Ferro Rodrigues estranha moção de confiança anunciada pelo Presidente da República

O actual deputado do PS elogiou a actuação de António José Seguro ao longo dos seis dias de negociações com o PSD e CDS.

Ferro Rodrigues quer plataforma alargada que defenda a reestruturação da dívida pública
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Ferro Rodrigues quer plataforma alargada que defenda a reestruturação da dívida pública Enric Vives-Rubio

O ex-secretário-geral do PS Ferro Rodrigues afirmou esta segunda-feira que Portugal terá agora um governo PSD-CDS de "semi-iniciativa presidencial", considerando inusitado que seja o Presidente da República a anunciar a apresentação de uma moção de confiança no Parlamento.

"Já temos em Portugal uma Constituição semipresidencial e agora também teremos um governo de semi-iniciativa presidencial", declarou Ferro Rodrigues à agência Lusa, na sequência da comunicação ao país feita domingo pelo chefe de Estado, Cavaco Silva, em que decidiu manter em funções o executivo liderado por Pedro Passos Coelho.

Para o actual deputado do PS e vice-presidente da Assembleia da República, foi "inusitado ouvir" Cavaco Silva "a anunciar que será em breve apresentada uma moção de confiança ao Governo no Parlamento".

"Por isso digo que estamos perante um governo de semi-iniciativa presidencial, ou um governo de iniciativa presidencial possível. Tal como afirmara no passado dia 11, o discurso [de domingo] do Presidente confirmou que ele acabaria por recuar, dando posse a um governo PS-CDS, mas em condições de maior enfraquecimento político", sustentou o ex-ministro dos governos de António Guterres.

Na perspectiva de Ferro Rodrigues, ao fim das últimas semanas de crise política, "Portugal está pior, o sistema partidário está mais fraco e a democracia atravessa uma crise ainda maior".

Sobre os pilares da proposta de acordo de salvação nacional feita pelo Presidente da República ao PSD, PS e CDS Ferro Rodrigues disse que considerou imediatamente "incompreensível e inaceitável que se lançasse a hipótese de antecipação das eleições legislativas de 2015 para 2014" e em troca o PS subscrevesse as políticas de austeridade que têm conduzido o país ao desastre".

"Penso que o secretário-geral do PS, António José Seguro, fez bem no sentido de ter assumido que o papel do PS é bater-se pelos seus pontos de vista contra a calamidade da actual política recessiva e combater as novas inconstitucionalidades que se avizinham. Seguro fez bem em não ter cedido", defendeu.

Questionado se sente que está entre os visados pelas críticas dirigidas aos sectores que pressionaram Seguro a não se envolver no diálogo com o PSD e CDS, Ferro Rodrigues alegou que falou à agência Lusa contra a iniciativa do Presidente da República no mesmo dia em que também transmitiu a sua posição perante o Grupo Parlamentar do PS.

"Voltei a falar no assunto uns dias mais tarde, numa reunião da bancada [socialista] já com a presença do secretário--geral do PS, em que lhe disse que compreendia que entrasse nas negociações, mas que entendia que o PS teria de possuir posições muito claras. A partir daí, apesar de solicitado por diversos órgãos de comunicação social, não fiz mais nenhuma intervenção", afirmou.

No entanto, Ferro Rodrigues disse também compreender quem manifestou apreensão face à possibilidade de o PS se entender com o PSD e o CDS, destacando o caso do ex-Presidente da República Mário Soares.

"A relação de Mário Soares com o PS é única e a intervenção dele exprimiu temor face à forma como poderiam terminar as negociações. Muitas das personalidades que falaram nesse sentido falaram com a legitimidade histórica que têm", sustentou.

Ferro Rodrigues elogiou depois a actuação de António José Seguro ao longo dos seis dias de negociações com o PSD e CDS.

"Enquanto acreditou que era possível inverter em 180 graus as políticas do Governo PSD-CDS, o secretário-geral do PS acreditou num acordo. Quando viu que isso era impossível, saiu das negociações. Um entendimento amplo entre partidos, que eu defendo e que considero desejável, só poderá resultar de novas eleições, que gerem uma mudança política. Com a actual política não é possível nenhum entendimento", acrescentou.