A periferia é o centro

Foto
Firmeza, Liofox, Maboku, Dadifox ou Liocox formaram Os Piquenos DJs do Ghetto - designação inspirada num anterior colectivo de Marfox cuja primeira compilação, disseminada pela Internet, é um marco para as gerações mais novas. É aqui, no Bairro da Quinta do Mocho, perto de Sacavém, que se encontram regularmente BRUNO SIMÕES CASTANHEIRA

No quarto lá de casa, jovens dos bairros suburbanos estão a fazer alguma da música artesanal mais estimulante que se produz hoje em Portugal, para ser dançada no coração da Lisboa boémia e culta. Esta é a história de Nigga Fox, de Marfox, de Maboku e da editora Príncipe, assim como do encontro suado e festivo entre a periferia e o centro na pista de dança.

Uma massa de corpos move-se freneticamente e sempre que um novo tema é lançado pelo DJ ouvem-se gritos de júbilo. São quase três da manhã, noite de fim-de-semana, e num dos espaços mais conhecidos de Lisboa, o MusicBox, ao Cais do Sodré, dança-se com uma tenacidade que não se vê muito por aí, mistura de satisfação e sensualidade. Vislumbram-se rostos conhecidos da boémia lisboeta, mas também há caras que não são muito habituais por ali, numa salutar mescla de pessoas de cores, idades, roupas e carteiras diferentes. Unidas pela música.

É um cliché. Mas ali essa utopia parece mesmo realidade. A música é serpenteante, mas por vezes torna-se mais sensorial. Pode ser kuduro, batida, afro-house, funaná, tarraxinha, ou qualquer outra designação que apenas ouvidos experimentados conseguirão distinguir. Música física feita nos quartos lá do bairro por jovens músicos-produtores portugueses, oriundos da periferia de Lisboa, que ali têm hipótese de se expressar na plenitude. As noites mensais Príncipe, organizadas pela editora e promotora do mesmo nome há mais de um ano, têm ajudado a revelar a música de Marfox, Nigga Fox, Maboku, Firmeza, Kolt ou Dadifox.

Para a maior parte, estes nomes serão desconhecidos. Para os amigos dos bairros, constituem uma referência. Para nós, estão a fazer alguma da mais estimulante música artesanal produzida em Portugal. E não somos os únicos a pensá-lo. Nos últimos meses, os elogios têm surgido de todos os lados. Ainda há pouco tempo o conhecido jornalista Philip Sherburne falava, na revista americana Spin, da magnífica mixtape de Nigga Fox (Meu estilo) num tom elogioso, tecendo paralelismos com nomes grandes da electrónica de dança como Ricardo Villalobos. E o mesmo sucedeu com a influente publicação americana The Fader, a propósito da incursão de Marfox pela tarraxinha, o género mais lento e carnal de todos os que aborda.

Há música nova, e toda uma nova forma de a experimentar, a ser feita por aí, longe dos ouvidos do grande público. Por exemplo, no bairro da Quinta do Mocho, perto de Sacavém. Chega-se ao lugar e constata-se que as frentes dos prédios são quase todas iguais, por vezes matizadas de roupa colorida nos estendais. São 16h, está um calor sufocante, e à entrada de alguns edifícios, pela sombra, há pessoas em amena cavaqueira. Mas quase não se vislumbra vivalma. Às tantas um miúdo grita da rua pela mãe e ela surge à janela do prédio, gerando-se uma troca de palavras que todos ouvem. "Aqui temos o hábito de chamarmos uns pelos outros gritando da rua", ri-se DJ Firmeza, ou seja Cílio Manuel, 18 anos, um dos integrantes do colectivo Piquenos DJs do Ghetto, do qual fazem parte Liofox (Lione Bastos), Maboku (Waldemar Almeida), Dadifox (Valdemiro) ou Liocox (Ricardo Vieira).

Uma das grandes referências para todos eles é DJ Marfox, ou seja Marlon Silva, de 25 anos. Não é por acaso que a designação Piquenos DJs do Ghetto foi inspirada em DJs do Ghetto, nome do colectivo ao qual pertencia Marfox. Ele não é da Quinta do Mocho (cresceu na Portela), mas também está em casa aqui. É conhecido e respeitado. E nas ruas todos o cumprimentam.

