Ser ou não ser um escritor suíço

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DANIEL ROCHA

Oautor de A Verdade sobre o Caso Harry Quebert tem 28 anos mas envelheceu 15 nos últimos 12 meses. Escreveu um best-seller, viu-se na lista do Goncourt e sentiu a inveja.

"É realmente muito estranho", diz o suíço Joël Dicker quando lhe contamos da surpresa de ver que a literatura suíça está arrumada a um canto da livraria Fnac da Rue de Rive, em Genebra, em vez de estar numa estante mais visível. "E o meu livro estava lá?", pergunta o autor de A Verdade sobre o Caso Harry Quebert, o mais recente fenómeno literário em língua francesa. "Pergunto-lhe isso para saber se o tinham etiquetado como literatura suíça ou não", acrescenta o escritor, que nasceu em 1985 em Genebra, onde vive, apesar de passar temporadas nos Estados Unidos.

"Até há alguns anos na Suíça arrumávamos a literatura em caixas diferentes. Havia a caixa da literatura suíça, onde ficavam os escritores suíços editados por uma editora suíça que escrevem qualquer coisa a propósito da Suíça. E a caixa da literatura francesa, onde ficavam os escritores franceses que escrevem a propósito da França editados por um editor francês. Estas caixas tinham diferenças claras. Mas hoje a literatura, tal como a Europa, misturou-se, as fronteiras abriram-se e mudou tudo."

Joël Dicker é um escritor suíço que escreve em francês e o seu segundo romance publicado, A Verdade sobre o Caso Harry Quebert, conta uma história que se passa nos EUA e foi co-editado por uma editora francesa (Éditions de Fallois / Âge d"Homme). "O meu caso, por ser co-editado, simplifica um pouco. Mas, em geral, tudo isto causa estranheza e as pessoas perguntam: então é suíço ou não é suíço?"

O escritor não crê que o possam catalogar na literatura suíça e explica porquê. Para já, não tem na sua língua francesa escrita traços do francês suíço. Mantém esses traços na oralidade, mas nos seus livros não utiliza expressões que não existam em França, na Bélgica ou no Canadá francófono. "Não utilizei essas expressões no romance porque estando editado em França era necessário que escolhesse, que me colocasse do lado da literatura francesa, seguindo as regras da Academia francesa."

A opção resultou. No ano passado, A Verdade sobre o Caso Harry Quebert recebeu o Grande Prémio do Romance da Academia Francesa e o Prémio Goncourt des Lycéens. A obra foi ainda uma das quatro finalistas ao mais importante prémio francês, o Goncourt. Joël Dicker esteve ao lado de Patrick Deville, Linda Lê e Jérôme Ferrari, que o venceu. "Não foi uma escolha feita a pensar nos prémios, foi uma escolha pessoal. Sou um escritor suíço mas pertenço à literatura francesa", diz o autor, que é de ascendência russa e francesa mas cujos pais, uma livreira e um professor de francês, já nasceram na Suíça. "A minha referência é a literatura francesa, a literatura suíça não a conheço bem. Fui educado com a literatura francesa, a ler Roman Gary, Marguerite Yourcenar, Marguerite Duras. Eles é que fizeram de mim um escritor."

De pequenino...

Dos nove aos 17 anos Joël Dicker fazia e vendia sozinho uma revista sobre animais e a natureza, La Gazette des animaux. Licenciou-se em Direito, curso que escolheu porque tinha más notas a literatura no liceu. Nas aulas era preciso dissertar sobre as obras e ele nunca percebeu porquê nem como. Dá um exemplo. O primeiro capítulo de A Verdade sobre o Caso Harry Quebert tem por título Dans les abîmes de la mémoire (Nos abismos da memória) e um professor de francês interpretou-o como um jogo de palavras entre les abîmes e mise en abyme, expressão usada por André Gide para se referir a narrativas que têm outras narrativas dentro de si. "Não é verdade, não o fiz por isso, mas é a interpretação que ele dá. As interpretações sempre me pareceram idiotas. Por isso nunca fiz o que os professores diziam e tive más notas. Também tive notas más a matemática e a ciências, mas nessas áreas eu era mesmo mau, por isso não era grave", conta, a rir-se, durante a sua visita a Lisboa para lançar este livro de que se falava na última Feira do Livro de Frankfurt, e que chega a Portugal com mais de 750 mil exemplares vendidos na Suíça, em França e na Bélgica. A obra já está publicada em Espanha, na Roménia e na Áustria, e tem direitos de tradução vendidos para 33 países. Sairá em Inglaterra em Março de 2014 e a seguir nos EUA.

"A Verdade sobre o Caso Harry Quebert é o meu sexto livro e o segundo que publico", conta o autor. Começou por publicar o conto Le tigre, que recebeu, em 2005, o Prémio Internacional de Jovens Autores. Mas enquanto andava em Direito foi escrevendo vários romances. "Demorei dois anos e meio a encontrar um editor. O primeiro livro que publiquei, Les derniers jours de nos pères, recebeu um prémio dos escritores de Genebra - a que concorriam manuscritos assinados com pseudónimo - e depois foi publicado pelo editor suíço Vladimir Dimitrjevic. Foi ele que me ajudou a encontrar um editor em França, o Bernard de Fallois. Essa obra saiu em França em Janeiro de 2012 e, alguns meses depois, acabei o manuscrito de A Verdade sobre o Caso Harry Quebert." O editor achou que poderia ser um livro interessante para publicar em Setembro, na rentrée; mal saiu, começou a vender e a ser seleccionado para os prémios. O que é irónico é que, quando o começou a escrever, Joël Dicker achou que seria o seu último livro. "Todos os meus livros anteriores tinham sido recusados e por isso dizia a mim mesmo: vou escrever este último livro e depois vou dedicar-me a outra coisa, porque este vai ser certamente também recusado. O que é divertido nesta história é que acreditei verdadeiramente que não era feito para isto."

