Petição defende classificação da Livraria Sá da Costa como de "interesse público"

Depois do anúncio do encerramento, signatários querem evitar que se perca o seu património cultural.

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Livraria comemora este ano o seu centenário José Sarmento Matos

Um grupo de cidadãos lançou uma petição online a defender a classificação pela Câmara de Lisboa da Livraria Sá da Costa, há 70 anos no Chiado, como de “interesse público".

“A Livraria Sá da Costa é parte insubstituível da alma do Chiado, da alma da cidade de Lisboa. É isto o que pretendemos preservar”, atestam os subscritores.

Este pedido visa “impedir uma mudança de ramo, com objectivos puramente comerciais e, porventura daí decorrente, a defesa dos seus valores arquitectónicos, de interior e de fachada, com as suas notáveis reminiscências Art Déco”, lê-se no texto da petição.

Esclarecem os peticionários que este “apelo não envolve, frise-se, o funcionamento regular da livraria, que esse se mantém apesar das circunstâncias adversas”, mas antes uma “legítima preocupação pelo fecho da casa e a sua inexorável destruição espiritual e material”.

Os peticionários consideram que é “dever da Câmara [de Lisboa] defender a todo o transe o seu património cultural que, lembre-se, é colectivo e histórico”.

A petição exige a intervenção da autarquia para evitar o “desastre anunciado”, com o encerramento da livraria, por decisão judicial.

A Sá da Costa existe desde 1913, ligada à editora com o mesmo nome, responsável pela publicação de textos clássicos da Literatura Portuguesa e Ocidental, de autores como Camões, Sá de Miranda, António Verney, João de Barros, Diogo Couto, Padre António Vieira, Cavaleiro de Oliveira, D. Francisco Manuel de Melo, Almeida Garrett, Homero e Virgílio, ou de autores do século XX como António Sérgio, Vitorino Magalhães Godinho, Orlando Ribeiro e Hernâni Cidade.

A Câmara deve intervir, argumentam os subscritores, “independentemente do que esteja consignado no PDM [Plano Director Municipal] quanto às ‘lojas históricas’”, que receiam “não passe de um conjunto burocrático de boas intenções”.

A Sá da Costa foi declarada insolvente pelo Tribunal de Comércio de Lisboa. De acordo com fonte daquele órgão judicial, a assembleia de credores, realizada na segunda-feira da semana passada, não aprovou o plano de viabilização da empresa, que tinha sido apresentado a 2 de Julho, pelo que foi decretada a liquidação total.

Esta liquidação concretizar-se-á com a venda de todo o património da Sá da Costa, para pagamento aos credores, e com a extinção da empresa.

Em declarações à Lusa, na segunda-feira passada, Susana Pires, funcionária da livraria, disse que a questão da Sá da Costa será levada à reunião da Câmara, nesta quarta-feira. Entre as pessoas que expressaram a sua solidariedade, contam-se a vereadora Helena Roseta e a actriz Maria do Céu Guerra.

Susana Pires afirmou que “a luta já nem está pelos postos de trabalho, mas pela defesa do património edificado e do interior da livraria, que foi um dos primeiros estabelecimentos, em Lisboa, decorados segundo o modelo Art Déco”.

No sábado, foi conhecido um manifesto assinado pelos cinco trabalhadores da Sá da Costa, publicado pela Letra Livre, no qual apontam o dedo aos negócios imobiliários e ao “absoluto vazio gerado pela ditadura financeira”.