Eça de Queirós e a bendita serra de Jacinto

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Apesar de ser visitável, a casa--museu de Eça é habitada: Maria da Graça, mulher do neto do escritor, ainda lá vive e os objectos, os livros, os sofás de Paris ou o mobiliário da sala de jantar ainda são todos usados fotos: NELSON GARRIDO

A casa em Tormes é a materialização do romance A Cidade e as Serras. Nela está o espólio de um dos maiores escritores portugueses.

Tormes é um lugarejo, sede da Fundação Eça de Queirós, no Douro. Mas, na verdade, Tormes não existe. É um topónimo inventado por Eça de Queirós e materializado no seu romance A Cidade e as Serras (1901). Com o tempo, foi apropriado pelos locais. "Aqui era a Quinta de Vila Nova, na Freguesia de Santa Cruz do Douro. Tormes vem após o romance de Eça. A estação de comboios mais próxima é Aregos, que também foi rebaptizada como Tormes. Possivelmente hoje ninguém conhece Vila Nova. E a ficção tornou-se real", explica Sandra Melo, que guiou o PÚBLICO pela casa--museu do escritor, em Tormes.

Não chegamos pelos Caminhos de Jacinto - o calor não permitia a subida íngreme de três quilómetros, da estação de comboios até à fundação. Mas no romance, Jacinto e o seu amigo Zé Fernandes, vindos de Paris directamente para o Douro depois de longos dias de viagem, começam "a trepar o caminho que não se alisara nem se desbravara desde os tempos em que o trilhavam, com rudes sapatões ferrados, cortando de rio a monte, os Jacintos do século XIV".

Lá em baixo, o Douro corre solene e a paisagem sobe em socalcos de vinha e laranjal até à quinta. "Por toda a parte, a água sussurrante, a água fecundante." Zé Fernandes e Jacinto caminham durante quase uma hora. "Vagarosamente e maravilhados, chegámos aquela avenida de faias, que sempre me encantara pela sua fidalga gravidade." Jacinto, que nunca saía de Paris e se aborrecia com o campo, estava rendido. "Que beleza!", exclamava. "E ao fundo das faias, com efeito, aparecia o portão da Quinta de Tormes, com o seu brasão de armas, de secular granito, que o musgo retocava e mais envelhecia." Hoje ainda é exactamente assim.

Dandy e diplomata

Esta casa-museu de Eça de Queirós materializa, em cada pormenor, o romance A Cidade e as Serras. Ouvir a história de quando Eça aqui chegou, em 1892, para reconhecer uma herança da família da sua mulher, é visualizar Jacinto com o seu fato impecável de dandy parisiense, a sua bengala, os seus sapatos lustrosos e o toque refinado chegar a Tormes e deparar-se com uma casa do século XVI, imunda e praticamente abandonada, ocupada pelo celeiro dos caseiros.

A mulher de Eça, Emília de Castro, herda a casa e a quinta da sua mãe, condessa de Resende, que vivia no Porto e que só ia a Tormes recolher as rendas. Esta foi a única propriedade de Eça em Portugal (as casas onde vivia eram sempre alugadas). Apesar de o escritor nunca ter, de facto, vivido aqui, a casa começou a ser habitada depois da implantação da República por volta de 1916. A sua filha mais velha, Maria Eça de Queirós, cuidou do espólio do seu pai e fez as primeiras obras. As peças do núcleo museológico pertenciam ao escritor e estavam na sua última residência em Paris, antes de morrer em 1900.

No quarto de Eça, sobressai o quadro do avô paterno, juiz desembargador, figura tutelar da família e da vida do escritor - parece que estamos finalmente a ver a imagem de Afonso da Maia, avô de Carlos d"Os Maias (1888). Eça nasceu na Póvoa de Varzim em 1845. A mãe, jovem de boas famílias, engravidou ainda solteira, "refugiou-se" em Vila do Conde na casa de uma irmã para que a gravidez ocorresse em segredo. Cresceu no Minho com uma ama-de-leite pernambucana. Os pais casaram-se apenas quando Eça cumpriu cinco anos. Porém, aos olhos da lei, Eça não existia. Viveu então com o avô em Verdemilho, Aveiro. Só se mudou com os pais para Lisboa quando o pai se tornou juiz desembargador no Tribunal da Relação.

