Movimento MAES organiza arraial para ajudar duas crianças com cancro

Um grupo de mães mobilizou-se para angariar fundos e ajudar duas famílias na luta contra o cancro. O arraial baptizado de "Grão a Grão" realiza-se este sábado, até à meia-noite, em Lisboa.

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Uma das crianças que iria ser ajudada pela iniciativa morreu esta madrugada Miguel Manso

Esperavam fraca adesão durante a manhã. Mas foram aparecendo, aos poucos, “grão a grão”, os que ouviram o apelo de um grupo de 12 mães que organizaram, em dez dias, um arraial para ajudar duas crianças especiais com cancro: Leonor, de quatro anos, e Ivanoel, de 14. A urgência em angariar fundos para os levar à Alemanha, para serem tratados, não foi suficiente para salvar Ivanoel. Morreu na noite de sexta-feira para sábado, no Instituto Português de Oncologia (IPO), precisamente na véspera do arraial cuja intenção era salvá-lo.

A notícia não chegou ainda aos convidados que afluem à Escola Avé-Maria, em Lisboa. Pelas 14h00, já são 250 as pessoas que passaram por aqui. A morte de Ivanoel vê-se nos olhos de Joana Haderer e de Diana Frazão, duas das organizadoras do evento. Fazem por não chorar, embora a dor as assole. Não podem quebrar, há um arraial para manter de pé e dinheiro para angariar.

Escolas, empresas e restaurantes contribuíram para o colorido da festa, as mesas estão recheadas de comida: salgados, doces, bebidas. Assou-se um porco. Tudo em troca de “grãos”. É hora do almoço, mas os pátios da escola não convidam só ao repasto. Há diversão para as crianças, insufláveis e pinturas faciais. O cheiro a bifana invade o espaço. Há rifas, uma banca solidária e, ao longo do dia, sortear-se-á uma viagem a Cabo Verde e outras estadias em hotéis. A filosofia da angariação não podia ter nome mais adequado: “Grão a Grão”.

Os fundos angariados ajudarão as famílias na luta contra o cancro. Vinte e oito mil euros é quanto custa o tratamento na Alemanha. “Nós sabemos que essa terapêutica não é reconhecida em Portugal, mas nem sequer perguntámos aos pais o que era isso das células dendríticas. Pensámos que estes pais precisavam de ajuda financeira para tratar os filhos e quisemos ajudar, seja pelo método que for. Se fosse o nosso filho, nós íamos até ao fim do mundo para o salvar”, explica Joana Haderer, porta-voz do Movimento de Apoio, Esperança e Solidariedade (MAES), que concebeu a ideia do arraial. “Infelizmente, já não fomos a tempo pelo Ivanoel”, diz, com tristeza.

Com a notícia da morte do jovem de 14 anos, o grupo de mães pensa ajudar da mesma maneira a família do Ivanoel, até porque foram muitas as despesas. “Se for para ajudar no apoio psicológico à família, também poderá ser”, diz Diana Frazão. “Os pais de Ivanoel estiveram connosco aqui ontem à noite a ajudar-nos um pouco, e explicaram-nos que o Ivanoel não estava bem”, conta Joana, que via nas mensagens que Ivanoel escrevia no Facebook um sinal de esperança. “Apesar das dores e da febre, dava a ideia que estava com muita força e que estava a tentar controlar tudo isso. Ele estava já há duas semanas internado no IPO. A família, que é de Odemira, já tinha sido chamada para cá para estar perto dele”, diz Joana Haderer.

"Grão a Grão" pode bem vir a ser o início de qualquer coisa que poderá, no futuro, abraçar outras causas. Capacidade de organização e espírito solidário não faltam a este grupo de mães que começou a movimentar céus e terra através do Facebook. “Foi um milagre”, conta Joana. “Eu não conseguia acompanhar o ritmo dos patrocínios que nos iam chegando”. A página Grão a Grão no Facebook foi criada há cerca de dez dias e já tem mais de três mil seguidores.