Durante a conversa com o Ípsilon, icker insiste várias vezes que este é o seu sexto romance. "Digo-o porque é diferente de eu ser um autor que publicou um primeiro romance e depois puff!, publica outro que é um sucesso. Há oito anos que dedico à escrita a maior parte do meu tempo. É uma experiência longa. Não se trata de um sucesso que surgiu da noite para o dia. Há todo um trabalho por trás disso, há livros que foram recusados, há um que apareceu nas livrarias mas que não teve tanto sucesso assim, e agora há um novo que é um best-seller. Não sei o que acontecerá com o meu próximo romance, talvez não tenha tanto sucesso. Mas não é isso que conta".

O que Dicker quer dizer com isto é que quando partiu para a escrita do livro já tinha reflectido muito sobre a sua maneira de trabalhar e tinha compreendido que o importante, mais do que tudo, era fazer alguma coisa que lhe agradasse. "Quis pôr no livro elementos que me interessassem, ao mesmo tempo, como autor e como leitor. Tinha vontade de que fosse um bom livro, que pudesse agradar a pessoas diferentes, que se partilhasse e que fidelizasse as pessoas em vez de as separar."

À medida que ia escrevendo, não tinha ideia da história ou do que queria dizer por isso deixou que "as ideias viessem". A primeira ideia que teve surgiu-lhe através de um desenho que fez: era a imagem de um homem sozinho, à beira-mar, e havia uma casa, mas não sabia mais nada. "Era o primeiro romance que eu escrevia que não se passava num mundo francófono. Como é que podia fazê-lo?" Achou que ter personagens francesas não lhe permitia ter "uma visão interior dos Estados Unidos" e como isso era importante para ele decidiu tornar americanas as figuras que no início falavam francês e assim ter uma espécie de homogeneidade no texto, já que a acção se passava nos EUA.

Fez 30 versões até chegar à versão final. "Comecei por escrever partindo de uma estrutura simples, com princípio, meio e fim, e apercebi-me de que a história que eu pensava ter - a trama que tinha na minha cabeça - era só uma parte de toda a história. Foi assim que tive a ideia de sobrepor duas histórias e depois, ao tentar fazê-lo, tive vontade de fazer uma história na história da história. Pouco a pouco, fui construindo o romance desta maneira. Não segui um plano, não imaginei isto com antecedência. Na verdade fui construindo o romance pouco a pouco, refazendo as várias versões de cada vez, para que ficasse mais próximo do que queria fazer."

Acabou por escrever um livro que é se aproxima do policial - como leitores, queremos, tal como a personagem Marcus Goldman, um bem-sucedido escritor, saber o que se passou naquele Verão de 1975, em New Hampshire, e se o seu professor de Escrita Criativa na universidade, Harry Quebert, autor de As Origens do Mal, está inocente ou é culpado do assassínio de Nola Kellergan, uma rapariga de 15 anos que ele conheceu quando tinha 30 e tal anos e por quem se apaixonou -, mas é ao mesmo tempo uma sátira do mundo editorial norte-americano e do modo como se fabrica um best-seller. Por isso à primeira parte chamou A Doença dos Escritores (quando a personagem, um jovem escritor, fica bloqueada depois de um êxito), à segunda A Cura dos Escritores (quando a personagem consegue voltar a escrever) e à última O Paraíso dos Escritores (quando a personagem percebe porque é que escreve).

Do boxe à escrita

Em A Verdade sobre o Caso Harry Quebert, Joël Dicker quis pôr temas e assuntos de que gostava: o inquérito policial, o humor, a escrita criativa e o boxe. "O boxe é um desporto que amo e que identifico com a corrida e a escrita. No fundo é um trabalho muito solitário e isso interessa-me muito. É esse o paralelo. É um recomeçar eterno, um tentar ir sempre mais longe, ser mais forte, reinventar-se. É esse o paralelo entre a corrida, a escrita e vida em geral", afirma.

O suíço nunca viu a série Twin Peaks, de David Lynch, embora vários leitores e críticos encontrem semelhanças com o seu universo e façam referência a isso. Também nunca leu Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal, de John Berendt. "O que é interessante em tudo isto é que cada leitor faz inscrever as suas referências, aquilo que conhece, aquilo que gosta no livro. Isso agrada-me. Agrada-me que imagine coisas que eu não vi e que eu tenha imaginado coisas que você não tenha visto também. É isso a partilha. Um livro, de alguma maneira, é um apelo a outro livro."

Neste último ano, Dicker teve de lidar com a inveja que o sucesso provoca: ser finalista do Goncourt aos 27 anos não acontece a muitos e com um best-seller ainda menos: "É preciso ser profissional e de certa forma criar uma carapaça. Durante o último ano envelheci 15 anos. Mas ao mesmo tempo sempre fui mais velho na minha cabeça, acho eu. As pessoas dizem que não é possível que um tipo de 27 anos tenha escrito isto, que é de alguém mais velho. Haverá um caminho-tipo da evolução? Acho que não. Quando era criança e ia ao médico, ele media-me e pesava-me e eu era sempre mais alto do que a média. O médico apontava a curva da evolução da minha altura num caderninho e havia a curva-tipo de evolução da altura que já estava desenhada; eu estava sempre ligeiramente acima. A curva média é matemática. Seria como se disséssemos que uma pessoa não tem 12 anos porque mede mais do que a curva média nos rapazes dessa idade. A resposta que eu dou é sempre esta: sou um pouco mais alto do que a idade, sou mais gordo do que a idade, vão passear! Mas ao mesmo tempo tenho de viver com isso."

Ver crítica de livros págs. 24 e segs.