O rock foi escasso e super só mesmo a encerrar com os Queens of The Stone Age

A última noite do Super Bock Super Rock redimiu-se graças aos Queens Of The Stone Age que, por entre tanto concerto morno, pareceram um milagre à maioria.

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Queens Of The Stone Age José Sarmento de Matos
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Queens Of The Stone Age José Sarmento de Matos
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Ambiente do festival José Sarmento de Matos
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Os californianos !!! (ou Chk Chk Chk) José Sarmento de Matos
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João Ribas, vocalista dos Tara Perdida José Sarmento de Matos
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Mosh no concerto dos Tara Perdida José Sarmento de Matos
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Gary Clark Jr José Sarmento de Matos
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Ambiente do festival José Sarmento de Matos
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Miss Lava José Sarmento de Matos

E quando lá pelas duas e meia da manhã, no final do concerto dos americanos Queens of The Stone Age, as gentes começaram a atravessar o recinto do Super Bock Super Rock na direcção da saída, deixando atrás de si o inevitável rasto de pó, havia uma pequena sensação de vingança no ar, como quem ao fim de horas e horas de espera num restaurante vê servida uma refeição saborosa, que graças à fome sabe efectivamente melhor do que é. Ou foi.

Os QOTSA serviram o mesmo prato que lhes assenta bem há anos: stoner-rock centrado em linhas de guitarra com a força de jogadores de rugby em placagem ao adversário e que ocasionalmente, por acaso ou talento, se movimentam com a graciosidade de uma bailarina – uma bailarina de um club de strip, mas ainda assim uma bailarina.

A fórmula admite variações – pode até ser quase funky na extraordinária Make it wit chu – mas funciona e tão melhor quando eles se remetem aos discos antigos, em particular Songs for the Deaf e R, onde foram buscar essa extraordinária e explosiva Feelgood hit of the summer, em que por entre guitarras que soam a lixa a raspar na pele, a letra se reduz a uma enumeração de drogas: “Nicotine Valium Vicodine Marijuana Ecstasy Alcohol C-C-C-Cocaine”, assim resumindo metade do universo dos QOTSA (drogas e sexo).

A frase foi cantada quase no final da actuação e ganha foros de meta-literatura quando nos pomos a pensar o que foi o dia de sábado no Super Rock, pois talvez tudo tivesse sido menos penoso com tamanho cocktail.

O sofrimento começou cerca das 19h30, no Palco EDP (o secundária), onde se reuniram umas centenas de pessoas para ouvir, o que é surpreendente, se tivermos em conta que a essa hora o recinto se encontrava praticamente vazio. A razão do ajuntamento eram os Tara Perdida, que ao contrário dos QOTSA – que sendo muito bons não são hoje tão bons quanto eram há uns anos – permanecem exactamente iguais, oferecendo uma sequência de punk-rock que soa a Ramones versão redux – o redux refere-se à enorme redução na capacidade para criar melodias.

Os Tara Perdida não foram o único caso de banda deslocada no ambiente de um grande festival: no Palco Super Bock, o principal, as hostilidades abriram com Miss Lava, um conjunto de moços que certamente sonha com os Black Sabath e o rock da década de 1970. Mas se os mencionados Black Sabbath produziam uma descarga eléctrica equivalente à de uma barragem que sorvesse um oceano inteiro, os Miss Lava têm apenas um laguinho no lugar da inspiração e a cada vez que o vocalista fazia corninhos com as mãos havia apenas um par de braços a erguer-se em resposta.
 

Erros de casting

Mais erros de casting: a exacta medida do grau de inadaptação dos Asterisco Cardinal Bomba Caveira (Palco EDP) às circunstâncias pode medir-se pelas letras que cantam: num minuto estão a cantar sobre infância e bicicletas, 180 segundos depois dedicam um tema a todas as pessoas que se casaram recentemente, uma decisão que provocou zero reacções no público. São um caso curioso, os ACBC: soam a uma banda de versões de Os Golpes, uma banda que durou três anos, lançou um disco e um EP. Querem ter as guitarras dos Orange Juice e o sentido melódico dos Heróis do Mar; há por ali talento, alguns refrões suficientemente orelhudos para dar bom nome à pop, mas ainda falta coesão e atitude.

Às 21h20, o sábado acumulava desilusão atrás de desilusão quando os Ash subiram ao palco principal para oferecer uma versão deslavada do que há muito foi a britpop e hoje é power-pop genérica e indiferenciada. Podíamos jurar que as escassas palmas que obtiveram continham um misto de pena e solidariedade (porque, ao fim e ao cabo, são trabalhadores e esforçaram-se). E como se não bastasse, os !!! (no Palco EDP) estiveram longe de fazer uma actuação merecedora de pontos de exclamação. O que outrora era uma máquina infernal de produzir suor deveio operação funk sofisticada e a sofisticação é inimiga da eficácia. Ainda assim, os escassos momentos de agitação que provocaram soaram, face ao que o dia tinha sido até então, muito bem.

A situação era estranha a este ponto: lá pelas onze, Gary Clark Jr, bluesman negro dos Texas a dar os primeiros acordes (no sentido em que 29 anos, para um bluesman, é a primeira infância), mostrou tremendas qualidades na lida da guitarra, oscilando entre reminiscências de Hendrix e o fantasma de James Brown. Não tem a voz, mas tem uma mão esquerda admirável e tinha uma banda que ora rocakava ora soulzava com admirável facilidade.

E contudo o povo parecia estar alheado, o que é compreensível: estavam à espera dos QOTSA – isso podia ser avaliado pelo simples facto de estes terem sido a única banda que fez o recinto encher do palco até bem para lá da tenda onde se trata do som do palco. (Segundo a organização do festival estavam 30 mil pessoas no festival – embora parecessem menos).

A espera não foi em vão: Josh Homme podia até estar quase sem voz (devido a ser o último concerto da digressão), mas estava com vontade de punir a audiência, e chicoteou-os com riff poderoso seguido de riff poderoso. É certo que as canções mais recentes são inferiores às que faziam parte do alinhamento quando deram um concerto sublime em Paredes de Coura, em 2005, mas sempre que regressavam ao passado valeram cada segundo de espera.

Houve certamente muita cerveja no sábado. Já o rock foi escasso e super só mesmo a encerrar.
 

Notícia alterada às 14h59, corrige a grafia de Gary Clark Jr