Um Citemor de combate (e algumas surpresas)

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Francisco Camacho remontou a primeira peça em que dançou sozinho, Um Rei no Exílio, para a 35.ª edição do festival

Em 2012, o Citemor - Festival de Montemor-o-Velho, durante anos lugar privilegiado da criação contemporânea nas áreas do teatro, da dança e da performance à escala da Península Ibérica, fez-se quase sem dinheiro. Era para ter sido "uma edição irrepetível" ("Só funciona uma vez, porque achar que os artistas devem trabalhar sem serem pagos é um princípio criminoso", disse então o director do festival, Armando Valente, ao PÚBLICO). Não foi. As condições de subfinanciamento do ano passado agravaram-se com o chumbo da candidatura do festival aos Apoios Tripartidos lançados entretanto pela DGArtes, mas mesmo assim vai haver um 35.º Citemor, e já a partir da próxima segunda-feira. Não será, como em 2012, "uma edição de resistência": é assumidamente "uma edição de combate", para voltarmos a citar Armando Valente. "No ano passado tivemos vontade de resistir; este ano a vontade é de combater um poder político ignóbil e irresponsável. É a obrigação que sentimos perante este corte cego e inexplicável, legitimado pela assinatura de um secretário de Estado da Cultura que para mim, enquanto director do projecto e enquanto cidadão, é um desapontamento", explica ao Ípsilon.

O Citemor que arranca no início da próxima semana com a projecção de Citemor, de Ignasi Duarte, no Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra, é o primeiro de sempre sem apoio do poder central (e portanto um festival que perdeu a capacidade invulgar de assegurar residências artísticas e parcerias internacionais). Mas não deixa de apresentar duas estreias absolutas - Love Exposure. Yoko"s Corinthians 13 Speech. Beethoven Symphony No. 7, que a espanhola Angélica Liddell conseguirá trazer ao Teatro Taborda, em Lisboa (dias 25 e 26), e ao Teatro Esther de Carvalho, em Montemor-o-Velho (dia 28), na ressaca da sua celebradíssima passagem por Avignon, e Cromotografia, nova peça do Teatro da Garagem (dias 26 e 27) - e duas remontagens de obras mais ou menos seminais, O Rei no Exílio, que em 1991 foi a primeira peça a solo de Francisco Camacho (dia 25), e Nutritivo, em que Sergi Fäustino cozinha uma morcela com o seu próprio sangue (1 e 2 de Agosto no Negócio, em Lisboa; dia 3 na Sala B, em Montemor-o-Velho). Também o Teatro do Vestido (com Labor #1, dia 24) e YeLLa (com Esforço de Reflexo, dias 3 e 4) integram o programa deste ano, que mais do que nunca resultou de "acidentes e surpresas". E que também nisto repete o modelo do ano passado: os bilhetes custam o que o espectador quiser pagar.