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Na poesia de Inês Dias, a tristeza do mundo, das coisas, das experiências oferece-se na sua mudez: tudo aqui é sussurrado, segredado, codificado pela intimidade Miguel Manso

O terceiro livro de poemas de Inês Dias - e ainda nova e velha ficção e o atentado contra Salazar relido como num thriller.

Poesia

Música sombria

A poesia de Inês Dias, como se confirma neste seu terceiro livro, tem a qualidade da subtileza e nasce da faculdade da atenção. António Guerreiro

Um Raio Ardente e Paredes Frias

Inês Dias

Averno

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Ao seu terceiro livro, é possível - e obrigatório - perceber que a poesia de Inês Dias evoluiu no melhor sentido e cumpre com uma elevação sempre maior o que nela se anunciava desde a estreia. Tornou-se mais densa, mais idiomática, libertou-se de inflexões que, embora ligeiras, às vezes a perturbavam - a queda numa certa afectação a que poderíamos chamar "poetismo". Neste último livro, Um Raio Ardente e Paredes Frias, a disposição que tende para a elevação e para a alteridade - e que faz da idealização imagética o seu dispositivo fundamental - é bem acentuada. Mas ganha carácter de necessidade, não sucumbe ao artificialismo e instala com força a "música" própria deste livro: uma música de Outono, poderíamos dizer, com uma tonalidade simbolista.

O livro termina com um poema intitulado Matéria da Bretanha. A "matéria da Bretanha" de Inês Dias, aquilo que a sua linguagem toca, ou atinge, é o mundo das pequenas coisas e dos lugares, o mundo da experiência vivida (transitório, fugaz) filtrado pela intimidade, isto é, interiorizado de acordo - e a dimensão musical desta palavra adequa-se plenamente - com uma disposição afectiva: "[...] Na Nazaré, cujas ruas são longos/ dedos de vento substituindo os vermes/ no seu trabalho de nos descarnar,/ ainda repetimos histórias e gestos/ como quem acende fósforos,/ convencidos de que assim/ veremos os degraus em falta/ e afastaremos, por enquanto, o frio" (p. 31).

A Nazaré é apenas um dos lugares que surgem ao longo deste livro, e que são o "lá fora" de que se fala na primeira estrofe de um poema que se chama Gaiola: "Agora que regressei/ a este quarto para ficar,/ Não me contes que a vida/ continua lá fora,/ não me tragas/ a luz de outros voos". A referência a lugares não desvia esta poesia do seu fim, formulável nestes termos: o acto poético consiste em perceber e não em representar. Mas falávamos da intimidade, desse núcleo que tudo absorve segundo as leis de um irredutível idiomatismo, como o lugar originário desta poesia e, em última instância, a sua "matéria da Bretanha". Ora, a intimidade encontra aqui a sua música mais própria num estado de espírito que é a tristeza. Uma tristeza de certo modo objectivada: não é o sujeito que é triste, mas o mundo, as coisas, as experiências. Tudo isso se oferece na sua mudez, e é por isso que é triste. É do confronto com esta mudez que fala a poesia de Inês Dias. Por isso é que toda a fala - o poema - é, em certa medida, sussurrada, segredada, codificada pela intimidade. E é aí que adquire uma enorme importância a faculdade da atenção que estes poemas manifestam: a atenção micrológica, ao detalhe, às pequenas coisas, aos vestígios. Todo o movimento nesta poesia vai do detalhe e do vestígio para a totalidade, do material para o abstracto. Há um poema que começa com uma citação: "O passado é um país estrangeiro". De certo modo, este devir estrangeiro que afecta o passado - e acrescentemos que há nesta poesia a tendência para a espacialização do tempo - ganha a dimensão de uma lei geral: tudo é simultaneamente íntimo e estrangeiro. Esta polarização está presente em todos os momentos e perturba e complica qualquer leitura que pretenda resolver esta duplicidade num só sentido. É por isso que mesmo o espaço doméstico e familiar para que alguns poemas remetem é igualmente um território estrangeiro, tocado pelo inquietante. E é aqui, nesta inclinação que vem perturbar todos os dados, que a poesia de Inês Dias ganha uma densa subtileza e se afasta de uma luminosidade que parece estar no seu princípio.

Ficção

O desejo e a moral

Reflexão sobre as relações humanas, as suas contradições sombrias, os anseios e o desamparo afectivo. José Riço Direitinho

O Jogo Sério

Hjalmar Söderberg

(Trad. José Miguel Silva)

Relógio D"Água

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O Jogo Sério, o último dos romances do sueco Hjalmar Söderberg (1869-1941), publicado em 1912, ano da morte de August Strindberg - cujos temas literários influenciaram profundamente a obra de Söderberg - é uma tocante e amarga história de amor que tem como cenário a elegante Estocolmo fin-de-siècle. Com as tortuosas deambulações e os dilemas que fustigam as personagens, o autor traça uma espécie de cartografia fatalista da solidão do espírito e da impossibilidade do amor. Escrito de forma luminosa e precisa, este romance é um verdadeiro estudo das contradições sombrias da alma humana, dos seus anseios, das inevitáveis renúncias, da traição e do desamparo afectivo.

