A preservação da unidade da Bélgica nas mãos de Philippe I

Alberto II, que passa hoje o reinado ao seu filho, acabou por ser árbitro importante das crises políticas.

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Philippe com a mulher Mathilde: casamento foi importante para a imagem do novo rei JOHN THYS/AFP

Num país que encara a monarquia com misto de indiferença e simpatia, Philippe não foi, como o pai, educado para ser rei. Albert II acabou por ser árbitro importante das crises políticas.

Os festejos já estavam há muito programados para associar o dia da Bélgica, celebrado hoje, às comemorações dos 20 anos do reinado do sexto rei dos belgas, Albert II.

O programa mantém-se praticamente inalterado, só que o que os belgas vão festejar hoje será, afinal, a subida ao trono do seu sétimo rei, Phillipe I, de 53 anos, em favor de quem o seu pai anunciou no início de Julho que abdicaria.

Sóbria, a passagem do testemunho será feita com a assinatura formal da abdicação por parte de Albert seguida do juramento formal de fidelidade à Constituição por parte do seu sucessor perante as duas câmaras do Parlamento federal, reunidas em sessão solene e conjunta. Ao contrário de outras monarquias europeias, na Bélgica não há nem uma subida formal ao trono, nem uma coroação propriamente dita. Pela simples razão de que não existe um trono, nem uma coroa, nem qualquer cerimónia religiosa de entronização do rei.

Philippe, acompanhado da sua mulher, a nova rainha Mathilde, assistirá depois aos desfiles militares em frente do palácio real de Bruxelas habituais de todos os 21 de Julho, passeará entre a multidão que se terá deslocado para assistir às cerimónias - são esperadas 400 mil pessoas num dia que se prevê quente e abafado - e, à noite, ao fogo-de-artifício que marca o fim dos festejos. E será tudo, num país que encara a monarquia com um misto de indiferença e simpatia, consoante se vive na Flandres, de língua neerlandesa, ou na Valónia e Bruxelas, as outras duas regiões, de maioria francófona.

Mesmo se os rumores de uma abdicação se fizeram frequentes no último ano, o anúncio, feito a 3 de Julho por Albert em directo na televisão, apanhou de surpresa um país profundamente dividido e em que, precisamente, o rei, com a cerveja e a equipa nacional de futebol são os poucos traços de união que restam entre flamengos e francófonos.

A idade avançada - 79 anos - associada a problemas de saúde, que motivaram várias operações cirúrgicas nos últimos anos, foram os argumentos invocados pelo rei.

A responsabilidade pela preservação da monarquia, cada vez mais associada à preservação da própria unidade da Bélgica, passará a ser carregada por Philippe, que exercerá o cargo num período de alto risco.

Como o próprio Albert reconheceu no discurso de 3 de Julho, a monarquia belga vai passar nos próximos anos por uma profunda transformação que acompanhará a sexta reforma do Estado em preparação para reforçar ainda mais a autonomia das três regiões. Se depender dos separatistas flamengos, cada vez mais numerosos, que defendem o desmantelamento progressivo da Bélgica para permitir a independência da Flandres, o rei será desprovido de todos os seus actuais poderes, exceptuando os meramente protocolares.

A grande questão que domina todos os debates é saber se Philippe saberá estar à altura do cargo e do que o espera. A dúvida tem a ver com o carácter do príncipe herdeiro, marcado por uma timidez de tal forma doentia que suscitou mais do que uma vez ao longo do tempo sérias questões sobre a sua sanidade mental. E é particularmente acentuada na Flandres: segundo uma sondagem realizada na última semana por duas estações de televisão, menos de metade dos flamengos acredita que Philippe será um bom rei, contra dois terços na Valónia.

Philppe "está bem preparado para me suceder", garantiu Albert. Paradoxalmente e de forma involuntária, o próprio Albert contribuiu, há 20 anos, para alimentar os rumores sobre a falta de capacidade do seu filho mais velho quando decidiu, contra todas as expectativas, suceder ao seu irmão Baudouin. Casado mas sem filhos, Baudouin concentrou-se toda a vida na educação do sobrinho Philippe, acompanhando e orientando directamente os seus estudos e preparando-o para lhe suceder. De tal forma que com a morte de Baudouin, o país esperava que Philippe, então com 33 anos, lhe sucedesse.

Segundo conta o primeiro-ministro de então, Jean-Luc Dehane, nas suas memórias recentemente publicadas, Albert, a quem, segundo a Constituição belga, cabia em exclusivo a decisão de assumir ou não a função, anunciou-lhe de imediato que cumpriria o seu "dever". Uma decisão que, frisa Dehaene, correspondia igualmente à expectativa do Governo e que constituiu, assim, um alívio. Philippe, na altura solteiro, ainda não estava pronto para subir ao trono, terá justificado então Albert.

Por razões diferentes, o tipo de dúvida que hoje pesa sobre Philippe, já se tinha manifestado há 20 anos relativamente ao seu pai, que não nasceu nem foi educado para ser rei. Na altura, a expectativa do país era que Baudouin reinasse até à velhice, o que retiraria sentido a uma eventual subida ao trono do seu irmão apenas 4 anos mais novo. A ascensão de Philippe seria o desfecho natural.Com a morte prematura de Baudouin, a situação mudou radicalmente. Na altura, o país emocionado e em luto encarou o novo soberano como mais um exemplo do surrealismo nacional: bon vivant, amador de carros velozes e motas, membro activo com a sua mulher, Paola Ruffo di Calabria, do jet set europeu, e cujas crises conjugais fizeram durante anos as delícias da imprensa cor-de-rosa, Albert não podia ter um perfil mais oposto ao do seu irmão. Baudouin - o "rei triste", austero, profundamente religioso e distante, mas apreciado e respeitado - não tivera alternativa senão assumir o trono aos 20 anos depois da abdicação forçada do seu pai, Leopold III, suspeito de benevolência face à ocupação alemã durante a II Guerra Mundial, e que gerou a mais grave crise da monarquia belga.

