Um mito numa fotografia

A foto de Vietto sentado no muro, com a bicileta sem roda da frente
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A foto de Vietto sentado no muro, com a bicicleta sem roda da frente DR

Folheando os livros da história da Volta à França, há uma expressão que se repete com honras de lenda. "O grande sacrifício de René Vietto", título sugerido tantas vezes. O jovem de 20 anos iniciou a sua primeira participação na Grande Boucle como gregário do lendário Antonin Magne, mas foi a revelação da prova ao ganhar quatro etapas e provocar uma célebre rivalidade com o seu colega.

Não ajudou o facto de a bicicleta do vencedor de 1931 estar constantemente a avariar. E quando Magne caiu na descida do Port d'Aspet, as suas hipóteses de ganhar um segundo Tour pareceram desaparecer. Mas o aprendiz foi em seu resgate, dando-lhe a roda da frente da sua bicicleta. Para a posterioridade, ficou a imagem de Vietto. Sentado no muro, olhar perdido, lágrimas no rosto, à espera do carro de apoio. O seu sonho amarelo acabava ali, naquela roda emprestada. A lenda estava criada. No entanto, a correspondência com a realidade não é, de todo, linear.

Em 1934, a organização permite a entreajuda entre ciclistas. Sem experiência, Vietto é escolhido para ser domestique, um ajudante omnipresente do seu líder. Talentoso trepador, ganha três etapas e lidera a classificação da montanha. Ao 15.º dia, no entanto, está já a 29 minutos do experiente corredor. Nesse dia, o primeiro nos Pirenéus, Magne cai e parte a roda dianteira. O jovem oferece-lhe a sua, mas, de acordo com o historiador holandês Benjo Maso, esta não encaixa na bicicleta. A salvação de Magne chega então da roda de outro colega, Georges Speicher, o vencedor do Tour no ano anterior.

Com a sua bicicleta sem roda da frente, encostado à berma, Vietto é fotografado. Entre a assistência está Jacques Goddet, que observa o momento e decide torná-lo uma história icónica no jornal L'Auto. Que Magne foi salvo pela equipa, ninguém duvida, mas o papel do ciclista de 20 anos é mais questionável.

Vietto espera pouco mais de quatro minutos pelo camião de apoio e termina a etapa apenas 4m33s atrás do vencedor, Roger Lapébie.

No dia seguinte, um problema na corrente volta a atrasar Magne. E é aí que Vietto tem um papel preponderante. Em fuga, na frente, é avisado de que o seu líder está em dificuldades. Abranda o ritmo, encontra-o e dá-lhe a sua bicicleta. Volta a ter de esperar pelo apoio, mas desta vez nenhuma foto é tirada. Indignado, o rapaz mostra-se insatisfeito com o papel de domestique. "Vou perder dez minutos! Não vou ser escravo para sempre". E perde mais quatro minutos.

Na 17.ª etapa, o "Monge" - o nome, ganhou-o pelo seu carácter taciturno - sai vencedor de uma maratona que incluía passagens no Col de Peyresourde e no Col d"Aspin e deixa o novato a mais de sete minutos. Segue-se uma jornada com as duríssimas ascensões ao Tourmalet e Aubisque. Vietto soma a quarta vitória e sobe ao terceiro lugar da geral, a uns distantes 43m05 do primeiro.

Dotado de impressionantes qualidades de escalador, o jovem francês está prestes a ver expostas as suas debilidades como rolador. No contra-relógio é apenas sétimo e perde mais de nove minutos. E, nos dias seguintes, continua a acumular segundos perdidos, mesmo até Paris.

Apesar das evidências - os tempos falam por si -, Goddet insiste em publicar a história. No seu artigo, replicado por muitos jornais, sugere que, sem ter feito o sacrifício, Vietto teria ganhado a Grande Boucle. "Longa vida a Vietto, o vencedor moral do Tour", lê-se nos cartazes dos adeptos presentes para assistir à volta dos campeões no velódromo de Paris. Os espectadores exigem a sua presença ao lado de Magne, o injustiçado (manteve a amarela vestida desde o segundo dia). À passagem de Vietto, ovacionam-no. Aplaudem de pé e baptizam-no com o nome que ficaria para sempre: "Rei René".

Para o jovem francês, aquela fotografia valeu-lhe a entrada na galeria dos favoritos dos franceses. Ele, a criança de Rocheville, o sensível que não esconde nem o sorriso nem as lágrimas, acaba de entrar na mitologia e no coração dos adeptos.

Depois da Volta à França, multiplica-se em presenças pagas, em entrevistas. Em 1939 e, depois, em 1947, ficará muito perto de conquistar a prova. Mas, cruel destino, nunca conseguirá. O seu lugar, no entanto, está conquistado. O mito perpetua-se pelos anos. Como escreveu o jornalista Georges Briquet, "uma lenda nasceu e ninguém se atreve a atacá-la".

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