Papa Francisco e Dilma Rousseff em sintonia contra as desigualdades no mundo

O Papa foi acolhido por um banho de multidão que celebrou a sua primeira visita ao estrangeiro. Nas ruas, houve protestos como uma reacção à pobreza e à exclusão que ele próprio quer combater. Balanço: quatro feridos.

O Papa Francisco privilegia o contacto próximo com as pessoas e não quer que a sua visita seja "militarizada"
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O Papa Francisco privilegia o contacto próximo com as pessoas e não quer que a sua visita seja "militarizada" ARI VERSIANI/AFP

Na visita ao Brasil, o Papa Francisco queria deslocar-se num papamóvel simples, e não blindado, e ter o maior contacto directo possível com as pessoas nas ruas. Para isso andou de janela aberta pela Avenida Presidente Vargas, onde acenou à multidão e beijou crianças, descreve a imprensa brasileira. Mas não durou muito tempo. Muita gente também desceu à rua para protestar. Contra os custos desta visita, mas sobretudo com a situação social.

As manifestações mais violentas, em que quatro pessoas ficaram feridas, e que foram depois dispersadas pela polícia com gás lacrimogéneo, só começaram quando o Papa já seguia para o Palácio Apostólico de Sumaré, no alto do Rio de Janeiro, onde fica alojado durante toda a semana e onde descansa, nesta terça-feira, antes da missa de abertura das 28.ª Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ).

Na recepção oficial no Palácio da Guanabara, Jorge Bergoglio, da Argentina, disse ter sido desejo da sua providência que a primeira viagem fora de Itália fosse à América Latina. E na América Latina escolheu o maior país e aquele onde 60% da população é católica, mas onde a fé católica perde força. “Aprendi que para ter acesso ao povo brasileiro é preciso entrar pela porta do seu imenso coração. Permitam-me pois que bata suavemente a essa porta. Peço licença para entrar e passar esta semana convosco”, disse o Papa. “Não trago ouro nem prata, mas algo mais valioso: Jesus Cristo.”

No primeiro dia, segunda-feira, mostrou simpatia pelos manifestantes que voltaram à rua para expressar descontentamento face às políticas do Governo e aos gastos que consideram excessivos com esta visita que o Papa preferia que não fosse “militarizada”, segundo disse, através do seu porta-voz Federico Lombardi. Até domingo, o Papa preside às Jornadas Mundiais da Juventude, nas quais são esperados 1,5 milhões de peregrinos.

Nesta terça-feira o Papa descansa, antes da missa de abertura que será celebrada em Copacabana pelo arcebispo do Rio, D. Orani João Tempesta. Na quarta-feira, visita o Santuário da Nossa Senhora da Aparecida, no interior do estado de São Paulo. Foi lá que o Exército neutralizou um “pequeno engenho explosivo artesanal” de “potência muito fraca”, minimizando a gravidade do incidente.

Francisco aproveitará a semana para falar do que pretende como Papa, escreve o jornal de São Paulo Estadão. E para alertar os políticos para questões que lhe são caras, como o risco do aumento das desigualdades e da pobreza. Estão também previstos encontros com cardeais para debater a situação latino-americana.

Dilma propôs aliança
Dilma mostrou-se em sintonia e com vontade de trabalhar com o chefe da Igreja. Na recepção ao Papa, a Presidente brasileira, que perdeu alguma popularidade no auge dos protestos de há umas semanas, considerou que a resolução da actual crise não deve limitar-se a medidas de austeridade e que os problemas sociais, por ela criados, não podem ser esquecidos.

Dilma propôs uma aliança para combater as desigualdades e a pobreza. E considerou que o apoio da Igreja “pode transformar iniciativas ainda pontuais em iniciativas globais, em iniciativas efectivas para garantir a segurança e combater a pobreza e a fome no mundo”, disse citada pelo Folha de São Paulo.

Numa alusão aos recentes protestos, o Papa considerou que a visita se realiza, por isso mesmo, num “momento oportuno” e mostrou compreensão pelas razões do descontentamento, resumem os jornais brasileiros. Entre os motivos para as manifestações, estão também os gastos (pelo menos 40 milhões de euros, segundo a AFP) com esta visita papal considerados excessivos num país onde “muito está por fazer”, como disse Dilma Rousseff na recepção.  

O Papa mostrou que privilegia um “diálogo de amigos” e deixou-se acolher no Brasil, acolhendo ele próprio os brasileiros. “Nesta hora”, disse, “os braços do Papa se alargam para abraçar a nação inteira brasileira, na sua complexa riqueza humana, cultural e religiosa”. E deixou uma palavra especial para os brasileiros, em português e com ligeiro sotaque, e fugindo ao protocolo, quando disse a brincar: "Cristo bota fé nos jovens. Também os jovens botam fé em Cristo."
 
 

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