No dicionário de Sines DakhaBrakha significa maravilhamento

A fechar o primeiro fim-de-semana do Festival Músicas do Mundo, uma noite quase perfeita, em que só a exaltação de Hermeto Pascoal comprometeu. Os ucranianos DakhaBrakha tornaram-se uma das melhores memórias futuras do festival.

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Os ucranianos DakhaBrakha entrelaçaram vozes em harmonias irreais Mário Pires
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Hermeto Pascoal abandonou o palco depois de acusar a organização de querer pôr fim ao concerto Mário Pires

Tudo apontava para uma noite quase, quase perfeita. E o “quase” apenas como medida de segurança, para que um pé mal colocado no chão, um encontrão que desperdiçasse duas gotas de bebida ou um pequeno engano no palco não dessem motivo a queixas. Mas essa quase perfeição, numa sequência de concertos — JP Simões, DakhaBrakha, Hermeto Pascoal e Batida — que estava já a ser uma das mais notáveis da história do Festival Músicas do Mundo (FMM), em Sines, foi ligeiramente abalada quando, num repente, passada hora e meia de uma actuação regada com toda a sua maravilhosa loucura habitual, Hermeto Pascoal, lançou “Vamos parar de tocar porque a direcção do festival disse para parar. Esse festival é uma merda”.

Em alguém com a teatralidade por vezes exagerada do mestre brasileiro, ficava a dúvida da completa intencionalidade da tirada. Mas a saída intempestiva de palco de toda a banda significaria mesmo um fim precoce para o concerto. O manager de Hermeto viria ainda ao palco assumir a culpa da sua inexacta interpretação daquilo que lhe fora transmitido pela organização — a indicação de que o concerto deveria caminhar para o fim e não a exigência da sua paragem imediata —, mas os estragos junto da assistência (até aí rendida ao músico) estavam consumados.

O regresso de Hermeto ao palco neste sábado à noite, ainda para mais numa sequência curtíssima de um par de minutos, não conseguiria eliminar o embaraço, prova, aliás, de que o público sente de tal forma o FMM como seu que não lhe perdoou totalmente a declaração impulsiva.

Mas há que ter em conta que a música é, para Hermeto, quase traduzível pela própria vida. Um homem que se delicia com a sinfonia involuntária do trânsito em São Paulo ou com as obras de um prédio em frente à sua casa, que gravou nos Estados Unidos por ninguém no Brasil lhe permitir levar porquinhos para estúdio que grunhissem de acordo com a sua orquestração (registados na obra-prima Slaves Mass) e que ouve música em tudo quanto produza som, não está preparado que lhe digam para parar. É um defeito para a maioria, naturalmente, mas também um choque para o músico, como que uma amputação da vida investida naquele concerto.

Até então — e a actuação, apenas uns pontos abaixo na maravilha de há oito anos — mostrara-se o Hermeto Pascoal que assinara em 2005 um dos melhores concertos do FMM, com o maestro do jazz brasileiro a tocar uma chaleira com água (como faria com uma flauta), girafas de borracha e toda a sorte de objectos, comandando uma música sempre imprevisível deitada para fora num fluxo único, sem pausas, de um brilhantismo lúdico, em que a música é plástica e uma constante emanação de harmonia.

A magnífica farsa
Hermeto, lembremos, foi um dos nomes anunciados pelo festival para reviver alguns dos melhores momentos das suas 15 edições. E voltou a dar um excelente concerto, simplesmente com duas falhas: um final que não esteve à altura e a desafortunada ideia de ingratidão por um festival que o venera. Se Hermeto simbolizava a visita aos FMM passados, a vitalidade do evento ficou plenamente justificada com a actuação dos ucranianos DakhaBrakha, que seguem directamente para o livro de ouro do festival.

Não seriam uma surpresa absoluta para quem os tivesse visto já no Festival Med (Loulé) em 2011 ou para quem tivesse satisfeito a curiosidade com um par de cliques na Internet. Mas foi muito mais do que tudo o que se podia esperar. Partindo de melodias tradicionais ucranianas, este quarteto arma depois uma monumental e esplendorosa farsa, importando de forma alarve referências musicais das mais variadas geografias para uma música inclassificável, tão devastadoramente bela quanto estranha. À semelhança do que mostraram as Ayarkhaan há dois anos.

Instantes há em que as três mulheres de vestido branco e chapéu alto preto (gorlatnaya shapka, um antigo privilégio da realeza russa) entrelaçam as suas vozes em harmonias irreais, feéricas, algures entre o registo das “vozes búlgaras” e o das finlandesas Värttinä. Por vezes esparsas, as canções chegam a começar com o registo agudo das três cantoras e do cossaco de serviço a flutuar por cima de um manto de acordeão, violoncelo e percussões (ocasionalmente piano), para depois furarem essa película celestial e tornarem-se telúricas, espirais de indução de um dançante transe colectivo.

Noutras ocasiões, o registo vocal compassado e a estrutura rítmica circular fazem pensar num hip-hop que pudesse ter nascido folclore local lá para os lados de Kiev, outras ainda (como o inesperado final com Baby) transformam a vulgar voz grave de Vladyslav Troitskvi num tocante falsete soul, como se também Al Green conseguisse visto para entrar na música dos DakhaBrakha. Em alguns dos temas irrompem também sintomas de experimentalismo que nos habituámos a farejar no pirata do acordeão Kimmo Pohjonen. Tudo demasiado bom, tudo demasiado belo. Custa a acreditar que tenha havido 14 edições de FMM sem ouvirmos os DakhaBrakha, que sábado se tornaram presença obrigatória em qualquer outra edição do festival que pretenda comemorar a sua história.

A iniciar e a encerrar a noite quase perfeita, presenças mais habituais nos palcos portugueses: JP Simões e Batida. O grupo luso-angolano liderado por Pedro Coquenão é cada vez mais uma profissional máquina de fazer dançar, em que a paixão pelas propriedades festivas do kuduro enquanto injecção de prazer físico só tem paralelo na crítica cerrada ao Presidente do governo angolano José Eduardo dos Santos, cuja imagem habita com regularidade o ecrã dos vídeos dos Batida.

Num desfile oleado mas não mecânico de bailarinos, MC convidados e uma selecção imaculada de modernizações de temas dos anos 70 angolanos (passando inclusivamente por citações de afrobeat dessa época), o concerto de Batida foi a celebração que se pedia ao concerto final do Castelo.

Horas antes, o palco recebera JP Simões acompanhado por uma formação alargada que parece finalmente a extensão ideal para as suas digressões mentais e os seus imprevistos, seguindo-lhe as pisadas quando o final com Marcha dos Implacáveis — tema a partir dos “números brutais de um relatório da OCDE” que encena uma invasão irada a S. Bento, mas que por partir de números mereceu de JP o anúncio de uma chave aleatória de totoloto — descambou repentinamente num final catártico em modo flamenco. E ideal também porque a crescente alma brasileira dos sambas, sambinhas, afrosambas de Simões exige um arcaboiço que mantenha grandes os grandes temas de Roma, como o hino-anticapitalista Rio-me de Janeiro — dedicado “ao grande músico de Chicago Milton Friedman” (a sua música era sobretudo a do liberalismo económico).

A viagem ao excelente álbum foi entremeada pelo torrencial humor fonético de Simões, pedindo silêncio para se “cantar o fardo” ou declarando que “este festival é condição Sines qua non para se ouvir boa música”. Há piadas que, em rigor, não o são.