Reportagem

O Papa na favela: não haverá paz se a periferia for abandonada

Um campo da bola que é um lamaçal, chuva sem parar, em volta barracos: é o cenário à espera do Papa Francisco, na favela de Manguinhos, Zona Norte do Rio de Janeiro.

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Moradores esperavam ansiosos pela visita do Papa, muitos esperando que a sua presença traga melhorias para a comunidade REUTERS/Pilar Olivares
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Freiras Missionárias da Caridade, a mesma ordem de Madre Teresa, que chegou a visitar a Varginha nos anos 70 REUTERS/Pilar Olivares
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Parte do percurso foi feito no papamóvel, mas o Papa não deixou de estar em contacto com a população REUTERS/Pilar Olivares
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O Papa beija uma criança AFP PHOTO / YASUYOSHI CHIBA
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O Papa caminhou depois pela rua ao longo de cerca de 300 metros, em direcção à capela São Jeronimo Emiliano AFP PHOTO / TASSO MARCELO
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Durante a visita recebeu um cachecol da equipa argentina de futebol San Lorenzo, do qual é adepto AFP PHOTO / YASUYOSHI CHIBA
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Um rapaz abraçou e emocionou o Papa AFP PHOTO / YASUYOSHI CHIBA
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Num discurso feito no campo de futebol da comunidade, o Papa fez um apelo para que os jovens lutem contra a corrupção AFP PHOTO / GABRIEL BOUYS
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"Nunca desanimem, não percam a confiança, não deixem que se apague a esperança. A realidade pode mudar, o homem pode mudar", afirmou o Papa AFP PHOTO / GABRIEL BOUYS
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Todas as casas da rua por onde passou o Papa foram revistadas pelas forças de segurança AFP PHOTO / GABRIEL BOUYS
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Cerca de 600 agentes da polícia militar seguiram a visita à favela, juntamente com 80 agentes federais, além de militares do Exército AFP PHOTO / GABRIEL BOUYS
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Moradores acompanharam visita do Papa como conseguiram AFP PHOTO / GABRIEL BOUYS
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Agentes do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e do Batalhão de Choque (BPChoq) fizeram um cerco à comunidade REUTERS/Pilar Olivares
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Papa Francisco à porta da capela São Jeronimo Emiliano. AFP PHOTO / YASUYOSHI CHIBA
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À saída, nem a polícia resisitiu a registar o momento AFP PHOTO / YASUYOSHI CHIBA

Um campo da bola que é um lamaçal, chuva sem parar, em volta barracos: é o cenário à espera do Papa Francisco, na favela de Manguinhos, Zona Norte do Rio de Janeiro. Mas com música ao vivo e animador: “Vocês estão muito quietinhos! Solta a voz!!” Mais negros que brancos, centenas de moradores soltam a voz: “Minha alma glorifica o senhor!!!” Na esquina espreita a concorrência: um templo da Assembleia de Deus, maior igreja evangélica do Brasil. O que não a impede de servir de camarote para o Papa, com gente até encavalitada nas janelas. “MAIS FORTE!!”, reclama o microfone.

Estamos muito longe do estilo carioca Zona Sul. Aqui é rio cheio de lixo, enchente na chuva, ruínas, ratos, território durante décadas abandonado pelo Estado, controlado pelo tráfico, onde as igrejas — a católica e as evangélicas — disputam o conforto dos pobres com som bem alto.

“Tá bem dividido, católicos e evangélicos”, resume Robson, “bem dividido!”, insiste Adriana: marido e mulher, ambos mulatos, 36 e 34 anos, ele “operador de navios”, ela “do lar”, católicos de irem à missa a cada domingo.

Pé na lama é o normal aqui, as crianças saltam as poças, até um senhor de muletas, velhos, velhas. Anormal é o aparato de filme: snipers em cima dos telhados, helicópteros zumbindo, 600 polícias militares para a segurança do Papa, 400 polícias militares no interior da favela, exército ao longo dos acessos, tropa de elite a toda a volta.

