Elisa Rodrigues: a cantora de jazz do país do fado

Há quem se interrogue se ela não será, afinal, o novo membro do grupo. Por Vítor Belanciano

Até agora a cantora Elisa Rodrigues, 26 anos, era conhecida no universo do jazz português e também por acompanhar a formação de Rodrigo Leão ao vivo. Mas ei-la envolvida na operação Field Of Reeds, dos These New Puritans. Tudo terá começado com algumas pesquisas realizadas por Jack Barnett na internet. Foi no YouTube que o líder do grupo inglês tomou contacto pela primeira vez com a voz da portuguesa. Depois ouviu o seu álbum Heart Mouth Dialogues, de 2011, com os músicos Júlio Resende no piano, Cícero Lee no contrabaixo ou Bruno Pedroso na bateria, deixou-se conquistar de vez.

Mais tarde surgiu o primeiro contacto e Elisa Rodrigues foi apanhada de surpresa. Pediu para ouvir as maquetas que tinham sido trabalhadas, sentiu-se atraída e, um dia, estava a viajar até Londres sem saber o que iria encontrar, apesar de ter noção da atracção de Jack Barnett por Portugal. "O disco está de certa forma ligado ao imaginário do fado. Algumas letras são inspiradas no fado. E o próprio disco contém alguma da melancolia do fado. Tudo isso porque o Jack tem grande interesse na cultura portuguesa. Mas apesar de ter ouvido algumas maquetas, ainda num estado embrionário, não sabia bem o que me esperava."

O que encontrou foi um processo de trabalho intensivo. "Foi difícil porque o Jack escreve de forma muito intuitiva e a maior parte dos músicos não está habituada a isso, mesmo aqueles que estudaram clássica. Eu tive que decorar tudo, porque não leio. Não tinha a ajuda da pauta." Uma hora de gravação diária, para uma voz, já pode ser considerado no limite do agressivo. Elisa esteve três dias em estúdio. "Foi uma coisa completamente fora do meu registo habitual, mas acabou por correr tudo bem e eles ficaram muito impressionados comigo. Mas não foi nada fácil. Quem ouvir o resultado final dificilmente se apercebe das dificuldades do processo complicado que foi."

Que os três These New Puritans ficaram impressionados com a voz e dedicação de Elisa Rodrigues pode ser aquilatado por surgir nas fotos de promoção, pelo facto de a terem convidado a acompanhá-los em digressão, por a terem solicitado para entrar nos vídeos das canções - "o que só não veio a acontecer porque me foi impossível", diz ela - e porque em todas as entrevistas a nomeiam como peça central na gravação do álbum.

De tal forma que existe quem se interrogue se ela não será, afinal, o novo membro do grupo: "Só comecei a pensar nisso quando me começaram a fazer essa pergunta", ri-se. "Eles são três, o núcleo é esse. Depois rodeiam-se de outros músicos", reflecte. "Mas não sei porque é que eles fizeram tanta questão para que aparecesse nas fotos. Dão-me bastante destaque mesmo na posição que ocupo em palco e falam imenso de mim. Ou seja, sinto-me respeitada, mas não sei o que vai acontecer no futuro."

Para já, nos concertos não se limita a participar nas canções do novo disco, fazendo-o também em relação a temas que ficaram de fora do alinhamento final, o mesmo sucedendo em canções do anterior Hidden. "Sim, canto também algumas das adaptações das canções do Hidden", esclarece, rindo-se quando declara que existem muitas pessoas que, no final dos concertos, lhe vêem dizer que eles a deveriam ter conhecido anos antes - "porque as canções mais antigas onde participo lhes soam muito bem."

Apesar da grande referência de Jack Barnett, quando pensou numa cantora portuguesa, fosse o fado, a verdade é que Elisa Rodrigues, apesar de já ter colaborado com António Zambujo e de cantar um tema de Amália Rodrigues, não sente que tenha "qualquer tipo de linguagem especificamente ligada ao fado." O seu universo continua a ser o jazz. Vai aliás entrar em estúdio esta semana para iniciar as gravações de novo álbum. "Nos últimos tempos decidi dar-me espaço para experiências novas, colaborar com outras pessoas e renovar energias", afirma ela, para concluir de imediato: "mas não quero descurar o percurso a solo."