A acção decorre entre o Verão de 1897 e o Outono de 1912. Arvid e Lydia são dois jovens (ele meia dúzia de anos mais velho) que se conhecem e se apaixonam nas férias estivais, numa ilha não longe da capital sueca. Arvid, que recentemente recebeu o título de bacharel, vai em breve iniciar o seu ano de estágio ensinando numa escola, e começar também a trabalhar num jornal, primeiro como revisor e mais tarde como crítico musical. Arvid renuncia então a comprometer-se com Lydia, invocando dificuldades económicas e "uma absoluta necessidade de solidão"; mas não a esquece. Chegam a encontrar-se casualmente um par de vezes. Os anos vão passando: o pai de Lydia, um modesto pintor, morre e ela, em busca de amparo material, acaba por se casar com um homem bastante mais velho. Também Arvid se vê mais ou menos forçado a casar com Dagmar, a filha única de um homem de negócios falido. Mas a memória de momentos passados assombra estas personagens de Söderberg. E tempos depois, a chama do amor entre Arvid e Lydia volta a acender-se. Estão ambos casados e digladiam-se com um dilema moral, o desejo do adultério. Arvid tenta ultrapassar esse conflito ansiando evitar ser o responsável pelos seus actos, convencendo-se disso, tecendo uma espécie de hipótese fatalista em que o destino hostil o obriga a fraquejar diante das adversidades. "Não escolhes o teu destino, tal como não escolhes os teus pais ou aquilo que és: a tua força física, o teu carácter, a cor dos olhos ou as convoluções do cérebro. Toda a gente sabe isso. Ninguém escolhe a sua mulher, a sua amante ou os seus filhos. Arranja-os, tem-nos e talvez os percas." O verdadeiro dilema de Arvid, na sua contínua vontade de se enganar a si próprio, acaba por se tornar na suposta impossibilidade de escolha face ao que lhe é oferecido por um destino de infelicidade. O amor, como uma fatalidade, mostra-se ser um caminho armadilhado, cheio de enganos e de mentiras inevitáveis. E os dois protagonistas, emocionalmente instáveis, são incapazes de encararem as suas relações com honestidade; entre rupturas e reconciliações, vão jogando notavelmente um com o outro, dando primazia a questões materiais, e deixando a sua própria felicidade para segundo plano.

Como já tinha feito na sua inquietante obra-prima, O Doutor Glass (Relógio D"Água, 2012), o escritor Hjalmar Söderberg cria também em O Jogo Sério um protagonista fatalista que facilmente se deixa tomar pela melancolia, uma personagem obstinada e insatisfeita que tão depressa age de maneira racional como tem desejos e vontades irracionais, um romântico pessimista que sem razão aparente se deixa dominar por um estranho temor, que se entrega com aparente júbilo à solidão e à angústia, e que não crê em leis morais estabelecidas. "As questões morais sempre foram um pouco estranhas, se formos a ver. (...) Tanto os homens como as mulheres são às vezes tomados por desejos que não podem ser definidos como morais ou racionais."

Neste brilhante exercício de reflexão sobre as relações humanas, pontuado com apartes filosóficos e comentários sobre acontecimentos políticos da época (a guerra russo-japonesa, a vontade independentista dos noruegueses, a guerra hispano-americana), Söderberg vai recriando o cenário que é a cidade, e fá-lo através de Arvid, uma espécie de flâneur que por vezes parece quase tão perturbado como a personagem de Fome, de Knut Hamsun. (Note-se que tanto os romances de Söderberg como Fome, extravasaram em muito a corrente naturalista da época e foram influenciados por Dostóievski.) Curioso é também o carácter de observador distante que o autor faz questão de sublinhar ao longo da narração, com uma visão desapaixonada que o defende de exageros líricos (uma fácil tentação, nesta época e nesta história) de maneira a preservar alguma subtileza nos intensos sentimentos das personagens.

A guerra no corpo a latejar

O primeiro grande romance americano sobre a Guerra do Iraque tem tudo brilhantemente no seu lugar. Se calhar, ganharia com um pouco menos de brilho. António Rodrigues

Pássaros Amarelos

Kevin Powers

(Trad. Ana Falcão Bastos)

Bertrand Editora

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Relato sem heróis, narrado por um soldado assombrado pela culpa, Pássaros Amarelos é um dos primeiros romances americanos escritos sobre a Guerra do Iraque. E não vem de um jornalista incorporado numa coluna militar mas de um soldado transformado em escritor, com formação em poesia.

