PSD, CDS e PS têm de conseguir um “acordo a sério”, defende Marques Mendes

Conselheiro de Estado avisa que Governo, partidos e até o Presidente podem ficar mal na fotografia se acordo falhar. Contactos entre partidos de esquerda são “exercício de hipocrisia política”.

Tendo em conta a expectativa formada em torno das negociações entre PSD, CDS e PS, os três partidos devem fazer um “acordo a sério e não apenas de generalidades e banalidades” para não defraudar o país, defende o conselheiro de Estado Luís Marques Mendes.

O ex-líder do PSD e também comentador político espera que seja uma “decisão rápida”, uma vez que o caso já se está a prolongar e “as expectativas das pessoas estão muito elevadas”. Quanto mais tempo demorar, maior será o choque se o acordo falhar. “Correm o risco de ficar todos, mas todos, mal na fotografia”, incluindo o Presidente da República, que obrigou os partidos a este entendimento, avisa.

Falando aos jornalistas do final de um almoço/debate do The International Club of Portugal, onde discursou sobre a reforma do Estado, Luís Marques Mendes considerou não ser indispensável neste momento o Presidente da República convocar o Conselho de Estado – até porque o fez há pouco tempo e Cavaco Silva conhece a opinião dos seus conselheiros, justificou. Mas reconhece que é uma “crise política má, que podia e devia ter sido evitada e que deve ser resolvida com rapidez”.

Na génese desta crise está uma opção errada do Governo: não ter feito a reforma do Estado logo no início da legislatura e ter deixado o assunto arrastar-se indefinidamente. A austeridade em que o país está mergulhado era uma “inevitabilidade”, mas Passos Coelho tomou a opção errada, segundo Marques Mendes: “Foi muito mais austero sobre as pessoas e as empresas e menos sobre o Estado, fazendo o ajustamento mais pelo lado da receita de impostos e menos pelo corte da despesa estrutural.”

Ora, para o ex-líder do PSD, as grandes reformas, como a do Estado, “ou se fazem nos primeiros dois anos de governação ou já não se fazem porque se deixa de ter apoio”. Mas não foi isso que o actual Governo fez porque achou que “conseguia fazer tudo sem mexer na reforma do Estado, e deixava-a para a sua segunda legislatura. Mas agora esse corte tornou-se um estado de necessidade”, imposto pela troika, pelo que sobra ao Governo um espaço de manobra “muito diminuto”.

Luís Marques Mendes diz mesmo que o corte dos 4700 milhões de euros “não é nenhuma reforma do Estado, mas a reforma da despesa do Estado”. Defendendo em seguida que o Governo tem de primeiro “entender-se relativamente aos objectivos e funções do Estado” e depois perceber quanto isso pode, no máximo, custar. Para fazer os cortes que o executivo diz serem necessários, é preciso “vontade e coragem”. "E se há políticos bem preparados, cultos e com vontade, faltam políticos com coragem – inclusive no PSD.”

Sobre os contactos entre os partidos mais à esquerda, nomeadamente o repto para o diálogo que o BE fez ao PS e que acabou gorado, e os contactos entre BE e PCP, Marques Mendes considera que essas movimentações são um mero “exercício de hipocrisia política”. Porque “é evidente que a esquerda está dividida e não tem hipóteses de se entender para governar. Gostam de passar a imagem de que se podem entender, dizem umas coisas, reúnem-se, fazem reptos e nas entrelinhas insultam-se”, criticou o social-democrata.

E não há hipocrisia política nestes contactos entre PS, PSD e CDS-PP? “Daqui a uns dias, teremos a resposta a essa pergunta”, deixando no ar que, se houver acordo, é porque ali não há hipocrisia.