“Trayvon Martin podia ter sido eu, há 35 anos”, diz Obama

Nunca o Presidente dos EUA se assumiu tanto como afro-americano. E falou da necessidade de mudar leis que potenciam a violência.

É preciso rever as leis, disse Barack Obama
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É preciso rever as leis, disse Barack Obama Larry Downing/Reuters

Barack Obama apareceu ontem de surpresa na sala de imprensa da Casa Branca para falar sobre o polémico julgamento de George Zimmerman, o vigilante que matou o adolescente negro Trayvon Martin, mas foi ilibado porque um júri da Florida considerou que agiu em legítima defesa. “Trayvon Martin podia ter sido eu, há 35 anos”, dissecomentou o Presidente dos Estados Unidos, dando um tom pessoal ao caso que despertou a questão da raça.

“Na altura em que Trayvon Martin foi morto, disse que ele podia ser o meu filho. Esta é outra maneira de o dizer”, afirmou Obama, que saudou a “incrível dignidade” dos pais de Martin. Estes são os comentários mais aprofundados sobre questões raciais que Obama faz desde que é Presidente, diz o New York Times.

“É importante reconhecer que a comunidade afro-americana olha para este assunto através de uma série de experiências e uma história impossíveis de escamotear”, afirmou Barack Obama. “Poucos homens negros neste país não tiveram a experiência de serem seguidos quando faziam compras num grande armazém. Eu também tive.”

Estas experiências modelam a forma como a comunidade afro-americana interpretou o que aconteceu naquela noite na Florida, em que o vigilante George Zimmerman matou Trayvon Martin, um adolescente com a cara meio escondida por um capuz, e as mãos dentro do bolso do blusão com uma embalagem de guloseimas que a defesa disse parecer ser uma arma.

Mas o Presidente tocou também num debate que tem estado a decorrer após a sentença de Zimmerman, no fim-de-semana passado, e dos protestos que a ela se seguiram em muitas cidades, que a ela se seguiram: a de que leis estaduais do género da Stand Your Ground da Florida, que tornam legal a legítima defesa, com armas de fogo, se alguém se sentir ameaçado.

Foi ao abrigo desta lei que Zimmerman foi ilibado, mas o attorney general (equivalente a ministro da Justiça) Eric Holder afirmou esta semana que este tipo de legislação só deve ser invocado se a pessoa tentar recuar de uma situação perigosa e não for capaz. “Está na altura de questionar leis que expandem sem sentido o conceito de auto-defesa e semeiam conflitos perigosos”, disse afirmou

Obama sublinhou ontem a necessidade de rever estas leis: “Seria útil rever algumas leis estaduais e locais para ver se foram concebidas de formas que acabam por encorajar o tipo de alterações, confrontos e tragédias que vimos acontecer no caso da Florida, em vez de diluir potenciais desacatos”, disse o Presidente.