Vinte anos depois, aquele que é carinhosamente chamado de "rei jovial" ultrapassou todas as expectativas, revelando-se um monarca profundamente humano, caloroso, próximo dos seus compatriotas, empático, bem disposto e com um sentido de humor tipicamente belga. Os caricaturistas e humoristas, que não o poupam, adoram-no, afirmando que é o primeiro a rir-se de si.

O país está-lhe profundamente reconhecido pelo papel que desempenhou durante o psicodrama nacional que constituiu as revelações do rapto, violação e assassinato de várias crianças por parte do pedófilo Marc Dutroux, em que o rei assumiu a voz das vítimas e famílias face a uma classe política desorientada pelas revelações de inépcia da polícia e magistratura.

Mas, acima de tudo, Albert é apreciado sobretudo pelos seus esforços incansáveis de arbitragem das duas graves crises políticas que se seguiram às eleições legislativas de 2007 e 2010, em que o país esteve longos períodos sem Governo em plenitude de funções.

"A Bélgica é um país complexo, com duas grandes comunidades, na encruzilhada dos mundos latino e germânico, com um Estado federal e três regiões, Valónia, Flandres e Bruxelas que funcionam às vezes umas contra as outras", analisa Pierre-Yves Monette, professor do Colégio da Europa e ex-conselheiro de Baudouin e de Albert. "O país também é atravessado por uma fractura confessional, entre católicos e laicos, e outra ideológica, entre a direita e a esquerda. Por tudo isto, o rei desempenha um papel de monta na procura de equilíbrios e mesmo enquanto árbitro", o que torna o seu papel "eminentemente político", sublinha.

O rei tem de observar uma neutralidade absoluta no plano linguístico e político, sendo aliás o único belga que não pode votar num país em que o voto é obrigatório. Por causa da experiência adquirida nas últimas crises, a generalidade da classe política esperava que Albert II permanecesse no cargo pelo menos até às eleições de 2014 para desempenhar, uma vez mais, a sua missão federadora.

Esta perspectiva foi precisamente o elemento determinante na decisão do rei de sair agora de cena por se sentir sem a energia para gerir a nova reforma do Estado que resultará das próximas eleições, permitindo assim ao seu filho alguns meses para "entrar" na função.

Albert "foi rei mais tempo do que o previsto, fez menos erros do que o previsto, e a sua popularidade ultrapassou de longe o que se poderia imaginar", escreveu Liesbeth Van Impe, editorialista do jornal flamengo Het Nieuwsblad. "Obrigada!", titulou por seu lado o jornal francófono La Dernière Heure. Albert II "não foi um rei como os outros", foi "mais um homem do que um soberano", considera o jornal, acrescentando: "Coragem, sabedoria, serenidade, autoridade", com "simplicidade e empatia são os qualificativos que lhe colam à pele".

Os flamengos, sobretudo, temem que Philippe, educado pelo seu tio, assuma um estilo muito mais próximo da austeridade de Baudouin do que da bonomia de Albert. Os seus defensores afirmam que o novo rei tem a mesma humanidade que o seu pai, visto esta semana de lágrimas nos olhos em várias cerimónias de despedida pelo país. Philippe é igualmente, argumentam os seus partidários, o mais bem preparado de todos os reis da dinastia belga dos Saxe-Coburgo, devido à sua sólida formação militar, a que se seguiram estudos de Ciência Política no Reino Unido e Estados Unidos.

Nos últimos 20 anos Philippe conseguiu alterar um pouco a sua má imagem graças à chefia que assumiu das missões económicas e comerciais da Bélgica no exterior, acompanhado por centenas de empresários para vender o país - um posto que herdou do seu pai quando subiu ao trono.

Mais importante ainda para a imagem de Philippe foi o seu casamento, em 1999, com Mathilde d"Udekem d"Acoz, da pequena nobreza belga e 13 anos mais nova, que será a primeira rainha dos belgas nascida e educada no país e perfeitamente bilingue. Tão à vontade em público quanto Philippe é tímido e introvertido, Mathilde conquistou rapidamente uma enorme vaga de simpatia nacional que se estende aos quatro filhos do casal. Segundo a generalidade dos analistas, o principal trunfo do novo rei é a sua mulher.

Ontem, no último discurso que proferiu enquanto rei, Albert pediu aos belgas para apoiarem e colaborarem activamente com Philippe e Mathilde que, disse, são "um excelente casal e beneficiam de toda a minha confiança".

O rei cessante tem por seu lado um problema pessoal para resolver, o eventual reconhecimento de uma filha que teve de uma longa ligação extraconjugal, cuja paternidade nunca confirmou nem desmentiu. Delphine Böel, artista plástica de 45 anos, iniciou recentemente um processo judicial para o reconhecimento da paternidade, que poderá seguir o seu curso a partir da assinatura do acto de abdicação, que retira a Albert a sua actual imunidade.

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