bibliográfico e epistolar, e os manuscritos.

Ao contrário da casa de Vila do Conde, que era sua, a casa de Portalegre foi sendo "ocupada" pelo poeta, pouco a pouco. Começou por um pequeno quarto na Pensão dos Vinte e Um e depois foi alugando esta sala, depois aquela, depois outra, porque a sua colecção de arte crescia e porque deixava de ter espaço. Até ocupar a casa toda. "Esta casa mostra apenas uma parte da colecção de José Régio, porque ainda temos inúmeras peças em reserva", explica Maria José Maçãs que guiou o PÚBLICO pela casa-museu de Portalegre.

Não foi no Alentejo que lhe surgiu a paixão pelas "coisas antigas". "Ainda gaiato, eu escapulia-me para um caminho subterrâneo que há em Vila do Conde, nas ruínas do claustro do antigo convento, a procurar caquilhos de louça velha", disse o poeta. Mas em Portalegre vai encontrar uma cidade que "deve ter sido rica noutros tempos", porque "estava cheia de boas peças antigas, que sem grande dificuldade eram vendidas por preços até acessíveis à bolsa de um professor".

O próprio Régio descreve como "alimentava a chama" do coleccionador: comprava de porta em porta, batia as aldeias da região montado "no macho" à procura de antiguidades. Ao final do dia, um amigo esperava-o à saída de Portalegre. Régio saía de casa, como sempre composto, impecável. "[Mas chegado às portas da cidade] guardava a gravata no bolso, punha uma bóina, proibia o meu companheiro de continuar a tratar-me por senhor doutor [e] lá ia." "Mesmo a preços convidativos, quanto sacrifício e quanta desistência - quanto sofrimento! - exige um gosto dispendioso a um professor que ganha o suficiente para ir vivendo!"

Coleccionar era "muito mais que um gosto". Era "um amor, uma paixão, uma mania, um vício - e que sempre se vai inflamando mais". "Régio foi uma personalidade que se dedicou muito à preservação da memória local. Se não tem sido ele a recolher tantas destas peças, algumas se teriam perdido. Aqui vamos encontrar arte popular, que era a sua grande paixão, ainda que saibamos que sempre que tinha possibilidades adquiria também algo mais culto", explica Maria José Maçãs. Em Portalegre, quando Régio começa a ocupar mais espaço na pensão, conta que teve de "encontrar uns "trastes velhos" para animar um espaço grande e vazio, mas principalmente para lhe animarem a solidão". Rapidamente correu na cidade que havia um professor que comprava coisas velhas.

Geração da presença

Em carta ao amigo Adolfo Casais Monteiro escreveu: "Quanto a Portalegre, tem ao menos a vantagem de me deixar dois dias em Coimbra quer à ida quer à vinda." Coimbra foram os anos da aprendizagem, onde estudou a partir de 1920, e onde fundou e se ligou intelectualmente ao grupo da revista presença (assim em minúscula, 54 números de 1927 a 1940). É este grupo "de jovens intelectuais a sair da universidade que vai ser o veículo de consagração do modernismo" em Portugal: além de Régio, João Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca, Edmundo de Bettencourt, Fausto José e António Navarro e, depois, Adolfo Casais Monteiro e Miguel Torga.

Segundo Óscar Lopes e António José Saraiva, "a presença corresponde a um certo ambiente de apoliticismo forçado, depois do colapso da I República em 1926, e, por isso, os presencistas aspiram, em geral, a uma literatura e arte desvinculadas, senão mesmo alheadas, de qualquer posição de carácter político ou religioso". Influenciados por Proust e Dostoievski, e o modernismo francês em geral, estes autores portugueses "descobrem um filão de literatura viva que até então quase passara despercebido aos nossos autores: a "imaginação psicológica", a confissão ou "transposição" imaginativa da consciência introspectiva". (Lopes e Saraiva)

A consagração dos presencistas dá-se em meados dos anos 30, com Encruzilhadas de Deus, de Régio (1936). Com a presença, surgem as primeiras críticas de cinema, de música contemporânea (com Lopes-Graça) e destaca-se a importância da pintura cubista, futurista, primitivista, expressionista de influência europeia (Amadeo Souza-Cardoso, Almada, Eloy).