Estudou Direito em Coimbra, onde respirou o novo ambiente intelectual da Questão Coimbra, junto a Antero de Quental e Teófilo Braga (1864-65). Estreia-se como escritor em folhetins na Gazeta de Portugal, páginas de jornalismo no Distrito de Évora (1867), junta-se ao Cenáculo em Lisboa, e, mais tarde, às Conferências Democráticas do Casino Lisbonense. Entretanto, viaja para o Oriente e assiste à inauguração do Canal do Suez (1870). Escreve, em folhetins no Diário de Notícias, O Mistério da Estrada de Sintra, em colaboração com o seu amigo Ramalho Ortigão. Vive em Leiria como administrador do concelho, cidade onde mais tarde se situará o primeiro romance, O Crime do Padre Amaro (1876).

Enceta a sua carreira diplomática, primeiro em Havana, Cuba (1872), onde é responsável pela emigração de milhares de chineses coolies, via Macau, para a ilha. A escravatura tinha oficialmente terminado e era preciso mão-de-obra para as plantações de cana de açúcar. Seguem-se Newcastle e Bristol (1874-87), em Inglaterra, o período mais profícuo da sua obra: O Primo Basílio (1878), O Mandarim (1880), A Relíquia (1887), além de crónicas e cartas (publicadas postumamente) e a preparação de Os Maias, que sai quando o escritor é o cônsul português em Paris.

Nas primeiras obras, surge a figura de Fradique Mendes, um poeta imaginário cuja poesia se publicou em jornais (pela mão de Eça, Antero e Jaime Batalha Reis). Fradique é o expoente do "poeta dandy, prendado, viajado e perverso; mais tarde (1888 e em volume 1900) [Eça] atribui a Fradique Mendes uma Correspondência a condizer com certa apresentação feita por um suposto e incondicional admirador que, biográfica e psicologicamente, o encara como tipo acabado do grande senhor cosmopolita, ironicamente arguto e excêntrico, em que se acumulam todos os mais invejáveis predicados da aristocracia de sangue, de fortuna, talento e cultura", escrevem Óscar Lopes e António José Saraiva na História da Literatura Portuguesa.

Nas fotografias da sua casa, nos "grupos jantantes" das Conferências do Casino com os seus amigos da Geração de 70 (Ramalho Ortigão, Guerra Junqueiro), os "Vencidos da Vida", não há "um vinco fora do sítio, um sapato que não brilhasse", diz Sandra Melo. Na saleta, o último pormenor do chique: chapeleiras de viagem para transportar cartolas e chapéus para nunca se amarrotarem. É o "chique a valer" de Dâmaso Salcede, de Os Maias, materializado enfim nos objectos de Eça.

É esta figura (Fradique, Jacinto ou Eça) com um "gosto visionário de grandes sínteses da história humana pitorescamente condensada em personagens ou episódios simbólicos, animadas por sábias e oportunas minúcias (que serão sempre um dos seus segredos de cronista da vida nacional e internacional)" que vai de alguma maneira dominar a "complexidade humoral completamente inédita no nosso lirismo romântico" (Lopes e Saraiva).

Amigo do rei

Tal como Pessoa, Hemingway ou Camilo Castelo Branco, Eça escrevia de pé. A secretária, em Tormes, foi feita à sua medida. Sobre a mesa: um tinteiro, canetas de aparo, o pisa-papéis; o diploma de Direito e a vassourinha para limpar os livros. "Eça escreve a grande velocidade. Não tem um caderno, mas folhas soltas", explica Sandra Melo. "As folhas avolumam-se em cima da secretária. Por vezes caem. E é a filha, dona Maria, quem tem liberdade para entrar no escritório do pai e organizar os seus papéis."

Ao lado do fato do mandarim (oferta do conde de Arnoso, secretário do rei Dom Carlos que vai à China e traz esta seda ao amigo, Eça), há um móvel onde Eça organizava os seus papéis: "Sempre que saía de casa, levava folhas soltas e lápis. Fazia muitas notas. Depois, organizava as notas por temas onde vinha buscar a informação", explica Sandra Melo. Há muitos retratos do rei Dom Carlos (e pinturas) oferecidos ao escritor (que o rei admirava) e ao diplomata, pelo sucesso das suas missões. O armário vitrine acolhe os objectos pessoais do escritor: o emblemático monóculo, um relógio de bolso, as alianças de casamento, uma medalha Legião de Honra Francesa e gargantilha em forma de serpente.

