Candidato a Sintra abre sede em loja de ex-autarca afastado pelos tribunais

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Sintra vai ser cenário de uma das mais renhidas disputas eleitorais nas eleições de 29 de Setembro DANIEL ROCHA

Marco Almeida diz que alugou loja ao antigo presidente da câmara João Justino apenas no quadro de uma "relação comercial".

O vice-presidente da Câmara de Sintra, Marco Almeida, eleito pelo PSD nos três últimos mandatos e actual candidato independente à liderança da autarquia, instalou a sua sede de campanha num espaço pertencente ao empresário João Justino no centro da vila - facto que originou um comunicado do Bloco de Esquerda (BE) em que se diz que "não há almoços grátis".

O BE, que ontem tornou pública a propriedade do imóvel, lembrou que Justino, um dos maiores industriais do concelho, tem protagonizado vários episódios de violação do Plano Director Municipal (PDM) e salientou que Marco Almeida nunca anunciou o apoio político do empresário, ao contrário do que fez em relação a outras personalidades.

Contactado pelo PÚBLICO, Marco Almeida - que na semana passada surgiu numa sondagem do JN em primeiro lugar na corrida à câmara, à frente do candidato do PS (Basílio Horta) e do do PSD (Pedro Pinto) - afirmou que a sede "foi alugada" no âmbito de uma "relação comercial" e que o contrato será celebrado brevemente. O candidato garantiu que a preocupação do movimento que o apoia consistiu apenas em encontrar "as melhores localizações", com "mais visibilidade e valor eleitoral", tanto em Sintra, como em Massamá, Pêro Pinheiro e Casal de Cambra. O movimento, salientou, concorre também à assembleia municipal, com António Capucho como cabeça de lista, e a todas as freguesias, onde conta com o apoio de grande parte dos actuais presidentes de junta, incluindo uma do PS.

Quanto ao valor da renda a pagar pela sede de Sintra, Marco Almeida escusou-se a responder, afirmando que ele constará, tal como todas as despesas de campanha, no orçamento a apresentar ao Tribunal Constitucional (Entidade das Contas) no dia 6 de Agosto. "O contrato com o comendador Justino só ainda não foi celebrado porque as dificuldades colocadas à organização das candidaturas independentes são tantas que só há duas semanas é que conseguimos abrir uma conta bancária em nome do movimento", justificou. Questionado sobre se João Justino era um apoiante da sua lista, Marco Almeida limitou-se a declarar que ele "nunca esteve em nenhuma iniciativa da candidatura". Sobre o facto de o empresário ser parte em litígios judiciais com a câmara por violações do PDM, o vice-presidente da autarquia disse apenas que "essas questões são da Justiça" e "não têm a ver com o espaço alugado" pelo movimento. Marco Almeida adiantou que se trata de uma loja que dá para a Rua Heliodoro Salgado e que "o senhor comendador permitiu a utilização da fachada da moradia" situada por trás.

Justino foi eleito presidente da Câmara de Sintra pelo PSD em 1989 e foi o primeiro autarca a ser destituído pelos tribunais, em 1992, por violação da lei. O empresário, agora com 82 anos, mantem há mais de uma década vários litígios com a autarquia, por violação do PDM em obras da sua responsabilidade. O mais grave deles remonta a 2001 e prende-se com a construção de uma enorme moradia, em Colares, que quase triplicou a área que tinha sido autorizada pelo município e pelo Parque Natural de Sintra-Cascais. O incumprimento do projecto levou a que o Ministério do Ambiente ordenasse a demolição das construções ilegais, em 2003 e 2006, mas, até hoje, o empresário tem conseguido evitá-la mediante a interposição de sucessivas acções judiciais, ainda por resolver.

João Justino já em 2001 tinha cedido um antigo cinema de que era dono para sede de candidatura de Edite Estrela (PS), nas eleições que esta perdeu para Fernando Seara.