Há uma velha Detroit a morrer que a indústria automóvel já não segura

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Detroit é uma lição contra a "especialização excessiva num único sector", no caso, o automóvel BILL PUGLIANO/AFP

A GM, Chrysler e Ford já não são a sua fonte de riqueza. Mas há quem acredite na recuperação.

Há uma velha Detroit a morrer e uma nova a nascer ou apenas uma grande cidade a morrer? As reacções de quem vive na que já foi a quarta maior cidade dos Estados Unidos da América e beneficiou de décadas consecutivas de um imparável ritmo económico são de quem não encontra sinais de optimismo. As agências e as televisões mostram uma população desiludida, receosa e zangada, mas não surpreendida, com o anúncio de que a administração municipal declarou falência e pediu protecção contra credores, sobretudo funcionários públicos municipais e fundos de pensões - são 18 mil a 20 mil milhões de dólares de dívida que estão em causa.

O gestor de emergência da cidade nomeado recentemente pelo estado do Michigan para pôr as contas em ordem, Kevyn Orr, defende que a decisão foi "o primeiro passo em direcção à recuperação da cidade", afirmou na conferência de imprensa de ontem. O presidente da câmara, Dave Bing, diz, por sua vez, que "não era o caminho que queria", mas agora "é fazer o melhor possível a partir daqui".

Detroit, no estado do Michigan, deve a sua ascensão à indústria automóvel e a sua queda também. Os Três Grandes, como eram conhecidos - General Motors, Chrysler e Ford -, cresceram, caíram e mudaram em Detroit, cidade ciosa de uma tradição de benefícios sociais acima da média nacional e do poder dos seus sindicatos. Na sequência da crise do subprime, a GM e a Chrysler declararam falência em 2009 e pediram protecção de credores, ao abrigo do chamado Capítulo 11. A Ford resistiu a dar o mesmo passo, mas a queda de vendas por essa altura levou-a a pedir uma linha de crédito.

A Administração Obama respondeu rapidamente aos pedidos e os Três (entretanto já não tão) Grandes voltaram aos ganhos, como aconteceu este ano. Fizeram grandes processos de emagrecimento, cortes de despesa e rearrumações accionistas, como o da entrega do poder da Chrysler à Fiat. Os tempos áureos da grande indústria automóvel não regressaram, mas as perspectivas tornaram-se mais positivas.

Desta vez, Detroit, em tempos conhecida como a Cidade do Automóvel, não parece partilhar do mesmo caminho de recuperação, já que é desse emagrecimento que a cidade se ressente. A população encolheu de mais de um milhão para 600 mil habitantes, entre 70 mil e 80 mil propriedades encontram-se abandonadas, os serviços públicos, entre os quais a emergência médica, a segurança e a iluminação públicas, estão em deterioração acelerada. A ligação entre a cidade e a indústria que a impulsionou já não é a mesma: a GM diz não esperar qualquer impacto da falência da cidade nas suas operações e espera mesmo que assinale um "começo limpo" para Detroit.

Kevyn Orr tentou há cerca de um mês um acordo com os credores, propondo uma forte reestruturação da dívida: converter para 10 cêntimos cada dólar devido. O acordo não passou devido à oposição de dois fundos de pensões que representam funcionários públicos municipais reformados e foi esse facto que determinou a abertura de falência, embora esteja garantido o pagamento de salários.

Para dirigentes sindicais como Ed McNeil, o que está em causa não é uma questão de finanças locais, mas de "derrube dos sindicatos", como afirmou à Reuters.

O fantasma da decisão arrastava-se há vários meses. Detroit resistiu à bancarrota até ontem, tendo recorrido a um mecanismo legal destinado apenas aos municípios e entidades públicas locais, em alguns aspectos equiparável ao das empresas, e que é conhecido por Capítulo 9. Não representa a primeira falência municipal dos EUA, várias ocorreram no passado, mas é a maior de sempre.

Se o pedido for aceite pela Justiça federal, ficará autorizada a vender activos para pagar aos seus credores e pensionistas e o receio dos seus habitantes é que tesouros como os guardados no seu museu de arte, o Detroit Institute of Arts Museum (DIA), desapareçam em nome da crise.

A decisão da Justiça pode também abrir um precedente numa eventual reestruturação dos benefícios sociais aos reformados, "o que tornaria a opção de falência atractiva para as cidades", na opinião de Karol Denniston, advogado especialista em falências, citado pelo New York Times.

Fred Kent, fundador e presidente do Projecto para os Espaços Públicos, entidade que tem estudado e participado na revitalização de espaços urbanos, é dos que acreditam que a história da bancarrota de Detroit é uma das "duas histórias" a contar: a outra, diz ao PÚBLICO, é "do ressurgimento", tendo por trás gente que acredita nessa viragem. Não duvida de que "a história da transformação da cidade será uma das maiores de sempre da revitalização urbana do mundo".

Dá algumas razões: o preço do imobiliário "desceu tanto que há agora gente a comprar muitas propriedades e muitas novas empresas a entrarem na cidade e a trazerem consigo trabalhadores mais novos que vão repovoar Detroit". Lembra, por outro lado, que Nova Iorque esteve na mesma situação há 35 anos e "parecia que o mundo inteiro estava contra ela", incluindo o vice-presidente, "que lhe dizia que estava morta". O que fez a diferença, sublinha, foi um grupo de pessoas que "acreditou na transformação e começou a forjar uma nova Nova Iorque", a partir de zonas hoje emblemáticas na cidade como o Centro Rockefeller, o parque Bryant, entre outros. "Hoje estamos envolvidos e a fazer o mesmo no espaço público da Baixa de Detroit", diz.

Mas até ao ressurgimento de que Kent fala a lição de Detroit é clara para Catarina Selada, directora de Territórios e Cidades da Inteli, entidade que é responsável pela gestão da rede Smart Cities de Portugal. "Mostra as consequências da especialização excessiva num único sector", refere. A lição também serve para a Europa. Aconselha-se hoje as cidades a terem uma "especialização inteligente" que tire partido de "sectores diferentes mas relacionados entre si, por exemplo, o automóvel e a aeronáutica".