Apesar da extensa correspondência com Branquinho da Fonseca ou Casais Monteiro, o afastamento de José Régio de Coimbra ditou, de certa maneira, o seu isolamento no Alentejo, uma vida quase "monástica" dedicada ao ensino, às suas colecções e à escrita. Os primeiros tempos em Portalegre não foram fáceis. O poeta resistiu à paisagem como um forasteiro. Mas rendeu-se: "Os meus olhos incompreensivos de estrangeiro não me deixam ainda ver as outras [vantagens] que deve ter. Mas deve tê-las, pois já suspeito que as tenha. Pelo menos, tem serra a meia légua de caminho. Já por lá me perdi ontem, e senti uma paz como não sentia há muito. Quer isto dizer que me julgo resignado." (carta a Casais Monteiro)

Passando de quarto em quarto até chegar "ao tal da varanda", na visita à casa em Portalegre, chega-se ao espaço mais emblemático. "Para a porta da varanda chegou uma mesa. Acaba de escrever o Jogo da Cabra Cega (1934) e já não se sentia tão mal. Aqui escreveu o poema A Toada de Portalegre, que dedica à cidade", conta Maria José Maçãs. Na mesa de trabalho está um manuscrito da Toada e nesse quarto-escritório óleos do irmão Júlio, pintor, aguarelas, livros. Curiosamente, pouca arte.

Muitos lembrar-se-ão do actor João Villaret declamar a Toada de Portalegre. O vídeo está disponível no YouTube. Antigos alunos, que visitam a casa, não deixam de recordar o professor exigente que nunca faltava às aulas. Mas poucos visitaram aquela casa "tosca e bela". "À qual quis como se fora / Feita para eu morar nela."

Um místico descrente

A sua incrível colecção de arte sacra, escultura, pintura, mobiliário de altíssima qualidade divide-se por duas casas. Só em Portalegre estão mais de 400 Cristos. Em Vila do Conde estão mais de um milhar de obras, entre elas 27 ex-votos dos séculos XVII, XVIII e XIX. A densidade das colecções é impressionante. "Procurámos deixar a casa como estava, há um conjunto de intenções na forma como as peças estão colocadas e organizadas", explica António Ponte.

"Muitas vezes a nossa dificuldade é identificar a origem das peças, porque muitas não estão documentadas e como são de cariz popular não é fácil chegar à sua autoria. Estamos a trabalhar nesse processo de aprofundamento do catálogo. Mas há predominâncias temáticas: os Cristos são os mais conhecidos e também a colecção de estatuária Mariana", diz António Ponte.

Não há aleatoriedade, há método: na maneira como está disposto o "jardim do poeta" (palavras de Luísa Dacosta), na ordem como as obras estão alinhadas, os Cristos, as pinturas, os livros, ou ainda na forma como os sofás (em Portalegre e em Vila do Conde, cobertos com uma chita colorida de Alcobaça) se inclinam sobre as janelas. No quarto de Vila do Conde, dominado por uma cama de bilros do século XVII e por um Cristo, alongado, distendido, em sofrimento, morreu Régio de complicações cardíacas em 1969.

Todas estas obras eram fonte de inspiração. "Régio era um místico. Ele tinha necessidade de se rodear destes objectos para materializar no texto essa contemplação. Isso ver-se-á no seu expoente máximo em Portalegre", diz António Ponte. Verdade: há um lado quase teatral nos ambientes (o Purgatório, a Sala do Juízo Final) que parecem austeros e imponentes, mas são de uma profunda humanidade. Como aquele enorme Cristo que, "a navalhadas, fez os braços que faltavam,/ Toscos, mas com, lá dentro, sangue vivo". O nosso olhar dirige-se ele. Maria José Maçãs conta que Régio "encontrou esta peça toda desmantelada no meio de sucata, pronta para ser queimada; quando finalmente a consegue colocar aqui terá tido de se levantar repetidas vezes para a contemplar". Este Cristo dá origem ao poema Fraternidade, em Mas Deus É Grande: "Não!, já não fico só na minha solidão!/ Já me não pesa tanto a minha própria cruz!"

Para um místico como Régio, para quem coleccionou Cristos tão humanos quanto imperfeitos - em sofrimento, na sua dor da crucifixação - falar em "descrença" parece quase uma contradição. Mas em Confissão dum Homem Religioso diz assim: "Foi precisamente a frequentação dos Evangelhos que mais influência teve quanto à minha descrença na divindade de Jesus. Lido embora fragmentariamente, o Velho Testamento fascinava-me pela sua grandiosidade, a sua diversidade e a presença, nele, dum Deus que me parecia absurdo e tanto mais misterioso: tão perto dos homens seus escolhidos (...) e afinal tão distante pelo menos de mim."