“Quem está feliz aí balance o guarda-chuva!!!”, pede o animador. Centenas de guarda-chuvas balançam. “Francisco eu te amo!!”, continua o animador. “Francisco eu te amo!!”, respondem os guarda-chuvas. Até que a chuva quase pára e o povo de trás consegue convencer o povo da frente a fechá-los.

Só então fica à vista o palanque, às riscas amarelas, como pano de circo ou de gelados, os padres lá em cima, de negro e vermelho. “Somos as tuas ovelhas, Francisco de Deus, tu és o nosso pastor”, canta o animador, o povo e, no meio dele, a negra Kátia, operária numa fábrica de costura, menos de 300 euros de salário, vinda de uma favela em Engenho da Rainha, nomes assim, do tempo colonial. O Brasil é tudo o que depois disso avançou, e tudo o que não avançou,

Manguinhos existe desde 1940, e os migrantes nordestinos e mineiros cruzaram-se aqui com imigrantes portugueses. Os netos de todos continuam a cruzar-se nesta periferia só recentemente atendida por uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora).

Passa das 11h30. Francisco está há mais de meia hora na favela, chegou um pouco antes do previsto, visitou a capela, entrou numa casa. O grande momento será agora, no campo da bola. E aí vem ele, a subir para o palanque, já a abençoar e a sorrir, enquanto o animador incita todos a cantar mais alto. São bem uns dois minutos de música, fechando com “Francisco eu te amo!!”, e incluindo uma bandeira do Flamengo.

Um jovem casal da favela faz o discurso de acolhimento, com o marido a falar pelos dois. Pede licença para chamar Pai Francisco ao Papa, fala-lhe nos “muitos confrontos armados” que a favela viu, e no “descaso das autoridades, como durante as enchentes”, sendo que “até hoje isso nem foi discutido com os moradores para encontrar uma solução”.

O Papa cumprimenta o casal, toma o microfone, e, tratando a plateia por “queridos irmãos e irmãs”, dá-lhe um alegre “bom dia!”, a que todos respondem “BOM DIA!” Então conta que quando começou a planear a visita ao Brasil queria “bater em cada porta, dizer bom dia, pedir um copo de água fresca, beber um cafezinho…” Delírio no campo: “ca-fé-zi-nho”, repetem as pessoas, imitando o sotaque argentino do Papa. Mas ele ainda vai concluir a frase: “… não um copo de cachaça.” Gargalhada geral.

Como não podia ir a todo o lado, vem aqui, “grato pela linda acolhida”. E prosseguindo a sedução popular: “Se alguém bate na vossa porta, vocês sempre dão um feijão, porque sempre se pode colocar mais água no feijão, não é?” Eleva a voz: “Sempre?” O campo da bola responde: “SEMPRE!!!”

Então vem a parte política: “Queria lançar um apelo a todos que possuem mais recursos, às autoridades públicas e a todas as pessoas de boa vontade comprometidas com a justiça social: não se cansem de trabalhar para um mundo mais justo e solidário. Não é a cultura do egoísmo, do individualismo aquela que constrói e conduz a um mundo mais habitável, mas sim a cultura da solidariedade.”

Não há nenhuma menção directa aos protestos no Brasil, mas há um alerta explícito: “Nenhum esforço de pacificação será duradouro, não haverá harmonia e felicidade para uma sociedade que ignora, que deixa à margem, que abandona na periferia parte de si mesma.” Sublinha: “Porque somos irmãos, ninguém é descartável.”

Último recado para os jovens que “muitas vezes se desiludem com notícias que falam de corrupção”: “não percam a confiança” porque “a realidade pode mudar, o homem pode mudar”.

A chuva voltou forte e os ambulantes circulam a vender capas. Até Copacabana, onde ao fim da tarde o Papa estará, será o caos no trânsito.

 
 

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