Visita ao mundo desconhecido da rede de esgotos de Lisboa

A mais demorada paragem foi na ETAR de Alcântara, "universalmente famosa por cheirar mal"Lisboa , 20 de Julho de 2013 .ETAR: simula-se o que acontece na natureza "a grande velocidade"Lisboa , 20 de Julho de 2013 .
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A mais demorada paragem foi na ETAR de Alcântara, "universalmente famosa por cheirar mal"Lisboa , 20 de Julho de 2013 .ETAR: simula-se o que acontece na natureza "a grande velocidade"Lisboa , 20 de Julho de 2013 . FOTOS ENRIC VIVES RUBIO

Do Terreiro do Paço a Alcântara, a SIMTEJO deu a conhecer alguns dos principais pontos do sistema de recolha e tratamento de águas residuais, numa iniciativa integrada no programa Ciência Viva

Os muitos turistas que por ali passam costumam ter os olhos postos na estátua equestre de D. José I, mas na manhã de sábado era no subsolo do Terreiro do Paço, em Lisboa, que se concentravam as atenções de cerca de 25 pessoas. Debruçado em redor de um alçapão, o grupo olhava com curiosidade o dispositivo que impede que sejam despejados no Tejo os esgotos de mais de cem mil pessoas, como acontecia até 2011.

Foi assim que começou a "visita aos esgotos de Lisboa" promovida pela SIMTEJO, empresa que se dedica à recolha, tratamento e rejeição de águas residuais dos municípios de Amadora, Lisboa, Loures, Mafra, Odivelas e Vila Franca de Xira. O passeio, que como se imagina não primou pelo bom cheiro, durou quatro horas debaixo de um sol intenso, mas nem isso fez esmorecer o entusiasmo dos participantes.

"É um prazer ver que ao sábado de manhã há muita gente disposta a olhar para o esgoto", começou por dizer o director da exploração da SIMTEJO, José Martins, conquistando de imediato a simpatia do grupo, que incluía casais, famílias com adolescentes, homens de várias idades e uma senhora de 74 anos, a quem não faltava genica ou assunto de conversa. "O objectivo é que a gente saia daqui contente e esclarecida", rematou o dirigente da empresa, que ontem vestiu a pele de guia.

A primeira paragem, aos pés da recentemente restaurada estátua de D. José I, serviu para ver aquilo que muitos nem imaginarão existir por debaixo do chão de pedra: um dispositivo que funciona como barreira, recebendo as águas residuais oriundas de três colectores existentes na Baixa e encaminhando-as para tratamento. José Martins destacou a complexidade deste sistema, que foi feito de forma a impedir a entrada de água do Tejo, permitindo em simultâneo a realização de descargas no rio em dias de chuva, para impedir inundações.

A viagem seguiu até à Ribeira das Naus, em cujo subsolo se esconde uma das estações elevatórias que bombeiam os esgotos até à Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) de Alcântara. À superfície não se nota qualquer odor indesejado, mas depois de descer as escadas que levam ao interior do equipamento, onde é também feita a separação dos lixos que muitas vezes acompanham as águas residuais, a conversa é outra.

Nada que tenha incomodado Manuel Abrantes, um estudante de 20 anos que viu este passeio como uma boa forma de se ocupar durante as férias, cultivando ao mesmo tempo o seu gosto pela ciência. "Estou a gostar muito. Não sabia da existência daquelas estruturas. Estão bem escondidas", comentou, sem largar a máquina fotográfica à qual foi dando uso durante todo o percurso.

Ao longo de quatro horas, houve também tempo para descer ao Caneiro de Alcântara, uma antiga ribeira que foi encanada nos anos 1940 e que transporta águas residuais desde a Amadora. A última e mais demorada paragem foi na ETAR de Alcântara, na Avenida de Ceuta, que como graceja o director de exploração da SIMTEJO "era universalmente famosa por cheirar mal".

Uma realidade que mudou em 2009, quando a estação passou a funcionar com tratamento biológico (feito por bactérias que "comem a poluição", como explica José Martins) seguido de desinfecção através de radiação ultravioleta, sistema que veio substituir o tratamento primário (de remoção de sólidos e matéria orgânica por mecanismos físicos) seguido de desinfecção com cloro.

"Na ETAR simulamos o que acontece na natureza, mas a grande velocidade", concluiu o guia. A visita terminou com o grupo de olhos postos num recipiente, que José Martins encheu de água tratada da ETAR. Muitos não se contentaram em vê-la e quiseram também cheirá-la, como se assim pudessem comprovar a qualidade do processo a cujos vários passos tinham acabado de assistir.

A visita encantou a septuagenária Maria Morais, que gosta de "tudo o que seja conhecimento, especialmente ligado à engenharia". "Só casa e trabalho acho que é pouco para qualquer pessoa", afirma a antiga escriturária, a quem não faltam planos para ocupar o tempo: depois da visita de ontem aos esgotos de Lisboa, hoje é dia de caminhada na Costa de Caparica.