Reportagem

“Todo o povo chora a tragédia que estamos a viver, as vítimas e o desassossego das famílias”

Reportagem do PÚBLICO no local do acidente.

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Fontes anónimas citadas nos jornais garantem que o comboio seguia em excesso de velocidade. O maquinista, que sofreu ferimentos ligeiros, admitiu que "entrou forte" na curva, que é bastante acentuada PÚBLICO/Adriano Miranda
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No comboio Alvia, de transição entre a linha convencional e a de alta velocidade e que pode alcançar os 200 quilómetros por hora, viajavam mais de 200 passageiros PÚBLICO/Adriano Miranda
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A Renfe confirmou que o comboio circulava com um atraso de cinco minutos, mas não comentou a possibilidade de seguir em excesso de velocidade para compensar o tempo perdido PÚBLICO/Adriano Miranda
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O acidente é o terceiro mais grave da história ferroviária em Espanha e o primeiro com mortes nas linhas de alta velocidade do país PÚBLICO/Adriano Miranda
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Comboio fazia a ligação entre Madrid e Ferrol PÚBLICO/Adriano Miranda
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Carruagens ficaram destruídas PÚBLICO/Adriano Miranda
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Familiares das vítimas. Muitos estão a ser acompanhados por psicólogos da Cruz Vermelha PÚBLICO/Adriano Miranda
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Jornalistas e moradores seguem trabalhos na linha ferroviária PÚBLICO/Adriano Miranda
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Gruas retiraram carruagens do local do acidente PÚBLICO/Adriano Miranda
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O primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, natural de Santiago de Compostela, deslocou-se ao ao local do acidente, untamente com a ministra da Economia, Ana Pastor, e o presidente da Junta da Galiza, Alberto Núñez Feijóoo REUTERS/Eloy Alonso
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Nesta imagem é possível ver como uma das carruagens galgou o muro e voou até à estrada ÓSCAR CORRAL/DIARIO EL PAÍS
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Equipas de socorro continuam no local do acidente REUTERS/Miguel Vidal
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Vista aérea do local do acidente AFP PHOTO/ AEROMEDIA
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Zona é considerada de acesso difícil AFP PHOTO/ AEROMEDIA
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As vítimas foram assistidas no local REUTERS/XOAN A. SOLER/MONICA FERREIROS/LA VOZ DE GALICIA
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Passageiro ferido é acompanhado por um polícia OSCAR CORRAL/REUTERS

São dezenas, imparáveis, carregando cães, crianças de colo, ajudando-se com bengalas. O quintal de José Fernandez, 81 anos, foi o receptáculo de todos os curiosos e jornalistas que se deslocaram ao local do acidente com o comboio rápido que ligava Madrid a Ferrol e que na quarta-feira, pelas 20h45 (19h45 em Portugal), descarrilou, a uns escassos quatro quilómetros da estação de Santiago de Compostela, na Galiza. O balanço actual é de 78 mortos e 143 feridos.

Ao meio-dia, uma fonte do Tribunal Superior de Justiça da Galiza adiantava aos jornalistas que 73 das 78 vítimas morreram no local do acidente e que, destas, uma continuava ainda no local do acidente, não tendo o corpo sido retirado de lá, o que deverá acontecer em breve.

As autópsias estão a decorrer na morgue improvisada num pavilhão, em grupos de dez em dez, e no local do acidente há ainda um vagão que não foi totalmente inspeccionado. O problema é que a composição ficou tão danificada que, apesar de já ter sido parcialmente inspeccionada, não é possível descartar a possibilidade de ainda esconder alguma vítima. A dúvida só será desfeita depois de o vagão ser cortado em diferentes partes.

José Fernandez, que agora vê as alfaces e as couves destruídas pelas dezenas de pés que as calcam, em busca da melhor vista para as duas composições que voaram sobre o talude de cinco metros, ficando expostas no meio da rua, não estava em casa na altura do acidente. Agora, olha, emocionado, mas sem palavras, para a vista privilegiada sobre a tragédia. As duas composições estão ali, a poucos metros, mostrando as janelas arrancadas pelos moradores do bairro de Angrois, onde vive José, e que foram os primeiros a acudir aos feridos. Pelas janelas desfeitas vê-se sangue e na relva há cadeiras arrancadas.

O resto do comboio continua na linha, desfeito. Pelo menos um dos vagões ardeu e os outros estão tombados, mostrando as cicatrizes do drama. As informações actuais indicam que o comboio seguiria a 180 ou 190 quilómetros por hora, quando, naquela curva perigosa e tão próximo da estação, não devia seguir a mais de 70 ou 80.

Reunido de emergência com o governo da Galiza, o líder da junta galega, Alberto Nunez Feijó,anunciava, emocionado, às 10h15, sete dias de luto – serão três em toda a Espanha –, afirmando: “Todo o povo chora a tragédia que estamos a viver, as vítimas e o desassossego das famílias.” O primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, passou pelo local do acidente, sem fazer declarações, mas quando falou, pelas 12h30, disse que este era “o dia mais triste da [sua] vida”, agradecendo depois o empenho e solidariedade dos serviços de socorro e dos populares. Ainda não eram 10h quando as rádios da Galiza já afirmavam que as reservas de sangue dos hospitais estavam praticamente repostas, depois de uma doação em massa, imediatamente após o acidente.

No quintal de José, Marisol López, 56 anos, observa, por mera curiosidade, admite. “Isto é um drama imenso”, diz. Veio ver o local da tragédia, com o sossego de quem sabe que não conhece nenuma das vítimas. “Ainda pensamos que uma pessoa conhecida podia ter entrado no comboio em Ourense, para vir ver o fogo-de-artifício, mas conseguimos ligar-lhe e afinal não veio”, conta.

Fogo-de-artíficio também não houve. Hoje é feriado, Dia da Galiza, mas todos os festejos foram cancelados.