A Fundação Eça de Queirós existe desde 1988, apesar de ser de 1970 a vontade de Maria da Graça Salema de Castro, mulher do neto do escritor, iniciar o processo de doação dos bens para a fundação. Embora seja visitável, a casa-museu de Eça é uma casa habitada: Maria da Graça ainda lá vive. Os objectos, os livros, os sofás verdes que vieram de Paris ou o mobiliário da sala de jantar que era de Eça ainda são todos usados.

Além de uma biblioteca de mais de quatro mil livros que pertenceram a Eça e à família, bem como exemplares de Queirosiana actual, estão também disponíveis manuscritos digitalizados (os originais estão na Biblioteca Nacional). A fundação organiza todos os anos uma Universidade de Verão e recebe alunos de todo o mundo - de 15 a 19 de Julho estiveram em Tormes brasileiros, filipinos, chineses ou italianos a ler a obra do escritor.

Têm muitos visitantes no Verão: "E aparecem muitíssimos brasileiros, porque Eça é ainda um dos escritores portugueses mais lidos no Brasil." Claro que um escritor tão popular como Eça deveria atrair uma legião de "fanáticos" em busca de episódios da vida, da obra, das personagens e dos sítios que frequentou. Sandra Melo confirma, até pela quantidade de publicações: como a do ex-embaixador do Brasil em Portugal Dário Moreira de Castro Alves, que organizou dicionários gastronómicos queirosianos, de comidas e vinhos, zurrapas e afins.

Estar em Tormes é deparar-se com esse encontro entre a vida real e a ficção. As únicas peças de mobiliário que o escritor encontrou quando chegou pela primeira vez à casa em 1892 ainda cá estão. Um arcaz de sacristia, onde se guardavam os pagamentos do padre (também há uma capela do século XVI); e a cadeira de Jacinto. "A sua cadeira, grave e abacial, de couro, com brasões, datava do século XVI", escreve Eça no conto Civilização (1892), ponto de partida para A Cidade e as Serras (publicado postumamente em 1901, edição revista por Ramalho Ortigão e Luís de Magalhães).

E, finalmente, a mesa do arroz de favas. Quando Eça recebe a notícia da herança da mulher, escreve aos caseiros a avisar que vem e a pedir preparativos. Mas, tal como a de Jacinto, carta perde-se. Ninguém sabe da vinda do novo proprietário e nada está preparado. Quando o escritor chega, os caseiros oferecem-lhe o que têm: caldo de galinha com miúdos, frango alourado e arroz de favas. Essa é a ementa queirosiana, ou de Jacinto, que se serve em quase todos os restaurantes da zona. "[Jacinto] desconfiado, provou o caldo, que era de galinha, e rescendia. Provou - e levantou para mim, seu camarada de misérias, uns olhos que brilharam surpreendidos." Depois, sobre a mesa surgiu a travessa com arroz de favas. "Que desconsolo! Jacinto, em Paris, sempre abominara as favas!... Tentou todavia uma garfada tímida. (...) Outra larga garfada, concentrada, com uma lentidão de frade que se regala." E veio ainda o frango: "Diante do louro frango assado no espeto e da salada que ele apetecera na horta, agora temperada com azeite da serra digno dos lábios de Platão, terminou por bradar. "É divino!""

Todo este repasto foi, claro, bem regado com vinho de Tormes que ainda hoje se produz e se vende na fundação. É um "verde de transição", da sub-região de Baião, "menos ácido, mais frutado, no limite da região demarcada de vinho verde", explica Sandra Melo. "O que sabemos fazer bem é a promoção de vida e obra de Eça de Queirós. Por isso cedemos a exploração da área agrícola a quem percebe de vinhos. Começou a sair este ano para o mercado com o selo Casa das Hortas, novo rótulo e nova garrafa." E no rótulo palavras de Eça: "Caindo do alto, da bojuda infusa verde - um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo."

Da varanda podemos perceber as "grandes poltronas, grandes divãs de verga" que Jacinto ali imaginou para poder contemplar a "serra tão acolhedora, serra de fartura e de paz, serra bendita entre as serras". E como se a vida real e a ficção se pudessem cruzar uma vez mais, também ouvimos o "toque sonolento do sino". Era meio-dia: "Daquela janela, aberta sobre as serras, entrevia uma outra vida, que não anda somente cheia do homem e do tumulto da sua obra. E senti o meu amigo suspirar como quem enfim descansa."