"O negócio da infidelidade é à prova de recessão e cresce neste contexto"

Noel Biderman lançou em Portugal um site de encontros entre pessoas comprometidas com mais de 20 milhões de utilizadores. O mote: "a vida é curta, curta um caso".

O canadiano Noel Biderman, de 41 anos, criou o Ashley Madison em 2002, um site que põe em contacto pessoas à procura de uma relação extraconjugal. Está em 29 países, tem mais de 20 milhões de "membros anónimos" e, sem peso na consciência, lançou no passado fim-de-semana a versão para o mercado português. Promover a infidelidade, que lhe permitiu facturar perto de 100 milhões de dólares (75,7 milhões de euros) em 2012, ajuda a manter o casamento, argumenta.

O seu site de encontros está em 28 países e chegou a Portugal. Porquê?
Estamos em Portugal pelas mesmas razões que nos levam a estar nos outros 28 países. Homens e mulheres têm relações extraconjugais em Portugal, da mesma forma que no Canadá, Estados Unidos ou Brasil. Chegou a altura de ter uma operação aqui.

Há procura em Portugal?
O que vemos em Portugal é que há um apetite, um desejo de aceder a esta comunidade. Tivemos milhares de tentativas de pessoas a tentarem registar-se nos últimos meses.

Quantos membros já têm?
Teremos provavelmente pouco menos de 100 utilizadores registados mas não temos dúvida de que nos próximos meses teremos centenas de milhares de pessoas a aderirem.

A crise é boa para o negócio?
O negócio da infidelidade não só é à prova de recessão como cresce neste contexto. Muitos casos de traição acontecem por motivos económicos. As pessoas tendem a preocupar-se com o pagamento do empréstimo da casa, a educação dos filhos e é quando perdem o emprego que mais precisam do apoio da mulher ou do marido. Em muitos casos, isso não sucede e, por isso, procuram conforto de outras formas.

Refere-se à infidelidade como um negócio. Quanto é que vale?
É um negócio global de milhões de milhões de dólares. A Ashley Madison ou as casas de strip tiram partido desse negócio de forma directa, mas se olharmos para, por exemplo, este hotel Four Seasons onde nos encontramos, garanto que uma boa parte das receitas é conseguida com hóspedes que são infiéis e alugam um quarto de hotel. O mesmo vale para joalharias ou restaurantes.

Não se sente mal em promover a traição?
Não, e há várias explicações. Primeiro, não se pode convencer alguém a ter um caso fora do casamento. Podia implorar para que usasse a Ashley Madison, mas se não quisesse não usaria. Segundo, usar o local de trabalho para ter um caso extraconjugal é um pouco imprudente e quem o faz arrisca-se a perder o emprego. Além disso, há dois tipos de infidelidade: a que é detectada, com todas as consequências (como a de Bill Clinton ou Tiger Woods), e a escondida, a realidade para a larga maioria dos homens e mulheres que usam os meus serviços. Nunca serão descobertos e isso vai permitir-lhes manter o casamento.

Qual é o perfil dos membros?
Temos duas tendências. Percebemos que os homens têm o seu primeiro caso quando as mulheres engravidam do primeiro filho. Não se ajustam bem às mudanças e, por isso, há muitos homens na casa dos 30 a usar o serviço. Depois, e este tem maior representatividade, são os homens na casa dos 40 e 50 anos. Estão há muitos anos casados, os filhos estão na escola ou já fora de casa e sentem que, nesta fase da vida, têm direito a fazer algo por si próprios.
Nas mulheres é mais complicado. Não é tanto a idade. É sentirem-se negligenciadas numa relação onde antes recebiam flores e o marido lhes dizia que eram bonitas. Procuram alguma coisa fora quando sentem que já não há paixão no casamento.

No geral, têm mais homens do que mulheres?
Estamos em 29 países e nunca como agora tivemos tanta adesão de mulheres. No início, recebemos um email de um senhor que se queixava que as mulheres não conseguiam encontrar o seu perfil. Tinha 72 anos e, na altura, só permitíamos pesquisa até aos 65 anos. Nunca tinha pensado na geração Viagra.

Depois de Portugal, para onde se vão expandir?
Para a semana, estarei na Holanda. A infidelidade acontece em todos os países. Não é como um negócio que junta pessoas solteiras (não é o mesmo em Portugal ou na Índia, onde há casamentos arranjados). A infidelidade é universal. Ashley Madison é a terceira maior empresa desta área no mundo e tem a hipótese de ser a maior.

Quem procura um caso extraconjugal escolhe algum dia específico da semana?
Sim. Não o procura depois de ver um anúncio na televisão.

Anunciam na TV?
A intenção é mostrar a nossa credibilidade, o investimento que fazemos e divulgar o serviço. Porque numa manhã de segunda-feira alguém pode acordar e pensar: "Não vou ter mais um fim-de-semana destes, nem mais um domingo cheio de discussões. Quero ter paixão, afecto". As segundas-feiras são o dia em que temos mais acessos. Tal como nos dias seguintes ao Dia do Pai, Dia da Mãe, Dia de S. Valentim.

As pessoas estão infelizes com a vida que têm?
Sim. Pode surpreender à primeira vista, mas estes dias são de auto-reflexão. É suposto estar feliz nestes dias. Recorrer ao site não é como ter um anel de diamantes. É conseguir o afecto que não se tem. Aos 39 anos, perto da crise de meia-idade, tendemos a questionar a carreira, a relação, e é por isso que com estas idades há quase tantos homens como mulheres registados.

Já era casado quando criou a empresa?
Estava noivo e o meu casamento quase foi cancelado. Mas não criei este negócio por estar com dúvidas quanto ao casamento. Representei atletas profissionais e metade do meu tempo era dedicado a conseguir-lhes bons contratos, e a outra metade era gasta a resolver problemas pessoais. Mas, na verdade, foi depois de ler um artigo de um jornalista sobre a bolha da Internet em 2001.

Gosta de ser chamado o rei da infidelidade?
De início, não. Mas hoje uso esse "título" como uma distinção. Sabemos muito pouco sobre a infidelidade e, se eu sou uma das poucas vozes por aí a tentar mostrar o quão comum é, penso que isso é útil para a sociedade.

Texto corrigido às 11h35: referência a Bill Gates substituída por Bill Clinton