Os Riding Pânico estão bem assim

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Os Riding Pânico são uma banda estritamente instrumental - a seis vozes

Este domingo cumpre-se a tradição de não haver Milhões de Festa sem concerto dos Riding Pânico. Depois de alguns anos de actividade residual, sobem a palco com o seu Homem Elefante (calma, não é o que parece). Gonçalo Frota

O contrato assinado originalmente entre os Joy Division e Tony Wilson, da Factory, estipulava que a editora não detinha poder algum sobre os músicos, não se refugiava em cláusulas pouco explícitas para se apoderar da sua obra e que a banda era livre de sair porta fora assim que o entendesse. Lavrado a sangue, celebrava a confiança mútua, Wilson tentando colocar-se de imediato do lado dos músicos e não na posição daquele que os tentava espremer até à última gota. Esse acordo é lembrado pelos Riding Pânico, e humoradamente comparado com aquele que estipula a presença obrigatória do grupo em todas as edições do Milhões de Festa. Com a diferença de que não houve sangue nem contrato neste caso. Houve, na melhor das hipóteses, um bafo de álcool em ambos os sentidos no entendimento verbal firmado com Joaquim Durães (Fua), programador do festival.

Na história dos Riding Pânico - formados em 2004, juntando gente certificada por bandas como If Lucy Fell, Men Eater e, posteriormente, PAUS -, o episódio ocupa parte considerável da sua galeria dedicada à mitologia rock"n"roll. Desde logo porque, como convém a qualquer boa mitologia, o relato não é coincidente. Jorge Manso, um dos três guitarristas do grupo, recorda a declaração vinculativa de Fua - "Vou continuar a fazer isto e vocês, que tocaram no primeiro festival, vão tocar em todas as edições; se não tocarem, o Milhões de Festa não acontece" - como tendo sido proferida no entusiasmo da primeira edição, em 2006, no bar Uptown (Porto), quando tocaram para 15 pessoas, longe ainda dos tempos de piscinas sobrepovoadas em Barcelos. Para o baterista Carlos BB, a promessa/maldição lançada sobre o Milhões aconteceu passados quatro anos, já depois de terem tocado em 2007 com uma invulgar electricidade - "íamos sendo electrocutados", confessa Jorge - "numa casa ocupada ao pé da estação de comboios de Braga, a Censura Prévia". Só na chegada do Milhões a Barcelos, em 2010, Fua terá percebido que os Riding Pânico tinham acompanhado o festival em todas as mudanças de casa.

A fidelidade é mútua - "Riding Pânico e Milhões de Festa, Shellac e Primavera Sound" são histórias de amor equivalentes, dizem os músicos. Todos os anos, assumindo que a sua presença está assegurada, reservam as datas e perguntam apenas "Quando é que podemos anunciar que vamos ao festival?", tendo Manso chegado a voar expressamente para Portugal durante uma ausência de três anos no exterior para actuar no Milhões. Desta vez, o concerto é motivo de especial motivação para o grupo: há disco novo, Homem Elefante, acidentalmente ligado a David Lynch e mais preocupado em sugerir as mutações que o sexteto identificou e tomou nota na sua sonoridade filha mais ou menos legítima do pós-rock.

Nada a perder

O parto deste Homem Elefante quase replica a génese dos Riding Pânico. Em 2002, quando Jorge Manso foi tentar a sorte em Londres, Makoto Yagyu soube da sua chegada e tratou de arranjar forma de o contactar por telefone. "Conhecemo-nos, bebemos umas cervejas e fomos viver os dois juntos", lembra o guitarrista. "E começámos a ensaiar, ele na bateria, eu na guitarra". Manso acabaria por regressar a Portugal tempos depois, trazendo um outro número de telefone consigo, o de Carlos BB, primo de Makoto, baterista e com um estúdio à disposição. Os Riding Pânico arrancaram, por isso, a dois - Carlos e Jorge tinham ensaios de 12 horas com passagem por lanche, jantar e pequeno-almoço -, juntando-se depois outros instrumentos que adensavam a música a ponto de uma voz só poder afogar-se naquelas composições. Por outro lado, cada um que chegava apenas reforçava a recusa em abrir a boca quando as músicas tinham crescido sem sentir a falta das palavras. A entrada de uma voz implicaria, na verdade, criar uma necessidade artificial. Ou, como diz BB: "Somos seis vozes, por isso não queremos mais - ficávamos sete." Pode parecer um fraco argumento aritmético, mas não é: o espaço que cada instrumento ocupa deve-se a não haver esse foco que, a entrar, dinamitaria toda a dinâmica da música.

Pouco depois da edição de Lady Cobra, em 2008, Jorge Manso faria nova investida profissional no estrangeiro, deixando os Riding Pânico em banho-maria, na sombra dos restantes projectos paralelos, entre os quais os PAUS - que Makoto integrou como baixista, o mesmo posto que ocupou nos Riding Pânico quando, depois de regressado de Londres, informou os restantes membros de que entraria para a banda naquele preciso momento, decidindo que se ocuparia do baixo, instrumento que não dominava. Assim que Manso voltou a pousar o pé em Lisboa, recentemente, os Riding Pânico reagruparam-se e começaram a reunir as ideias que resultariam em Homem Elefante.

Há uma atitude de "nada a perder" que alimenta às colheradas a música dos Riding Pânico, em resposta a uma conjugação de factores em que se incluem: a falta de uma voz e a tendência dos vocalistas para gostarem de refrães, a certeza de que esta não é música que alicie os festivais cujas designações têm de incluir a bênção e o carimbo dos patrocinadores, a constatação óbvia de um gráfico da saúde financeira de cada um sem quaisquer variações visíveis a olho nu operadas pela actividade do grupo e a antecipação de que singles como Dance hall não serão motor para vendas que se contabilizem aos milhões ou sequer às dezenas de milhar. Daí que Homem Elefante tenha edição em vinil, pelo romantismo do formato, mas esteja já acessível para download gratuito providenciado pela própria banda. "Saquem os MP3, gravem cassetes para a mãe, para o tio ou para o cão, façam o que quiserem com a nossa música", diz Manso. O pacto que esperam estabelecer é apenas um: que quem ouve possa retribuir com a sua presença nalgum concerto, altura em que os Riding Pânico renovam um mandato do público para continuarem a existir.

A liberdade, sublinham, é também a de poderem matar o seu reportório e adoptar um novo sem se verem perseguidos por temas tão emblemáticos que se sintam obrigados a tocá-los sempre que subirem a um palco. É coisa que não invejam aos Rolling Stones ou aos compadres Linda Martini - cujo Amor combate será sempre uma exigência popular. Eles estão bem assim, não lhes inventem problemas na forma de sucessos.

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