Uma amizade adiada

A rivalidade entre Jacques Anquetil e Raymond Poulidor dividiu a França.

Jacques Anquetil e Raymond Poulidor
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Jacques Anquetil e Raymond Poulidor AFP

Em 100 anos de história, difícil será escolher o melhor momento, aquele que, pela sua beleza e grandiosidade, merece figurar no topo de uma lista memorável. Escudemo-nos então noutros, naqueles que elegeram aquele 12 de Julho de 1964 como o mais mítico da Volta a França. Um dia em que uma das rivalidades mais célebres da modalidade alcançou o seu apogeu. Jacques Anquetil e Raymond Poulidor entraram na lenda naquela tarde escaldante nas inclinações do vulcão de Auvergne, diante de milhares de pessoas sideradas pela intensidade do duelo.

Tudo opõe Anquetil, um burguês da Normandia, frio e calculista, vencedor de quatro edições do Tour, a Poulidor, pura explosão e emoção no corpo de um agricultor, um jovem a construir o mito do eterno segundo. O inacessível e o sociável, em suma. Nos anos 60, não há lugar a meios-termos. Cada um deve escolher o seu lado. A rivalidade entre os dois homens divide em dois a França, tão ciosa dos seus, como nenhuma campanha política conseguiu fazer.

Quando a Grande Boucle chega ao Maciço Central, aquela edição já se tinha tornado uma das mais famosas da história. Mas o melhor estava para vir. O mais forte. O mais louco. Ali, no alto de Puy-de-Dôme, a 1415 metros de altitude. A dois dias de Paris. Do lado de "Poupou", reina a confiança. Entre ele e a amarela há apenas 56 segundos. Estava ali a sua oportunidade de ouro.

O sábio Antonin Magne, duplo vencedor da Volta à França nos anos 30, tinha-o levado a reconhecer meticulosamente a subida na semana anterior ao arranque do Tour. Sabe como poucos os truques daquela estrada. Conhece-lhe as rampas mais duras, os pontos de descanso, os desvios traiçoeiros. A preparação precisa segue na sua cabeça enquanto sobe. Precisa de ler a corrida, olhar, para atacar no momento oportuno.

Mas Anquetil não o larga. Lado a lado. Nem um pouco mais à frente, nem atrás. Os dois balançam na bicicleta, entreolham-se. A 1500 metros do topo, tocam-se ombro a ombro, como dois ciclistas de pista. Um cotovelo a cotovelo insensato. "O suor dos dois homens parecia misturar-se", escreveria depois Jacques Goddet.

Poucos se lembrarão do formidável trepador espanhol Julio Jiménez, isolado à procura da vitória na etapa e da bonificação que a acompanha. Uma bonificação que podia ter alterado o curso da corrida. Nada importa, porque, nesse mesmo instante, Poulidor e Anquetil têm os olhos da França suspensos em si. Sob a flamme rouge, o marco que indica um quilómetro para a meta, os rivais permanecem colados. Os apoiantes do eterno segundo roem as unhas, questionando-se sobre o que esperará o seu favorito para atacar.

A 900 metros da meta, o camisola amarela cede um pequeno espaço. Primeiro um metro, depois dois. Dez. Poulidor parte. Tem a estrada à sua frente, a meta a que tanto aspira atrás de si. O colapso de Anquetil é terrível. Aquele torna-se rapidamente o quilómetro mais longo da sua vida. Os metros não passam, as pernas não andam. A 400 metros da meta, é alcançado por Adorni, vindo de trás. O italiano não tarda em deixá-lo. Num esforço desesperado, hercúleo, consegue salvar-se do naufrágio. A liderança está presa por 14 segundos.

Poulidor deixou fugir a sua derradeira oportunidade. Quarenta e oito horas mais tarde, no último contra-relógio, perde 56 segundos para Anquetil. "Falam-me sem parar dessa etapa. No entanto, não sinto especialmente qualquer arrependimento. Não estava bem nesse dia. Foi o Jacques que explodiu completamente, não fui eu que ataquei. Não me sentia capaz".

Mas, naquele dia, à chegada, Antonin Magne não consegue compreender. Talvez o seu protegido tivesse escolhido mal o andamento. Não deveria ter optado por 26 dentes como o tinha aconselhado? Pergunta-lhe com que andamento fez o reconhecimento. Poulidor baixa a cabeça, envergonhado, e, como um menino pequeno, responde: "É que, senhor Magne, nesse dia em que vim conhecer a subida, a estrada não estava aberta até ao topo". A lenda do eterno segundo desperta. O perfeccionista Anquetil nunca teria cometido o mesmo erro.

Inimigos até ao último momento, os dois saberiam superar a rivalidade para um final feliz. E a cumplicidade forçada naquele 12 de Julho de 1964 foi determinante. Fora da estrada, quando encostaram a bicicleta, descobriram que aquilo que os separava era aquilo que os unia. "Perdemos 15 anos de amizade", diria um dia Anquetil, quíntuplo vencedor da Grande Boucle. Poulidor nunca ganhou o Tour - foi três vezes segundo e cinco vezes terceiro -, mas ganhou um amigo para a vida.

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