Crítica

Matar Salazar

O atentado a Salazar relido como um thriller do Estado Novo.

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No dia 4 de Julho de 1937, pela manhã, Salazar desloca-se à residência de Josué Trocado, no nº 96 da Avenida Barbosa du Bocage, para aí assistir à missa dominical, celebrada pelo padre Abel Varzim. Ao apear-se do automóvel, na companhia do fiel chefe de gabinete Leal Marques, ocorre uma explosão que, apesar de violentíssima, falha o objectivo: matar o ditador.

Na sequência deste atentado, a PVDE acabaria por prender alguns homens (o "grupo do Alto do Pina") que, após serem torturados, acabam por confessar o crime. Anunciada triunfalmente nos jornais, a investigação terminaria aqui e, provavelmente, aqueles homens acabariam por ser condenados a pesadas penas de prisão. Aconteceu, porém, que o capitão de artilharia José Baleizão do Passo, comandante de divisão da PSP, encontraria, graças à argúcia de um seu subordinado, diversas incongruências na investigação feita pela polícia política. Numa jogada de alto risco, contacta uma estrela em ascensão no Governo, o subsecretário de Estado das Finanças, Costa Leite (Lumbrales), e este transmite a informação ao ministro do Interior, Mário Pais de Sousa. O que se passava era explosivo, quase tanto como a bomba que falhara o alvo. Estava em causa, nem mais nem menos, a credibilidade da investigação ao atentado contra a vida do Presidente do Conselho conduzida pessoalmente pelo director e pelo subdirector da PVDE, os capitães Agostinho Lourenço e José Catela. Muito possivelmente com conhecimento de Salazar, o ministro ordena a abertura de um inquérito ao trabalho da PVDE, o qual foi realizado pelo juiz Alves Monteiro e deu lugar a um volumoso processo.

Com base nesse processo, esquecido durante décadas nos arquivos da Polícia Judiciária, Valdemar Cruz conseguiu reconstruir a história das investigações, que culminariam na detenção do grupo que efectivamente tentara matar Oliveira Salazar. O livro complementa o depoimento memorialístico de um dos envolvidos nesse atentado, o anarquista Emídio Santana, e foi publicado pela primeira vez em 1999. Agora foi objecto de uma terceira edição, com acrescentamento de notas informativas sobre factos e nomes. Por muito que seja um lugar-comum, impõe-se dizer: o livro lê-se como um policial. E, na verdade, estamos perante uma obra "policial" na mais pura acepção da palavra. Com uma prosa directa e escorreita, sem se desviar do rumo dos factos, Valdemar Cruz descreve uma história fascinante, em que o atentado a Salazar é, de algum modo, o ponto menos importante, centrando-se a narrativa na "investigação da investigação", a qual, em si mesma, oferece um enredo apaixonante e ilustra diversos aspectos do salazarismo, nomeadamente as rivalidades entre as diversas polícias e as inimizades entre os seus mais altos responsáveis. Ao livro faltará, porventura, alguma contextualização histórica e, sobretudo, a informação sobre o desfecho do caso, designadamente sobre o que aconteceu aos verdadeiros autores do atentado (adianta-se o óbvio: foram condenados a pesadas penas de prisão).

Versando a mesma temática, e com apoio num conjunto mais amplo de fontes documentais, o livro de João Madeira tem um propósito mais ambicioso. Sem o afirmar de forma inteiramente explícita, João Madeira pretende, em boa medida, questionar a versão de Emídio Santana, nos termos da qual o atentado fora obra exclusiva de anarquistas da Confederação Geral do Trabalho. O subtítulo da obra é esclarecedor: A Frente Popular em Portugal. Adoptando, à semelhança de Valdemar Cruz, um registo "narrativo", "solto" ou "não académico", João Madeira descreve, logo nas primeiras páginas do livro, as personagens do grupo detido pela PVDE, traçando um retrato extraordinário do quotidiano das classes pobres da Lisboa dos anos 30, a que se associará um retrato não menos impressionante da prática da "porrada" e dos efeitos devastadores sobre as suas vítimas. A preocupação de João Madeira em demonstrar a sua "tese" condu-lo, porém, a interromper a narrativa com uma longa descrição do que foi a Frente Popular, que ocupa toda a segunda parte do livro. A história do atentado e das suas sequelas só é retomada nas páginas finais, o que perturba a linearidade descritiva e dificulta a leitura. Para mais, o envolvimento da Frente Popular acaba, no final, por não ser cabalmente demonstrado, já que, se é inquestionável que existiu uma participação a título pessoal de alguns comunistas e membros da Frente na operação falhada para matar Salazar, o PCP criticou com veemência o atentado nas páginas do Avante! e, sintomaticamente, nunca o incluiu no seu historial de oposição ao salazarismo, ao contrário do que sucede com o 18 de Janeiro de 1934, objecto de uma "guerra de memória" entre anarquistas e comunistas que Fátima Patriarca descreveu num livro admirável, verdadeiro modelo de rigor e imparcialidade.

Sem entrar excessivamente em comparações descabidas entre as duas obras, importa assinalar, num balanço global, que o livro de João Madeira apresenta uma descrição mais completa e integrada dos factos, enquanto o de Valdemar Cruz é mais cativante e atraente para os leitores. Ambos merecem ser lidos, pois a história do atentado a Salazar, em especial os seus desenvolvimentos subsequentes, constitui um dos episódios mais interessantes da longa vida do Estado Novo.