Kevin Powers foi operador de metralhadoras em Mossul e Tal Afar em 2004 e 2005 e escreve na primeira pessoa, por interposta personagem ficcionada, o soldado Bartle - que evoca ironicamente o Bartleby de Herman Melville num cenário de onde estão ausentes a liberdade e o livre arbítrio. Bartle carrega uma culpa que lhe corrói a existência pós-guerra. Mais do que stress pós-traumático, o que Bartle traz de Tal Afar é um segredo pós-traumático.

Intercalando os capítulos da guerra com os do pós-guerra, em saltos no tempo que vão acrescentando luz à sombra da culpa, Pássaros Amarelos mostra um Bartle com dificuldade para se integrar na vida civil, deambulando pela paisagem num estado que se vai tolhendo pelo segredo até mais não poder.

Aquilo que no teatro de operações é a linguagem crua e franca da sobrevivência ("A guerra é a grande criadora de solipsistas: como vais salvar a minha vida hoje? Se tu morreres, há mais possibilidades de eu sobreviver."), a aceitação do horror e da desgraça com um naturalismo desprovido de emoções ("Fiquei a ver o cão fugir por uma viela com um braço mutilado bem apertado nas mandíbulas."), transforma-se longe da guerra num ensimesmamento que torna mais imprecisas as paisagens e acontecimentos ("A dor também estava dentro do meu corpo, era um tipo de dor que abrangia tudo, como se toda a minha pele fosse um lábio inchado.").

A julgar pelo que escreve Powers, na guerra os bons enlouquecem e os maus são loucos, porque a guerra requer certa dose de insanidade para lidar com a permanência da morte. Mas o que se transforma em normalidade na frente deixa a alma dos soldados estropiada para lidar com a paz - "O habitual tinha-se tornado excepcional, o excepcional enfadonho, e no que havia de permeio eu só sentia uma confusão apática."

O Pássaros Amarelos do título vem de uma canção de marcha tradicional do exército americano que fala em atrair um pássaro amarelo e depois esmagar-lhe a cabeça, sinal de como se faz um soldado, encarando a morte como a conclusão de uma canção, uma estatística, uma ameaça a menos. "Só prestávamos atenção às coisas raras, e a morte não era rara."

Escrito com extremo cuidado, montado com atenção obsessiva para ir revelando apenas o suficiente ao avanço da narrativa, o romance de estreia de Powers - que ganhou os prémios Pen

Hemingway e Guardian First Book e foi finalista do National Book Award em 2012 - é um exemplo de como se monta um romance para alcançar o devido efeito emocional no leitor.

Procurando o equilíbrio entre a paisagem descarnada do que Bartle vê e a amálgama tormentosa do que sente, o autor mistura a franqueza sem pruridos de uma prosa seca, quase sádica na sua objectividade, e a poética da deambulação, de contornos que se esbatem pelo peso da culpa. Agarrando-se por vezes à descrição minuciosa de pormenores, como se prestar atenção às pequenas coisas servisse de protecção para o impacto emocional das grandes.

Inspirado por uma imagem de um corpo a flutuar no rio Tigre, Pássaros Amarelos constrói uma espécie de jangada literária por baixo, deixando esse soldado morto na frente de batalha como a ponta do icebergue de tudo aquilo que a guerra carrega como lastro.

Do que não se parece livrar este livro é do peso de ter tudo no sítio certo. Estamos a ler frases brilhantes, parágrafos sem mácula, capítulos com acabamentos de luxo e é como se faltasse ao livro um pouco desse caos que tão bem descreve. Talvez com mais transpiração, vísceras, sujidade, até um que outro cliché, e prestando menos atenção à estrutura e à beleza da escrita; prestando menos atenção. Talvez fosse outro livro. Mas é deste que falamos.

História

Matar Salazar

O atentado a Salazar relido como um thriller do Estado Novo. António Araújo

Histórias Secretas do Atentado a Salazar

Valdemar Cruz

Temas e Debates/Círculo de Leitores

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1937. O Atentado a Salazar. A Frente Popular em Portugal

João Madeira

A Esfera dos Livros

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No dia 4 de Julho de 1937, pela manhã, Salazar desloca-se à residência de Josué Trocado, no nº 96 da Avenida Barbosa du Bocage, para aí assistir à missa dominical, celebrada pelo padre Abel Varzim. Ao apear-se do automóvel, na companhia do fiel chefe de gabinete Leal Marques, ocorre uma explosão que, apesar de violentíssima, falha o objectivo: matar o ditador.

