O caso que começou tudo e as acusações que se seguiram

As imagens que ficaram do julgamento foram as de um homem velho, doente, numa cadeira de rodas: John Demjanjuk, antigo guarda do campo de extermínio de Sobibor, na Polónia ocupada, 89 anos em 2009, na sala do Tribunal de Munique.

Não se sabe se Demjanjuk ouviu as testemunhas, as palavras que ficaram do julgamento. Depoimentos como o de Rudolf Solomon Cortissos, de 70 anos, holandês, descendente de judeus sefarditas portugueses: tudo o que tem da mãe é uma carta atirada do comboio, ainda hoje não consegue olhar para um forno a gás ou para um chuveiro sem se lembrar do Holocausto, e até o dentista é penoso, trazendo imagens dos dentes de ouro que foram retirados aos judeus pelos nazis.

O julgamento de Demjanjuk foi centrado não tanto em Demjanjuk como num tempo de que se está a perder memória, porque os seus protagonistas, quer vítimas, quer carrascos, estão a desaparecer.

O caso particular não era simples, tinha voltas e reviravoltas. Demjanjuk nasceu na Ucrânia, foi soldado do Exército Vermelho e depois capturado pelos nazis, que o terão obrigado a trabalhar num campo de prisioneiros.

Trabalhou para os aliados antes de ir viver para os Estados Unidos, no Ohio, onde foi, durante 25 anos, empregado no sector automóvel.

Foi acusado por Israel e extraditado, foi julgado e condenado por crimes no campo de Treblinka (também na Polónia). Após sete anos de prisão, as autoridades israelitas aperceberam-se de que Demjanjuk não era o guarda que tinha cometido os crimes em Treblinka, e libertaram-no.

Demjanjuk ainda viveu nos EUA mais 15 anos, até novas provas levarem as autoridades americanas a retirar-lhe a cidadania e, depois, a extraditá-lo para a Alemanha. Foi condenado em 2011 em Munique, na primeira vez que houve uma condenação por cumplicidade em crimes nazis de alguém sobre quem não há provas de que tenha cometido, ele próprio, um crime. Demjanjuk recorreu e morreu, no ano seguinte, aguardando a decisão do recurso.

Aberto o precedente, as autoridades alemãs anunciaram investigações e passado dois anos era formalmente acusado Hans Lipschis, de 93 anos, acusado de trabalhar em Auschwitz-Birkenau de 1941 a 1945. Nascido na Lituânia em 1919, ganhou estatuto de alemão a partir de 1943, é acusado de ser autor e cúmplice de mortes e tortura.

Lipschis nega tudo, dizendo que era cozinheiro no campo e que nunca viu qualquer crime, apesar de ter "ouvido falar". Em 1956, foi para Chicago, onde viveu 26 anos, até os EUA o deportarem por considerarem que tinha mentido sobre o seu passado nazi. Na Alemanha, Lipschis fixou-se em Baden-Würtemberg, onde viveu 30 anos sem ser importunado pelas autoridades.

No entanto, ainda não há sinais dos outros cerca de 50 guardas de Auschwitz que as autoridades anunciaram que iriam acusar. Foi marcado sim, para Setembro, o julgamento de um antigo oficial das Waffen-SS. Siert Bruins, de 92 anos, tinha já cumprido pena pelo assassínio de dois irmãos, judeus holandeses (dias antes da chegada das forças aliadas), e é agora acusado por um terceiro crime, o assassínio de um combatente da resistência holandês.