Hoje o jazz soa às ruas do Intendente

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Três projectos com o bairro: a banda com músicos, uma orquestra de percussão de de crianças que arrancará em Setembro e um projecto que é ter a porta aberta para que as pessoas possam entrar, assistir, conversar Fotos: Bruno Simões Castanheira

O contrabaixista Carlos Barretto actua no Largo do Intendente com banda formada com instrumentistas locais a partir de uma residência destinada a aproximar a música do bairro

Quatro garrafas de cerveja de litro, abandonadas a meio, despojos de uma noite de copos num antigo salão de jogos situado numa rua que desemboca no Largo do Intendente. Ou então nada disto. O mesmo salão de jogos desactivado há anos, a mesma rua a desembocar no Intendente, mas as quatro garrafas alinhadas com restos bem medidos, cuidadosamente afinados, para dar o mote musical de um dos temas que o contrabaixista Carlos Barretto ali vem ensaiando há dois meses com músicos locais. Assim que o percussionista ataca as garrafas com um pedaço de metal, a imagem corrige-se e patrocina o aparecimento de um tema nos arrabaldes do afrobeat.

Recuemos ao ponto de partida desta história: Barretto, líder do Lokomotiv e membro do Bernardo Sassetti Trio, divide a sua actividade entre a música e a pintura. E cansado de não ter um atelier próprio para desenvolver as duas práticas propôs à Associação Sou uma parceria: em troca de um espaço de trabalho no Intendente propunha--se levantar projectos para e com a comunidade. De momento, "são três projectos", esclarece Marta Silva, directora da associação e ponte entre o músico e o bairro lisboeta. "A criação desta banda com músicos de bairros adjacentes ao largo, uma orquestra de percussão de crianças que deverá arrancar em Setembro e um terceiro projecto que é simplesmente ter a porta aberta para que as pessoas possam entrar, assistir, conversar, cruzar os mundos." E é isso que se vê acontecer em mais um ensaio dos músicos seleccionados depois de um anúncio, juntos numa formação de percussão, flauta, violino, clarinete, saxofone, trompete e uma voz usada como parte do naipe de sopros. De porta aberta, o salão feito atelier, animado pela música que invade a rua, vai convidando a entrar gente que se demora uns minutos, espreita e fica a ouvir antes de seguir viagem, ou miúdos que em vez de saltitarem lá fora pedem para desenhar ou para dar umas tacadas na mesa de snooker esquecida a um canto. Tudo se negoceia a partir de uma moeda definida por Barretto: snooker só no dia seguinte e no intervalo de uma aula de música. As aulas são também o meio de troca directa que Barretto oferece à população que o ajudou a limpar, a arrumar e a consertar o espaço onde estará durante um ano.

O tema de afrobeat, entretanto, à força das repetições, é tocado pela primeira vez sem tropeções, soando já não a uma colagem de diferentes partes avulsas, mas a algo selvagem e intenso. A isso ajuda a presença não apenas de Barretto, mas também de Mário Delgado e José Salgueiro, os outros músicos que compõem o trio Lokomotiv. Em conjunto com o septeto vindo das audições - e escolhido a partir de 18 candidatos - formam a In Loko Band que hoje se apresenta pelas 20h, no Largo do Intendente, no encerramento do festival Largos da Mouraria, por onde passaram em Julho Diabo na Cruz, Gisela João com Júlio Resende, Aline Frazão, Real Combo Lisbonense ou Manuel Fúria.

A oportunidade de trabalhar lado a lado com músicos do calibre de Barretto, Delgado e Salgueiro foi determinante para cativar jovens como Gil Dionísio, violinista ligado à música improvisada e para teatro e, condição essencial, residente no bairro de Anjos. Autodidacta, aprendeu o instrumento de ouvidos colados ao jazz e, há tempos, fez as malas atrás da cultura lautar cigana da Roménia. A musicalidade que aí absorveu deita-a agora para fora na In Loko Band, ao mesmo tempo que se entusiasma com a aprendizagem no atelier: "De repente, não estamos a tocar só com pessoas que estão ao nosso nível. A malta com quem tocamos costuma ter as mesmas dúvidas e as mesmas barreiras que nós. Aqui podemos ver como isso é ultrapassado por quem já toca há muito tempo." O investimento nesta formação não se extingue neste primeiro momento de visibilidade. Aquilo a que Barretto chama "um estágio permanente" conduzirá a um projecto que viva para lá das ruas do bairro, sem cortar o cordão umbilical com a comunidade local.

O tema afrobeat, entretanto, está já rodado e chega Selma Uamusse, uma das vozes dos WrayGunn, que se juntou à In Loko Band. Desde que se mudou para o Intendente, há três anos, Selma envolveu-se nos movimentos artísticos que promovem a integração de um bairro de fama maltratada e que a mudança para ali do gabinete do presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, pretende contrariar. Prestes a gravar o primeiro disco a solo, trouxe um reportório em que quis sublinhar "uma sonoridade mais africana", escolhendo o standardAfro Blue (composição de Mongo Santamaría popularizada por John Coltrane) e uma canção moçambicana trazida de uma recente viagem a África, "por ter a ver com este ambiente do Intendente, mais mestiço". Hoje, Barretto assina o momento mais mediático do trabalho diário no atelier. Mas o que realmente muda é a quantidade de pessoas que chegarão de visita para tomar breve contacto com uma realidade quotidiana que se infiltrou já na sua música. "O palco é o bairro", frisa Marta Silva. E esse está lá todos os dias, com miúdos a desenhar instrumentos, a querer tocar em tudo quanto faça som e a levarem raspanetes por terem desaparecido, por momentos e sem aviso, da sua sala de brincadeiras habitual - a rua.