Em 2006, Marfox, Nervoso, N.K., Fofuxo, Pausas e Jesse foram autores de DJ"s do Guetto Vol. 1, uma compilação que se disseminou rapidamente pela Internet, sendo hoje vista como um marco para as gerações mais novas que abordam linguagens como o kuduro. Até ao momento, Marfox lançou três EP: para a editora londrina Pollinate Records, para a Enchufada dos Buraka Som Sistema e, no ano passado, para a Príncipe. Como DJ, tem actuado um pouco por todo o lado. No estrangeiro também. "Sim, comecei a viajar com o meu colectivo em 2007, devido ao efeito da compilação DJs do Ghetto. Fomos os primeiros a fazer isso, com hotel, tudo pago", afirma. Inicialmente apresentavam-se para as comunidades africanas de países europeus. Depois começaram a surgir os convites de clubes e festivais. Hoje Marfox já tem cartel na Alemanha, em França, na Dinamarca, em Espanha, em Inglaterra, na Itália, na Polónia, na Sérvia ou na República Checa.

Dito assim, pode parecer que é uma estrela. Nada disso. "Consigo pagar as minhas contas e ajudar com o que posso em casa. Sei de onde vim e continuo a dar-me com as mesmas pessoas. Se algum dia alcançar sucesso a sério será um motivo de orgulho, pelo reconhecimento do meu trabalho, nada mais. Ando de transportes públicos, não tenho carro. Continuo a viver na mesma barraca. O que gosto é de música. É por ela que vivo."

Sair do bairro

Para Marfox, a música não é apenas questão estética. É também uma questão ética. O dinheiro, claro, é bem-vindo, mas não é tudo. "No Japão, onde há faixas minhas a circular, pagam-me cordialmente direitos de autor, mas em Portugal a maior parte das rádios não o faz e o que me vale são as festas e não ter muitas despesas", explica, para logo de seguida lembrar: "O que fazemos, mesmo que seja indirectamente, acaba por ter também uma função social."

O bairro da Quinta do Mocho é um dos mais estigmatizados da Grande Lisboa. Alguns dos moradores, quando vão a repartições públicas ou procuram emprego, ocultam a morada. Não espanta. Na imprensa, o bairro é associado a lutas entre grupos rivais, criminalidade, conflitos com a polícia. Quem lá vive não nega que existem conflitos. Mas os moradores sentem-se injustiçados pelo olhar simplista. A começar por essa ideia de que é maioritariamente habitado por cidadãos de países africanos. Não é verdade. A maior parte é portuguesa. Por acaso, de cor negra.

"A importância da noite Príncipe é também essa", justifica Marfox, "é mostrar ao mundo o melhor que existe nestes bairros. É mostrar a música feita na periferia há muitos anos. É música boa, feita em Lisboa, com consistência." Ele move-se com à-vontade na periferia, mas também nos meandros cosmopolitas da cidade, percebendo que os eventuais desencontros começam, quase sempre, no desconhecimento. No medo do que não se conhece.

"Os de fora dos bairros acham que aqui são todos criminosos e os daqui acham que os de fora são todos hostis", diz. "É importante mostrar às pessoas daqui que também existe um outro lado em Lisboa e que nem todos têm preconceitos. As pessoas não saem muito do bairro, não vão muito a Lisboa. Então, é necessário tirar daqui as pessoas que fazem música incrível, para servirem de exemplo aos mais novos. Os miúdos que agora estão à janela a olhar para nós vão perceber que está aqui um jornalista e não foi por causa de criminalidade. Foi por causa da arte. E isso é importante, porque amanhã verão um traficante ser preso e verão o Firmeza ir ao Optimus Alive e quererão é ser como ele. É um enorme estímulo social."