Na sequência deste atentado, a PVDE acabaria por prender alguns homens (o "grupo do Alto do Pina") que, após serem torturados, acabam por confessar o crime. Anunciada triunfalmente nos jornais, a investigação terminaria aqui e, provavelmente, aqueles homens acabariam por ser condenados a pesadas penas de prisão. Aconteceu, porém, que o capitão de artilharia José Baleizão do Passo, comandante de divisão da PSP, encontraria, graças à argúcia de um seu subordinado, diversas incongruências na investigação feita pela polícia política. Numa jogada de alto risco, contacta uma estrela em ascensão no Governo, o subsecretário de Estado das Finanças, Costa Leite (Lumbrales), e este transmite a informação ao ministro do Interior, Mário Pais de Sousa. O que se passava era explosivo, quase tanto como a bomba que falhara o alvo. Estava em causa, nem mais nem menos, a credibilidade da investigação ao atentado contra a vida do Presidente do Conselho conduzida pessoalmente pelo director e pelo subdirector da PVDE, os capitães Agostinho Lourenço e José Catela. Muito possivelmente com conhecimento de Salazar, o ministro ordena a abertura de um inquérito ao trabalho da PVDE, o qual foi realizado pelo juiz Alves Monteiro e deu lugar a um volumoso processo.

Com base nesse processo, esquecido durante décadas nos arquivos da Polícia Judiciária, Valdemar Cruz conseguiu reconstruir a história das investigações, que culminariam na detenção do grupo que efectivamente tentara matar Oliveira Salazar. O livro complementa o depoimento memorialístico de um dos envolvidos nesse atentado, o anarquista Emídio Santana, e foi publicado pela primeira vez em 1999. Agora foi objecto de uma terceira edição, com acrescentamento de notas informativas sobre factos e nomes. Por muito que seja um lugar-comum, impõe-se dizer: o livro lê-se como um policial. E, na verdade, estamos perante uma obra "policial" na mais pura acepção da palavra. Com uma prosa directa e escorreita, sem se desviar do rumo dos factos, Valdemar Cruz descreve uma história fascinante, em que o atentado a Salazar é, de algum modo, o ponto menos importante, centrando-se a narrativa na "investigação da investigação", a qual, em si mesma, oferece um enredo apaixonante e ilustra diversos aspectos do salazarismo, nomeadamente as rivalidades entre as diversas polícias e as inimizades entre os seus mais altos responsáveis. Ao livro faltará, porventura, alguma contextualização histórica e, sobretudo, a informação sobre o desfecho do caso, designadamente sobre o que aconteceu aos verdadeiros autores do atentado (adianta-se o óbvio: foram condenados a pesadas penas de prisão).

Versando a mesma temática, e com apoio num conjunto mais amplo de fontes documentais, o livro de João Madeira tem um propósito mais ambicioso. Sem o afirmar de forma inteiramente explícita, João Madeira pretende, em boa medida, questionar a versão de Emídio Santana, nos termos da qual o atentado fora obra exclusiva de anarquistas da Confederação Geral do Trabalho. O subtítulo da obra é esclarecedor: A Frente Popular em Portugal. Adoptando, à semelhança de Valdemar Cruz, um registo "narrativo", "solto" ou "não académico", João Madeira descreve, logo nas primeiras páginas do livro, as personagens do grupo detido pela PVDE, traçando um retrato extraordinário do quotidiano das classes pobres da Lisboa dos anos 30, a que se associará um retrato não menos impressionante da prática da "porrada" e dos efeitos devastadores sobre as suas vítimas. A preocupação de João Madeira em demonstrar a sua "tese" condu-lo, porém, a interromper a narrativa com uma longa descrição do que foi a Frente Popular, que ocupa toda a segunda parte do livro. A história do atentado e das suas sequelas só é retomada nas páginas finais, o que perturba a linearidade descritiva e dificulta a leitura. Para mais, o envolvimento da Frente Popular acaba, no final, por não ser cabalmente demonstrado, já que, se é inquestionável que existiu uma participação a título pessoal de alguns comunistas e membros da Frente na operação falhada para matar Salazar, o PCP criticou com veemência o atentado nas páginas do Avante! e, sintomaticamente, nunca o incluiu no seu historial de oposição ao salazarismo, ao contrário do que sucede com o 18 de Janeiro de 1934, objecto de uma "guerra de memória" entre anarquistas e comunistas que Fátima Patriarca descreveu num livro admirável, verdadeiro modelo de rigor e imparcialidade.

Sem entrar excessivamente em comparações descabidas entre as duas obras, importa assinalar, num balanço global, que o livro de João Madeira apresenta uma descrição mais completa e integrada dos factos, enquanto o de Valdemar Cruz é mais cativante e atraente para os leitores. Ambos merecem ser lidos, pois a história do atentado a Salazar, em especial os seus desenvolvimentos subsequentes, constitui um dos episódios mais interessantes da longa vida do Estado Novo.