O lugar ao morto

O que Portugal precisa agora é de Salazar. Não é "um" Salazar, como costumam pedir aqueles que são indiferentes ao nome déspota de serviço. É "o" Salazar, o verdadeiro. Mas não o dos saudosistas, que gostavam de escolher especificamente o Salazar industrioso de 1933 ou o Salazar autoritário de 1961. É mesmo o actual, o Salazar cadáver de 2013. Aquele que existe agora, acomodado num caixote de pinho, debaixo de sete palmos de fértil terra beirã. Estou convencido de que Portugal ficava mais bem entregue ao corpo exumado (e previamente sacudido) do ditador. Um morto não fazia pior que isto.

Se sentássemos o finado de Santa Comba Dão no Palácio de Belém, o que é que aconteceria? Provavelmente, cairia redondo no chão. Se enquanto vivo o registo já não lhe era favorável, em defunto a habilidade é ainda mais arriscada. Mas e se o aparafusássemos à cadeira? Como se compararia com o Presidente? Para já, quer Cavaco quer um morto são mestres a gerir silêncios. Qualquer um deles saberia manter-se calado. Aí, estão empatados. Mas os restos mortais de Salazar superiorizam-se aos restos ainda vivos de Cavaco, na medida em que não olham para a situação política do país do ponto de vista de um reformado com a pensão ameaçada.

Cotejadas com Passos Coelho, as ossadas de Salazar também levam de vencida o primeiro-ministro, uma vez que não cedem a chantagens do parceiro de coligação. Se Paulo Portas fizesse uma birra em frente da múmia do antigo Presidente do Conselho, esta manter-se-ia imperturbável. Ao contrário de Passos Coelho, que desiludiu todas as mães que não se deixam corromper pelo choro da criança caprichosa e a obrigam mesmo a comer a sopa. Mesmo que Paulo Portas sustivesse a respiração até ficar vermelho, o ex-Oliveira Salazar não se deixaria impressionar. Consegue suster a respiração muito mais tempo do que qualquer fiteiro.

Sobre Paulo Portas, a vantagem de ter o falecido Salazar também é óbvia. Um morto é um modelo de irrevogabilidade. Não há registo histórico de um defunto ter voltado atrás por sua vontade.

Mesmo em relação a quem não nos governa, mas se propõe a governar, a carcaça de Salazar também leva a melhor. Em primeiro lugar, consegue ter um ar menos macilento do que António José Seguro. Em segundo, tem ideias mais modernas do que as do PCP e BE.

É ir então ao Vimieiro e desencovar o que sobra do tirano, borrifá-lo com Old Spice e pô-lo em contacto com a troika. Se se enganarem na sepultura e trouxerem o morto errado, não faz mal. O efeito é o mesmo. Qualquer defunto tem mais sentido de Estado que estes vivos.