Quem vive no centro da cidade tende a conotar negativamente os que habitam na periferia. O que muitos dos que o fazem não sabem é que o cumprimento é devolvido. Ou seja, quem reside na periferia tende a achar que o centro urbano é muito confuso, conflituoso e também perigoso. Ali valoriza-se mais a proximidade dos familiares e dos amigos. Há um modo de vida mais localizado, menos móvel, mais concentrado no lugar onde se habita. O facto de serem espaços híbridos, onde pessoas de origens diferentes coabitam, pode originar tensões. Mas isso leva-nos a esquecer a outra face: a verdade é que também pode potenciar a criatividade, precisamente pela pluralidade. "Aqui toda a gente se conhece, independentemente de onde é, e gosta do nosso som" diz-nos Lione Bastos, ou seja Liofox, 20 anos. "E até ficam surpreendidos quando chegam ao MusicBox e vêem aquele ambiente. É como se tivessem de ver para acreditar."

Qualquer coisa de semelhante é dita pelos membros do colectivo Blacksea Não Maya, residentes na margem Sul do Tejo, na zona do Fogueteiro, Seixal. Vamos encontrá-los reunidos no bairro da Jamaica - e Joker, ou seja Lito Noronha, também nos devolve que os amigos ficam sempre surpresos quando entram no MusicBox.

Intriga-os o facto de no centro da Lisboa culta se fazerem noites assim, que eles nem no circuito da chamada "noite africana" encontram. É um sonho: "Como alguém que faz bolo de milho e encontra uma casa onde é possível partilhá-lo", diz Joker. "Sentimo-nos bem ali. Sabemos que ali podemos mostrar o nosso som. Ao início não foi fácil, mas fomos percebendo que ali expandimos o som e podemos proporcionar felicidade e a cada ritmo ir deixando de lado os problemas."

Kolt, ou seja Adjalme Noronha, 20 anos, vai mais longe: "Aquilo é a casa onde toda a gente gosta do nosso estilo e é isso que a gente quer também. Se formos pôr aquele tipo de som na discoteca Terrace, na Amora, não vai ser a mesma coisa."

Sem mediação

Como acontece com a Quinta do Mocho, também o bairro da Jamaica é conotado com a marginalidade. Ali vive quase um milhar de pessoas a quem, quase todos os anos, é prometido realojamento. Ao que parece o problema subsiste há quase duas décadas. A maior parte dos edifícios tem os tijolos e o cimento à mostra, envoltos por instalações eléctricas precárias, rodeados de poças de esgotos; o abastecimento de água é clandestino.

No topo de uma das torres ouve-se música. No café central, numa esplanada improvisada, joga-se às cartas e discutem-se descontraidamente assuntos do bairro. De dentro do café ouvem-se o ribombar de linhas de baixo gordas e ritmos disjuntos electrónicos. O colectivo dá a conhecer a Pedro Gomes, conhecido agitador da realidade musical portuguesa através da produtora Filho Único, a André Ferreira (músico dos Aquaparque e dos Tropa Macaca) e a Márcio Matos, todos ligados à aventura Príncipe, os novos temas, feitos ao longo das últimas semanas.

Tem sido um processo gradual de conhecimento entre todos. A Príncipe fê-los perceber que podem aspirar a viver do que gostam de fazer, não tendo de ficar confinados às fronteiras artificiais dos bairros onde residem. E eles retribuem com música que tem tanto de físico como de fantasia, com uma poética própria, que cada vez mais gente quer ouvir e experienciar.

Discute-se cada tema e escolhem-se os favoritos. Joker, o mais velho, é o mais falador. Mas depois há também DJ Noronha (Fábio Noronha), Kolt (Adjalme Noronha), Perigoso (Ivan Varela), Wayne (Paulo Reis) e Locks (Miguel Ângelo). Todos portugueses, filhos de pais que vieram há muitos anos para Portugal, oriundos de alguns dos países africanos de expressão portuguesa.

"Sou DJ e em termos de produção faço um pouco a gestão da equipa e estou atento a novos sons, porque aqui funcionamos como família", diz-nos Joker. O colectivo formou-se há cerca de quatro anos. Uns dedicam-se a fazer música. Outros passam-na nas noites. Todos almejam um dia poder viver exclusivamente da sua actividade, embora exista a noção de que vai ser difícil e nem todos o conseguirão.

"Isso é um sonho que tenho desde pequeno", diz Wayne, ou seja Paulo Reis, 17 anos. Perigoso, ou seja Ivan Varela, recorda que desde que começou, aos 13 anos, essa possibilidade está sempre presente no seu espírito: "Se me esforçar, é possível." Começaram a fazer música cedo com o Fruity Loops Studio, um aplicativo conhecido entre profissionais ou para quem a criação de composição áudio é passatempo. É um programa de acesso simples, através do qual é feita parte da música. "Comecei por ver na Internet como se fazia", diz Perigoso, "depois fui desenvolvendo e aprendendo mais."

Apesar de electrónica, a sua música tem qualquer coisa de artesanal. Não é apenas a forma quase rudimentar como é criada, em casa, sem grande equipamento, é também a maneira como a sua exposição acaba por acontecer, directamente da casa para a pista de dança, sem mediação.

Nada de novo, diga-se. A história dos blues, do samba, do fado ou do rock não é muito diferente. Inicialmente era artesanato. Música feita sem veleidades artísticas ou comerciais, para usufruto próprio ou entre amigos. "Poder passar a minha música no MusicBox e ver as pessoas a reagirem a ela já é muito bom, mas é claro que um dia gostaria de poder viver da minha actividade", diz-nos DJ Noronha. Todos alinham por esta ideia.

Curiosamente, a cultura hip-hop é-lhes distante: a maioria começou muito cedo a interessar-se e a fazer música diferente, do kuduro ao afro-house. "Ouvia hip-hop americano, mas parei, porque comecei a entender que aquele imaginário e o estilo de vida de grandes carros não tinham nada a ver com a minha vida", diz-nos Marfox. Está mais próximo do kuduro, música de impetuosidade rítmica e de impacto sonoro imediato, que incorpora tudo o que tem à frente, sejam vozes cortadas ou sirenes de alarmes. "Estou sempre a produzir e numa semana posso fazer dez beats para passar na pista, dependendo da dedicação e da inspiração", assegura, recordando que as suas sessões são diferentes consoante o espaço.

"Quando não me conhecem não arrisco tanto. Mas quando posso opto por temas mais sombrios e profundos. No MusicBox acontece isso e nas Hard Ass Sessions no Lux também. São sessões mais personalizadas. Mas também sou capaz de fazer sessões mais acessíveis e de passar coisas que toda a gente conhece, para sentir que a pista está comigo."

O estilo de Liofox é mais "tradicional, mais fundo, mais ritmo africanizado", enquanto Maboku define-se como DJ de afro-house, "porque o kuduro é muito rápido." Ou seja, dá ideia de que o frenesim rítmico do kuduro é cada vez mais substituído por sonoridades menos velozes, sejam o afro-house ou a tarraxinha, e com uma construção harmónica mais progressiva.

E regressamos ao MusicBox. Na cabine está agora Nigga Fox, ou seja Rogério Brandão, 22 anos, estudante de informática, a residir no Lumiar. Não pertence a nenhum colectivo, mas conheceu Marfox na escola em Marvila e foi ele que o introduziu no universo da música. Às tantas passa alguns temas criados em casa nas últimas semanas. Há dinamismo rítmico, mas inúmeros elementos a rodeá-lo. Envolvência, atmosfera, temperatura sensorial. Ele gosta de kuduro, mas isto já é outra coisa. Na pista todos olham na sua direcção e balançam-se ao som da música.

À frente lá estão alguns amigos do bairro da Quinta do Mocho. Vieram ver com os seus próprios olhos, porque contado por Firmeza ou Liofox eles não acreditariam. E entram mais pessoas no espaço. Algumas delas caras conhecidas da noite lisboeta. Ajeitam-se junto ao bar, para sentir o ambiente. Mas não é possível. Ali dança-se. Não é exequível estar, apenas. Há suor para partilhar e, portanto, o melhor é deixar os casacos no bengaleiro.

Agora, atenção, Nigga Fox, quebra um pouco o ritmo. Vai lançar nova bomba. Ouve-se a introdução: trata-se de Só nós 2, tema incluído no EP O meu estilo, acabado de editar. Levantam-se os braços, grita-se, o som irrompe, há uma felicidade transbordante no ar e lembramo-nos das palavras de Kolt, no bairro da Jamaica, dias antes: "Aquilo não é só curtir, é mesmo amor."

Ver crítica de discos págs. 22 e segs.